sexta-feira, 17 de junho de 2016

MANIFESTO MARCHA DAS VADIAS 2016 VADIAS CONTRA O FASCISMO: CUSPINDO NA CARA DO ESTADO



Estamos vivendo um contexto social e político no Brasil com intensos ataques à liberdade e à vida das mulheres cis e trans. O tema desse ano da Marcha das Vadias de Curitiba é “Vadias contra o Fascismo”, que denuncia e traz para as ruas a vontade de derrotar o fascismo diário presente nos nossos discursos, nos nossos comportamentos, nos nossos prazeres. É esse fascismo que tem culpabilizado as mulheres vítimas, promovido a cultura do estupro e aumentado a violência contra as mulheres. Marchamos porque, no Brasil, há uma denúncia de violência contra a mulher a cada sete minutos; marchamos porque a cada 11 minutos uma mulher é estuprada e mais de 55 mil casos de estupro são denunciados por ano no país; marchamos porque o Paraná é o décimo nono Estado que mais mata mulheres e Curitiba é a Capital que mais mata mulheres trans; marchamos porque o Mapa da Violência de 2015 nos mostra que o número de mortes violentas de mulheres negras aumentou 54% em dez anos (dados coletados das Secretarias de Segurança Pública e da Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República).
Marchamos porque a sociedade está marcada pela cultura do estupro, que faz milhares de vítimas todo ano. A violência contra nós, mulheres cis e trans, é exercida pelos homens e pelo Estado, organizado em um sistema patriarcal que decide, por exemplo, não reconhecer que houve crime de estupro em vídeo gravado pelos próprios estupradores; que agride e mata mulher, mãe, lésbica, negra, pobre e de periferia, como a Luana; que não apoia travestis queimadas na rua, como a Natacha; que culpabiliza as meninas que sofrem abuso sexual por familiares; que objetifica nossos corpos e nos chamam de vadias pelas roupas que usamos.
Além da violência física e psicológica, sofremos a violência estatal com os últimos retrocessos da política brasileira, como a extinção do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos (MMIRDH), a criação do Projeto de Lei n.º 5069/13 – que modifica a lei de atendimento às vítimas de violência sexual, negando a elas acesso a informação, a métodos contraceptivos e abortos garantidos por lei. E outros retrocessos, tais como as propostas do estatuto de nascituro, o estatuto da família, os esforços em retirar os debates de gênero e diversidade sexual dos Planos de Educação, o projeto de lei de castração química do Deputado Jair Bolsonaro, o mesmo homem que exaltou estuprador durante a votação do impeachment. É pela via institucional que o Estado segue nos matando; é essa política masculina, patriarcal e fascista que temos no Brasil, e que se utiliza de meios arbitrários para criar um governo majoritariamente de homens cis e brancos, e que continuará negando nossos direitos.
Além disso, é importante ressaltar neste Manifesto que os homens sempre indagam qual o seu papel no feminismo e questionam, também, nossa militância, mas ficam apenas nos questionamentos. O exemplo disso está quando saímos às ruas gritando #ForaCunha em 2013, por conta da tentativa de aprovação do Estatuto do Nascituro. Desde lá, os movimentos feministas perceberam que ele é perigoso. No entanto, foi só quando ele mexeu com o PT que a Esquerda “percebeu” quem é Cunha. Muitos desses homens que se dizem companheiros de luta cruzaram os braços, não saíram conosco e se omitiram na importância de tirar o Deputado do poder. Ou seja, de certa forma, protegeram o machista que presidia a Câmara dos Deputados, assim como protegem uns aos outros diariamente quando permanecem em silêncio quando o amigo faz uma piada machista, racista e LGBTfóbica, quando diz que embebedou a menina, quando chama a mulher de “vadia”, quando mexe com mulher na rua, quando nega a cultura do estupro ou quando nos pedem para revermos nossos posicionamentos.
Dito isso, importante frisar que as mulheres carregam, e sempre carregaram, a esquerda nas costas, tanto através do trabalho reprodutivo e produtivo, quanto historicamente, foram as mulheres que fizeram as primeiras greves durante a Revolução Industrial, foram as mulheres as primeiras a exigir direitos, mesmo do ponto de vista teórico houve mulheres fazendo comida e lavando roupa pra que os homens revolucionários pudessem escrever algo. Homens, lutar contra o fascismo também é ouvir as mulheres!
Marcharemos até que todas sejam livres!





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