segunda-feira, 30 de março de 2020

Sem Trump, Bolsonaro se isola no mundo


O presidente Jair Bolsonaro achou por bem deixar o Alvorada, cedo no domingo, para passear por um mercado aglomerado de Ceilândia, cidade satélite de Brasília. Depois, seguiu para Taguatinga, também nas proximidades do Plano Piloto, e depois Sobradinho. Em ambos os lugares, insistiu em duas mensagens. “A hidroxicloroquina está dando certo em tudo quanto é lugar”, afirmou. Ainda em testes, e não recomendado para uso generalizado sequer pelo Ministério da Saúde, é uma das drogas exploradas para tratamento do novo coronavírus. “Esse isolamento horizontal”, seguiu, “se continuar assim, com a brutal quantidade de desemprego que teremos pela frente, teremos um problema seríssimo que vai levar anos para recuperar.” O presidente tem em mãos pesquisas internas, de acordo com apuração do Poder 360, que sugerem apoio nas camadas mais humildes da população, que temem a falta de receita por conta da quarentena. (Poder 360)
Com ampla repercussão negativa, o Twitter achou por bem apagar os posts da conta do presidente divulgando seu passeio. (Poder 360)
As redes sociais estão particularmente atentas a mensagens que provoquem desinformação neste período. Mas é a primeira vez que o presidente brasileiro é claramente marcado como um agente de desinformação em sua rede favorita. Antes, apenas o venezuelano Nicolás Maduro havia tido posts apagados, segundo o Painel. (Folha)
O racha no governo está se tornando mais nítido. No sábado, o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, que se portou de forma hesitante ao longo da semana, tornou à ênfase anterior. “Daqui a duas semanas, três, os que falam ‘vamos fazer carreata’ são os mesmos que ficarão em casa”, disse em entrevista coletiva. “Não é hora. Se sair andando todo mundo de uma vez, vai faltar atendimento para rico e pobre.” (Estadão)
Mandetta ainda não comentou o passeio de Bolsonaro, em rompimento à quarentena. “Ele vai manter a posição da ciência, mesmo que isso signifique a sua demissão”, ouviu Gerson Camarotti de um aliado. (G1)
Pois é... Vários membros do núcleo mais próximo do presidente estão há vários dias trabalhando em home office, conta Bela Megale. (Globo)
Marcelo de Moraes e Vera Magalhães: “Cada vez mais desgastado, Bolsonaro decidiu abraçar o discurso de defesa da economia para tentar obter apoio de setores do empresariado e do mercado financeiro, além de seu público nas redes sociais. A estratégia, no entanto, tem feito com que ele aumente seu isolamento em relação a outros líderes mundiais, a governadores e prefeitos, ao Congresso, à Justiça, que tem derrubado medidas suas em série, e a setores mais amplos da sociedade, que têm intensificado os protestos na forma de panelaços diários. A controvertida estratégia mostra, mais uma vez, que o presidente tenta se sustentar de pé na base do método tentativa e erro diante do que poderá ser a maior calamidade do século. Pressionado por empresários que o apoiam, Bolsonaro adotou essa linha de defender o afrouxamento dos controles para favorecer a economia numa estratégia na contramão do que acontecia no resto do planeta. A mesma ideia prevaleceu em Milão, na Itealia, no início da chegada da doença na cidade. Um mês depois, o prefeito de Milão veio a público reconhecer seu erro, depois de mais de quatro mil vítimas fatais.” (BR Político)
Elio Gaspari: “Passará o tempo e ficará a lembrança de que, durante a epidemia do Covid, o presidente da República fez confusões, gracinhas e provocações com delírios autoritários. Brincando com a crise sanitária, Bolsonaro causou estragos, mas os governadores e as lideranças parlamentares contiveram a ruína. Resta a crise econômica, paralela e duradoura. Nela, não haverá lugar para gracinhas, fantasias ou teatrinhos como que se organizou com amigos da Federação das Indústrias de São Paulo. A mente tumultuada do capitão produz frases desconexas. Um exemplo: ‘O povo tem que parar de deixar tudo nas costas do poder público’. Ele nunca recebeu um só centavo que não viesse das arcas do Tesouro, que é sustentado por esse mesmo povo. Para Bolsonaro, tudo ‘é uma questão de poder’. Nas suas palavras, ‘se acabar a economia, acaba qualquer governo, acaba o meu governo’. Engano, nenhum governo corre o risco de acabar, mas o dele depende de Jair Bolsonaro. (Globo ou Folha)



Enquanto isso... Em sua entrevista coletiva diária, o presidente americano Donald Trump deu um cavalo de pau nas orientações que vinha passando nas últimas semanas. Anunciou que o período de distanciamento social deve se estender no mínimo até o final de abril. Trump foi pressionado pelos especialistas liderados pelo doutor Anthony Fauci, principal epidemiologista dos EUA, que acenou com a possibilidade algo entre 100 e 200 mil mortos mesmo com as políticas de contenção. Bolsonaro é, agora, o único presidente do mundo a questionar a quarentena. (CNN)




Há um clima estranho no ar — um clima de censura, de ameaça a quem fala o que pensa. Democracia existe quando tanto esquerda quanto direita podem se apresentar para um debate aberto e franco, quando uma imprensa diversa pode expor os fatos que levanta, além das opiniões de quem reflete. Apoie o jornalismo. É hora. 

