O
assunto do dia nesta terça-feira, 22 de fevereiro, é o aumento
crescente da tensão no palco internacional, com a possibilidade de uma
guerra por conta da crise na Ucrânia. A decisão de Putin de reconhecer duas regiões do país vizinho como Estados independentes e o envio de tropas ganha as manchetes de praticamente todos os jornais — inclusive os brasileiros. O governo Bolsonaro pede retirada de tropas russas da região, mas evita críticas a Putin.
Na mídia nativa, eis as manchetes de primeira página. Folha: Putin reconhece separatistas na Ucrânia e envia tropas de apoio. Estadão: Rússia envia tropas à Ucrânia após reconhecer duas regiões separatistas. O Globo: Putin envia tropas à Ucrânia e agrava crise. Valor: Governo vai lançar um novo pacote de crédito.
A investida de Bolsonaro na economia é a tentativa de colocar sua candidatura em níveis mais competitivos. As medidas de desburocratização na contratação de crédito adotadas em 2020 devem ser reeditadas no pacote de R$ 100 bilhões.
E o Planalto prepara anúncios diários com início após o carnaval. O
presidente voltou a defender aumento para policiais rodoviários.
Declaração foi feita em meio a pressões de outras categorias do
funcionalismo que também cobram reajustes.
Sobre o agravamento da crise na Ucrânia, os desdobramentos na economia são imediatos, com o petróleo ultrapassando US$ 99 o barril — o que pode resultar em novos aumentos dos combustíveis pela Petrobrás — e a Alemanha anunciando a interrupção do gasoduto Nordstream 2, que abastece a Europa — leia mais em Internacional.
Na política interna, a notícia do dia é a nova rodada da pesquisa da CNT, indicando ampla vantagem de Lula na corrida presidencial. O ex-presidente lidera com 42,2%, Bolsonaro cresce a 28% e Moro cai, mostra pesquisa CNT/MDA. A notícia repercute fora do país, com reportagens em veículos como Reuters e o argentino Página 12 — leia mais em Lula, na próxima página.
No Estadão, Eliane Cantanhede comenta: Em vez de cair, Bolsonaro recupera pontos lentamente. “Alta
rejeição não define a derrota de Bolsonaro desde já, ele não é um
adversário fácil. assim como o trumpismo nos EUA, o bolsonarismo está
enraizado no Brasil”, observa.
No Globo, Míriam Leitão entrevista o governador da Bahia: Rui Costa defende um pacto nacional.
Ele acha que o PT deveria conversar com economistas de outras visões e
com pessoas de todo o arco da sociedade, “porque para colocar o Brasil
nos trilhos vai ser preciso a ajuda de muita gente e um pacto de
governança”. Rui Costa concorda com o senador Jaques Wagner de que o PT precisa de humildade durante o processo eleitoral e, se ganhar, para governar o Brasil.
Ainda sobre as eleições, Folha noticia que o PT investe no trio São Paulo, Rio e Minas para dar estabilidade a possível governo Lula. “Dirigentes do partido avaliam que estados serão importantes para governabilidade”,
resume. A eleição de petistas e aliados para os governos do eixo ganhou
prioridade nas articulações para a campanha de Lula. Segundo
integrantes do PT, além dos 60 milhões de votos em jogo, esse triângulo
pode ter governadores que atuem para conter eventuais abalos a uma
gestão do ex-presidente — incluindo o risco de um impeachment.
Na economia, atenção à notícia de que a conta de luz pode subir com briga entre governo e térmica da J&F. “Contratada no auge da crise hídrica, Âmbar pediu na Justiça R$ 740 milhões por energia; governo quer pagar R$ 19 milhões”, destaca a Folha.
As distribuidoras de energia e grandes empresas estão se mobilizando
para reunir milhões de reais e cumprir uma decisão judicial liminar de
primeira instância que o governo não consegue reverter e pode pressionar
ainda mais a conta de luz. O rateio milionário vai bancar um pagamento
para a gaúcha Usina Termoelétrica Uruguaiana (UTE Uruguaiana), da Âmbar,
empresa de energia do grupo J&F, o mesmo que é dono da companhia de
carnes JBS.
Vale a leitura da coluna de Cristina Serra, na página 2 da Folha, apontando como o Telegram poderá ser instrumentalizado para um ataque à democracia. “Tudo indica que ele será o substituto, piorado, do que foi o WhatsApp em 2018”, aponta a jornalista. “O
Telegram está no centro da discussão sobre ferramentas digitais de uso
planetário que atuam à margem das autoridades e das leis dos países”. Ela diz que “não
é mera coincidência que Bolsonaro tenha viajado à Rússia, país de
origem do aplicativo, e à Dubai, sede atual do Telegram”. Leia a íntegra ao final deste briefing.
LULA
A Reuters distribui um informe global noticiando que Lula mantém liderança saudável na corrida presidencial do Brasil, mostra pesquisa. “O
ex-presidente de esquerda do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, ainda
detém uma vantagem saudável na corrida presidencial deste ano sobre o
titular de direita Jair Bolsonaro, de acordo com uma nova pesquisa
divulgada nesta segunda-feira”, resume.
O argentino Página 12 também destaca em reportagem de alto de página que Lula lidera nova pesquisa antes das eleições de outubro. “O líder do PT venceria em todos os cenários do segundo turno”,
ressalta. O ex-presidente do Brasil está à frente de nova pesquisa
presidencial antes das eleições de 2 de outubro de 2022 com 42,2% da
intenção de voto. A pesquisa da CNT revelou nesta segunda-feira que Lula supera as preferências do presidente Jair Bolsonaro, com 28%.
Na Folha, Hélio Schwartsman escreve que, para Lula, governar pode ser mais difícil do que vencer. “O que quer que Lula planeje fazer caso eleito sairá caro”, vaticina. “O que parece até mais preocupante do que o pleito para Lula é
a governabilidade a partir de 2023. Nos últimos anos, os poderes da
Presidência foram bem reduzidos. Os instrumentos que o Executivo
tradicionalmente tinha para manter-se com a iniciativa política, como
medidas provisórias quase ilimitadas e a possibilidade de liberar ou não
emendas parlamentares, foram aos poucos transferidos para o próprio
Legislativo. Hoje, os parlamentares se viram muito bem sem o presidente”.
Ainda sobre Lula, Folha publica artigo de Flávio Bolsonaro acusando Sérgio Moro de ter soltado Lula da cadeia. “Como ex-juiz não cumpriu a lei, STF reconheceu seus abusos de autoridade”, aponta. O texto é agressivo: “Quem
soltou Lula foi Sergio Moro. Não faltaram provas de que Lula saqueou o
Brasil, escalpelou estatais como a Petrobras, recebeu propina de
empreiteiras, tomou decisões como presidente da República com o objetivo
de abarrotar seus próprios bolsos e receber doações de campanha
milionárias de empresas por ele beneficiadas em seu governo”.
E o Valor noticia que Lula tenta destravar acordo em São Paulo. O ex-presidente negocia com França candidatura única, com o lançamento de Haddad. O diário econômico ainda informa que o PSB oficializa apoio a Lula depois de aliança com PT em Pernambuco. “Apoio a ex-presidente é feito mesmo com entraves a uma federação entre siglas de esquerda”, resume o jornal.
O Painel da Folha informa que o PC do B de São Paulo decidiu apoiar a candidatura de Fernando Haddad para
o governo e gerou reclamação de Márcio França. Legenda comunista tomou
decisão no último sábado e deve fazer anúncio nesta semana.
BRASIL NA GRINGA
Na Reuters, despacho destaca que Guedes diz que vai ficar no segundo mandato de Bolsonaro. “O
ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, disse estar pronto para
permanecer no cargo para um potencial segundo mandato do presidente Jair
Bolsonaro, mas indicou que precisaria de apoio para sua agenda
pró-mercado”, relata.
ABORTO
Ainda no plano internacional, outra notícia importante é que o Supremo Tribunal da Colômbia descriminalizou o aborto.
Em uma mudança histórica, o país se torna a terceira grande nação da
América Latina a expandir o direito ao aborto em pouco mais de um ano,
energizando ativistas do direito ao aborto em uma região fortemente
católica.
INTERNACIONAL
O agravamento da crise
na Ucrânia ganha as manchetes em praticamente todos os jornais do mundo.
Nos chineses Global Times e Diário do Povo, a escalada no leste europeu
ganha centralidade das manchetes. No Global Times: Putin assina decretos reconhecendo duas "repúblicas independentes" no Donbass, leste da Ucrânia. No Diário do Povo: Ministro
das Relações Exteriores da China pede a todas as partes na questão da
Ucrânia que permaneçam contidas, resolvendo disputas por meios pacíficos.
O New York Times destaca na primeira página que Putin ordena forças para regiões da Ucrânia apoiadas pela Rússia e sugere objetivos militares mais amplos. “Os
movimentos do líder russo foram os mais flagrantes até agora em um
confronto com o Ocidente que ameaça se transformar na maior ação militar
na Europa desde a Segunda Guerra Mundial”, reporta. Na segunda chamada, o NYT informa que EUA oferecem resposta inicial limitada à Rússia, pois pesa sanções mais duras. “O
presidente Biden enfrenta o desafio de manter a unidade com os aliados
enquanto busca equilibrar a dissuasão e a punição ao lidar com o
presidente Vladimir Putin, da Rússia”, ressalta.