Mídia 30/03

DOS JORNAIS DE HOJE: Folha, O Globo e Estadão destacam em suas capas a ida de Jair Bolsonaro a lojas em Brasília. No geral, os quatro veículos aqui analisados tratam do “tour” do presidente como uma afronta ao ministro da Saúde. O conflito deve piorar nesta semana, preveem os jornais. Bolsonaro foi além do passeio e afirmou que estaria pensando em baixar um decreto impondo o fim do isolamento social. Todos os jornais apontaram que a decisão seria contestada na Justiça e dificilmente poderia ser implementada. Sobre o final de semana presidencial, os jornais também informam abordam as postagens do perfil de Jair Bolsonaro que foram apagadas pelo Twitter por terem sido consideradas impróprias.
A Folha aponta que o presidente estaria em conflito com governadores, ministros do seu governo, prefeitos de todo o Brasil e com cientistas. O jornal O Globo complementa, publica entrevista com o professor de Harvard Steven Levitsky. Ele afirma que Bolsonaro tem comportamento irresponsável. O Estadão mostra também que o vice-presidente está em rota de colisão com Jair Bolsonaro. Já o Valor Econômico mostra que a OCDE está cobrando que o governo brasileiro realize uma política para o confinamento da população. O ministro da Economia Paulo Guedes aparece no noticiário de forma contraditória. Ele diz que como cidadão deseja ficar em casa, mas que a economia pode não aguentar o período de confinamento estimado pelo Ministério da Saúde.
Folha e Estadão mostram também que a tensão nos presídios está cada vez maior. Enquanto o governo do Estado de SP impõe mais restrições aos presidiários, o PCC lança um documento pedindo que advogados requisitem a liberação de presos que se enquadrem no grupo de risco da Covid-19.
Depois de algumas semanas, finalmente, os jornais começam a falar sobre a situação de quem vive nas favelas. Existem reportagens sobre o tema em todos os jornais.
 
 
CAPA – Manchete principal: *”Bolsonaro ignora Mandetta e visita comércio de Brasília”*
EDITORIAL DA FOLHA - *”Pandemia nas favelas”*: A pandemia de Covid-19 impõe desafios diferentes para cada país. Aqui, 11,5 milhões de brasileiros moram em casas superlotadas, com mais de três pessoas por dormitório, e 31 milhões não têm acesso a uma rede geral de distribuição de água —cuja falta é comum nas favelas da Rocinha, no Rio, ou de Paraisópolis, em São Paulo. Populações pobres do Brasil sofrem de doenças infecciosas como malária e dengue, agravadas pela urbanização desordenada. Assentamentos precários carecem, por definição, de infraestrutura básica. Não surpreende, com efeito, que a agência das Nações Unidas para moradia preveja que o impacto do novo coronavírus vá ser maior em áreas densamente povoadas, atendidas por sistemas de transporte superlotados e sem sistema adequado de coleta de lixo. Projeta-se que quase 10% da população brasileira viva hoje em “aglomerados subnormais”. O último censo demográfico do IBGE, realizado em 2010, antes da recessão de 2014-16, contabilizou 6.329 favelas em 323 municípios.
Enquanto as autoridades demoram para detalhar como a ajuda emergencial chegará a trabalhadores informais, desempregados e outros vulneráveis, a vida não espera. Reportagem da Folha mostrou como a fome tem exigido que moradores de favelas paulistanas saiam às ruas em busca de ajuda. Pesquisa do Data Favela constatou recentemente que 72% dos habitantes desses aglomerados não dispõem de poupança suficiente para manter por uma semana seu padrão de vida já precário. Além da transferência imediata de renda para esse contingente desassistido, são imprescindíveis medidas de curto e médio médio prazos que aumentem a resiliência dessas comunidades. Autoridades locais de saúde devem fortalecer as redes comunitárias já mobilizadas para o combate à Covid-19 nas favelas. Do Complexo do Alemão (Rio) a Heliópolis (São Paulo), moradores têm se mobilizado para arrecadar itens de higiene, alimentos e água. Urge elaborar diretrizes claras de ação, baseadas em evidências e adaptadas para a realidade de populações carentes. Nesse sentido, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade formulou um material acessível com orientações sobre a Covid-19 destinadas a favelas e periferias. Ocioso dizer que, a longo prazo, só políticas habitacionais consistentes e a superação do vergonhoso atraso brasileiro em saneamento básico constituem respostas verdadeiras ao problema. Sem isso, restam apenas paliativos.
PAINEL - *”Se Bolsonaro não agir, vai haver desobediência civil e povo vai quebrar tudo, diz Caiado”*: O governador Ronaldo Caiado (DEM-GO) afirma que a "urgência urgentíssima" do momento é que o governo Jair Bolsonaro tome medidas o mais rapidamente possível para garantir a alimentação das pessoas. Ele diz que é a única forma para conseguir manter os cidadãos em casa e poder prosseguir na linha do isolamento social para enfrentamento ao coronavírus. Caiado afirma que, se nada for feito de forma imediata, vai haver desobediência civil e o povo vai quebrar tudo. "Vamos fazer o atendimento social rápido, urgente, emergencial, ou vamos dar motivação para população promover a desobediência civil para se alimentar e sobreviver", disse Caiado ao Painel. Um dos principais aliados de Bolsonaro, o governador rompeu após o presidente relativizar as medidas restritivas para combater a doença em pronunciamento na TV, quando voltou a chamar o vírus de gripezinha.
PAINEL - *”Com liminar, Judiciário entrega a Guedes responsabilidade para agir na crise, dizem políticos”*: A liminar concedida pelo ministro Alexandre de Moraes, neste domingo (29), autorizando o governo a gastar em tempos de coronavírus, foi lida por analistas e políticos como um recado a Paulo Guedes: a bola está contigo. A avaliação é a de que, com isso, tanto Judiciário quanto o Legislativo desmontam qualquer desculpa para a inércia e, pior, a possível responsabilização dos demais poderes pela letargia do governo Bolsonaro e sua equipe.​
Uma proposta de emenda constitucional, batizada de PEC do orçamento de guerra, já estava sendo costurada no Legislativo e com o mesmo propósito.

PAINEL - *”Insatisfeitos com demora na liberação de verba, governadores e prefeitos ampliam gastos sociais”*: Governadores e prefeitos têm se queixado da demora da equipe econômica em liberar o auxílio prometido aos mais vulneráveis e, depois das medidas protetivas na saúde, abriram nova frente de ação à parte do governo federal. São Paulo e Espírito Santo ampliaram programas de transferência com dinheiro estadual e o Ceará deve apresentar o mesmo nesta segunda (30). Em Salvador, ACM Neto (DEM) anunciou o repasse de R$ 270 mensais a famílias de baixa renda.
Prefeitos das grandes cidades (com mais de 500 mil habitantes) querem que a União reserve para eles um volume maior de recursos do combate ao coronavírus. O argumento é que as metrópoles recebem muitos pacientes do interior, o que vai se intensificar com a doença.
PAINEL - *”Impacto ecônomico de crise do coronavírus faz disparar procura do Alô, Trabalho”*: A preocupação com os efeitos da crise do coronavírus fez disparar a demanda do Alô Trabalho, central de atendimento do governo federal que auxilia trabalhadores e empregadores com informações sobre seguro-desemprego e legislação trabalhista. Em fevereiro, o serviço, que opera pelo número telefônico 158, recebeu uma média de 9.000 ligações por dia. Em março, foram 12.000 até o dia 25. Foram 300 mil ligações nos últimos 30 dias. Por causa do aumento, há reclamações de que o telefonema não completa até o atendente. O Painel conseguiu falar no número após a quarta tentativa. Nas três primeiras, uma gravação avisava que todos estavam ocupados.