Washington Post também coloca o aumento da tensão no leste europeu na manchete principal: Putin envia tropas ao leste da Ucrânia. “A ação do presidente russo foi uma escalada dramática em uma crise que ameaça uma guerra em grande escala”, informa. “A
ação de Putin – desafiando diretamente as advertências dos EUA e da
Europa – foi rapidamente condenada por Washington e Bruxelas, com altos
funcionários prometendo sanções em resposta ao reconhecimento das
repúblicas autodeclaradas”.
Wall Street Journal também é direto: Putin ordena envio de tropas para regiões separatistas na Ucrânia. O presidente russo reconheceu anteriormente sua independência, aumentando as tensões com o Ocidente. Em outra reportagem, o WSJ aponta o fim de jogo de Putin: desvendar os acordos pós-Guerra Fria que humilharam a Rússia. “As
forças militares de Moscou ameaçam a Ucrânia, mas o prêmio maior é a
restauração da esfera histórica de influência da Rússia que se estende
pelo Leste Europeu”, aposta. E no Financial Times: Putin ordena tropas no leste da Ucrânia após reconhecer repúblicas separatistas.
A reação do mercado e a possibilidade de sanções também são outros destaques do Financial Times: Ocidente prepara sanções à Rússia após Putin ordenar tropas para a Ucrânia.
“Ação será ‘primeira barragem’, diz primeiro-ministro britânico Boris
Johnson”, relata o jornal. Enquanto isso, o mercado reage. As ações globais caem e o petróleo salta enquanto Putin coloca a Rússia em pé de guerra. O Times relata que as tensões empurram preço do petróleo acima de US$ 99 o barril pela primeira vez desde 2014.
O Guardian destaca que Putin está “em rota de colisão” com o Ocidente ao declarar que as negociações estão “em um beco sem saída”. O
Reino Unido deve anunciar sanções mais tarde, com o primeiro-ministro
britânico Boris Johnson dizendo que a decisão do Kremlin é um “mau
presságio” para o conflito, relata o jornal.
Putin envia tanques para a Ucrânia é a manchete do Times, com o jornal chamando-a de “invasão militar de fato do canto leste da Ucrânia”. O
jornal diz que as sanções do Reino Unido terão como alvo indivíduos e
empresas com ativos na Grã-Bretanha, mas toda a gama de medidas não será
implantada a menos que haja uma “invasão total”.
O francês Le Monde destaca em manchete na home page que, em choque, a Europa deve primeiro se limitar a sanções “direcionadas” contra a Rússia. “Medidas contra Moscou podem ser decididas na tarde de terça-feira em uma reunião de chanceleres em Paris”, informa. E a Alemanha suspendei a autorização do gasoduto Nord Stream 2, em resposta aos anúncios de Putin no Donbass. O parisiense Libération opta por ofender Putin na manchete do site: O louco de Moscou. “Emmanuel Macron está hoje diante de um Vladimir Putin, talvez levando um pouco longe a teoria do louco”, destaca.
O alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung destaca em manchete que Putin envia tropas ao leste da Ucrânia. E ressalta: “Presidente russo fala do perigo de mais derramamento de sangue, enquanto Borrell ameaça com sanções”. Diz o jornal: “De
acordo com um decreto assinado pelo chefe do Kremlin em Moscou na
segunda-feira, as unidades devem garantir a paz nas ‘Repúblicas
Populares de Lugansk e Donetsk’, que Moscou reconhece como estados
independentes”, resume.
No site do FAZ, a manchete é governo federal interrompe a certificação do Nord Stream 2. “Devido
à escalada da crise na Ucrânia, o chanceler Scholz decidiu suspender o
comissionamento do oleoduto Nord Stream 2 no Mar Báltico. E a Comissão
da UE aparentemente também está propondo sanções inesperadamente
abrangentes”, reporta.
Mas o diário alemão diz que Moscou está se preparando para sanções. “O
presidente Putin diz que as sanções só tornarão a Rússia mais
forte. Mas os economistas não pensam assim. Como está a economia do
país?”, escreve Katharina Wagner.
O NYT analise ainda a estratégia da Casa Branca: cortejando aliados, divulgando os planos de Putin: por dentro da corrida de Biden para evitar a guerra. “O
presidente Biden tomou três decisões críticas sobre como lidar com as
provocações da Rússia, com o objetivo de evitar conflitos armados na
Ucrânia”, resume.
Em artigo no New York Times, Thomas L. Friedman aponta que a guerra é de Putin, mas a América e a OTAN não são espectadores inocentes. “O
apego de Putin à Ucrânia não é apenas nacionalismo místico. Há dois
troncos enormes alimentando esse incêndio. O primeiro registro foi a
decisão impensada dos EUA na década de 1990 de expandir a OTAN após –
na verdade, apesar – do colapso da União Soviética”, observa. “E
o segundo e muito maior registro é como Putin cinicamente explorou a
expansão da OTAN mais perto das fronteiras da Rússia para reunir os
russos ao seu lado para cobrir seu enorme fracasso de liderança”. |