PAINEL - *”Em teleconferência com empresários da Fiesp, Guedes alfineta herdeiro da J&F”*
*”Após Mandetta defender isolamento, Bolsonaro faz giro por comércio em Brasília”* - Em meio à pandemia do novo coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) saiu de carro na manhã deste domingo (29) de sua residência oficial, o Palácio da Alvorada, para visitar pontos de comércio local e o Hospital das Forças Armadas (HFA). A visita de Bolsonaro gerou aglomeração de pessoas no momento em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o próprio Ministério da Saúde recomendam isolamento social para evitar o contágio do novo coronavírus, que já matou 114 pessoas no Brasil. O comboio presidencial passou por pontos de comércio na Asa Norte e no Sudoeste, além de Ceilândia e Taguatinga (cidades-satélites de Brasília). Bolsonaro falou com funcionários de supermercados e padarias e com vendedores autônomos. Em um dos momentos, foi ao HFA. Questionado diversas vezes sobre o motivo da visita ao hospital, preferiu não responder. Mais tarde, quando ouviu novamente a pergunta em frente ao Palácio da Alvorada, afirmou que queria ver o fluxo de pessoas por lá. Em Ceilândia, Bolsonaro conversou com vendedores como um assador de churrasco em espetinhos e defendeu sua visão de o comércio ficar aberto. “Eu defendo que você trabalhe, que todo mundo trabalhe. Lógico, quem é de idade fica em casa”, afirmou o presidente. “Às vezes, o remédio demais vira veneno", disse em referência à restrição de circulação e os reflexos para a economia.
“A gente tem que trabalhar”, disse o vendedor sob o olhar do presidente e seus seguranças. “A morte está aí, mas seja o que Deus quiser. Só não pode ficar é parado, com medo de morrer. Se não morrer de doença, morre de fome. Eu prefiro morrer de nenhum jeito”, disse o comerciante. “Não vai morrer, não. Para alguns, realmente... é complicado”, disse o presidente. Enquanto se movia de um ponto a outro, Bolsonaro ouviu manifestações como “mito” e “estamos juntos” e posou para fotos com pessoas. Após uma mulher pedir a reabertura de templos, falou que vai recorrer da decisão da Justiça que barrou na semana passada os efeitos de seu decreto que liberava igrejas e casas lotéricas de funcionar. Ele também ouviu manifestações críticas, como as falas de duas pessoas quando ele se preparava para entrar no carro e ir embora. Uma voz masculina fala em favor do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. “Presidente, confia no Mandetta, ele é o cara”, disse um homem. Em seguida, uma mulher defendeu o isolamento. “Isolamento para nós, hein? Isolamento. Sem isolamento a gente não se cuida”, afirmou. Quando Bolsonaro parou em frente a uma banca de verduras, chamando a atenção e paralisando as atividades, uma cliente ao lado do presidente chegou a reclamar que estava esperando o troco. Outra pessoa falou para o presidente comprar comida para ela. “Estou rodando por aí. Vou ouvir alguma coisa, contra ou a favor. Sugestões também”, disse o presidente. Bolsonaro evitou cumprimentar pessoas com apertos de mão, conforme recomendam as autoridades de saúde.
Ao ser questionado se o ato não contrariava a orientação do Ministério da Saúde, Bolsonaro perguntou ao jornalista o que ele estaria fazendo ali. O repórter respondeu que estava trabalhando e o presidente falou que ele também. O jornalismo é considerado uma atividade essencial durante o estado de calamidade, conforme decreto do próprio governo. “Estou perguntando o que eles acham de trabalhar ou não, se estão com medo do vírus ou não. Colhendo o sentimento da população. O desemprego tem apavorado as pessoas. Pessoas humildes, de Ceilândia e Taguatinga. Essas pessoas não têm mais o que comer em casa”, afirmou Bolsonaro.
Novamente quesitonado sobre Mandetta, Bolsonaro falou que não iria desautorizar o ministro mas defendeu a flexibilização das medidas de restrição. “Não vou desautorizar quem quer que seja. Esse isolamento horizontal, se continuar assim, lá na frente [haverá] uma brutal quantidade de desemprego e teremos um problema seríssimo que vai levar anos para ser resolvido. Essas pessoas humildes que perdem o emprego não conseguem mais”, disse o presidente. Para ele, o contágio virá de qualquer forma e que o trabalho de contenção serviria para postergar a infecção das pessoas. “Essa luta toda não é para evitar contágio e infecção, porque ela virá. É para diminuir a onda. Você, por exemplo, em vez de ser infectado hoje, que o seja amanhã ou daqui a 15 dias, esse é o trabalho”, disse. Ele disse ainda que o país só ficará imune quanto a maioria da população for infectada. “A crise infelizmente virá. O pais só fica isento, imune, depois que 60% ou 70% forem infectados. Até porque não tem vacina para tal”, afirmou. O presidente voltou a falar da hidroxicloroquina, que tem sido usado em fase de testes para o tratamento do novo coronavírus, e disse que “graças a Deus o remédio está aí”. O giro de Bolsonaro ocorre um dia após Mandett ter reforçado a importância do distanciamento social à população nesta etapa da pandemia do coronavírus. Ele criticou, por exemplo, as carreatas, impulsionadas por discurso do próprio presidente, que pedem a retomada da rotina em alguns estados —em São Paulo, uma delas passou pelo centro da cidade na manhã deste domingo, sendo recebida com panelaços em alguns prédios e gritos de "Fora, Bolsonaro".
Salvador também teve carreata na manhã deste domingo (29). O grupo de manifestantes pedia a volta do funcionamento do comércio e o fim do isolamento social. O buzinaço durou cerca de duas horas. Partiu da Boca do Rio, passou pela orla e por locais como a avenida Manoel Dias da Silva e seguiu em direção ao Farol da Barra, onde os participantes encerraram o ato no início da tarde. Outro ato foi realizado ainda no sábado (28), em Caruaru (PE), que teve buzinaço pelas principais ruas da cidade.Assim como em Salvador, os manifestantes pediram o fim das medidas estipuladas pela quarentena.Os atos são contrários às recomendações feitas pelas autoridades de saúde, que defendem o isolamento social como medida para evitar a rápida propagação do novo coronavírus.
Pernambuco tinha, até este sábado, cinco mortes em decorrência da Covid-19 e 73 casos confirmados. Mas, assim como neste sábado carreatas já tinham sido vetadas pela Justiça ou por decretos em dois estados (Amazonas e Pará) e em Ribeirão Preto, neste domingo foi a vez de a Prefeitura de São Pedro (SP) obter liminar para proibir realização de carreata que pediria o retorno das atividades comerciais na cidade. O pedido foi feito pela administração para evitar a aglomeração de pessoas e, na decisão, o juiz Mauro Antonini determina que a Polícia Militar prestasse apoio para impedir eventual reunião de manifestantes, “que viola as normas sanitárias em vigor”. No sábado, em entrevista coletiva, o ministro Luiz Henrique Mandetta, defendeu o isolamento social como forma de evitar a propagação do vírus e criticou a defesa das manifestações em favor da abertura do comércio. “Ainda não dá para falar: 'Libera todo mundo para sair', porque a gente não está conseguindo chegar com o equipamento 'just in time' [na hora certa], como a gente precisa”, afirmou o ministro. “Essa doença entrou pela elite econômica. Aqui, em Brasília os casos são quase todos no Plano Piloto e no Lago Sul. Não chegou a Samambaia [cidade satélite], não chegou na periferia”, disse o ministro. O ministro disse ainda que é hora de poupar o sistema de saúde “seja pelo o que for” e que pandemia vai atingir a todos. “Se sair andando todo mundo de uma vez, vai faltar [atendimento] para rico e pobre”, completou.​ Mandetta também criticou as manifestações pela reabertura de empresas e de estabelecimentos comerciais, desencadeadas pelo pronunciamento em que Bolsonaro defendeu a ideia. "Fazer movimento assimétrico de efeito manada agora, nós vamos daqui a duas, três semanas, os mesmos que falam 'vamos fazer carreata" de apoio. Os mesmos que fizerem vão ser os mesmos que vão ficar em casa. Não é hora, agora", declarou.
Na coletiva, o ministro criticou ainda quem vai as redes sociais atacar medidas da pasta para agradar seus seguidores. “Aqueles que têm todo o direito, todas as concepções de todos os planos, que fazem leitura, que são especialistas, colaborem com o Ministério da Saúde. Muitas vezes uma colaboração que é mandada por email para o COE (Comitê de Operações de Emergência) a gente dar muito mais valor, mas muito mais valor, do que aqueles que fazem vídeos para cinco minutos de glória nos seus canais”, disse Mandetta no sábado. O presidente tem defendido a abertura do comércio como forma de evitar a crise econômica durante o combate ao coronavírus, em oposição ao que vem fazendo a maioria dos governadores e ao que recomendam autoridades sanitárias. Por ordem do governo do Distrito Federal, apenas serviços essenciais estão funcionando na cidade. Desde o início da crise mundial do coronavírus, Bolsonaro tem dado declarações nas quais busca minimizar os impactos da pandemia e, ao mesmo, trata como exageradas algumas medidas que estão sendo tomadas no exterior e por governadores de estado no país. Nos protestos de 15 de março, por exemplo, Bolsonaro desrespeitou recomendações do Ministério da Saúde e cumprimentou apoiadores. "Se eu resolvi apertar a mão do povo, desculpe aqui, eu não convoquei o povo para ir às ruas, isso é um direito meu. Afinal de contas, eu vim do povo. Eu venho do povo brasileiro." Depois, em pronunciamento em cadeia de rádio e TV, falou em "gripezinha ou resfriadinho".
+++ Sem usar tom polêmico, a reportagem contrapõe o posicionamento de Jair Bolsonaro e o do ministro da Saúde.
*”Após ignorar ministro, Bolsonaro diz ter vontade de baixar decreto para população poder trabalhar”* - Na contramão das orientações do Ministério da Saúde, o presidente Jair Bolsonaro conclamou as pessoas a voltar para as ruas para trabalhar e disse neste domingo (29) estar com "vontade" de fazer um decreto para liberar todas as atividades. Em reação ao vazamento de reuniões com os seus ministros, ele desconsiderou acordo costurado no sábado (28) e passeou pelo comércio de Brasília, incentivando o coro de apoiadores a favor do fim do isolamento social em meio à pandemia do coronavírus. O movimento do presidente frustrou uma ação coordenada entre líderes políticos, membros do Judiciário, ministros de Estado e alguns militares para cobrar de Bolsonaro uma defesa efetiva das ações do Ministério da Saúde diante do avanço da doença e uma espécie de voto de silêncio dele e da família. Aliados do presidente afirmaram que Bolsonaro ficou irritado por ter saído da conversa como se tivesse sido "domado" pelos ministros.
"Alguns querem que eu me cale. 'Ah, siga os protocolos'. Quantas vezes o médico não segue o protocolo? Por que que ele não segue? Porque tem que tomar decisão naquele momento. Eu mesmo, quando fui operado em Juiz de Fora, se fosse seguir todos os protocolos, fazer todos os exames, eu teria morrido", disse o presidente ao voltar ao Palácio da Alvorada, após fazer o giro pelo comércio do Distrito Federal e incentivar que as pessoas voltem às ruas. Ele justificou sua ida a Taguatinga e Ceilândia como uma forma de "ouvir o povo". "Se eu não ouvir o cara falar que está na banana, como é que eu vou me sentir para poder agir?", disse. O presidente afirmou ter pensado na ideia de fixar regras nacionais que permitissem a volta da população ao trabalho —medida que, além de desafiar governadores e prefeitos pelo país, poderia sofrer questionamentos legais. "Eu estou com vontade, não sei se eu vou fazer, de baixar um decreto amanhã: toda e qualquer profissão legalmente existente ou aquela que é voltada para a informalidade, se for necessária para levar o sustento para os seus filhos, para levar leite para seus filhos, para levar arroz e feijão para casa, vai poder trabalhar", afirmou. Questionado se o texto já estava em estudo, Bolsonaro afirmou que havia acabado de pensar na ideia, enquanto falava com jornalistas na porta do Palácio da Alvorada.
Governadores pelo país responderam com indignação e falaram em reagir na Justiça contra eventual decreto. Pelas redes sociais, o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), disse que manteria a renovação das medidas restritivas e pediu que a população "não desafie o coronavírus" e "não se oriente por ações irresponsáveis de quem quer que seja". "Aqui, não vamos recuar. Se for necessário, iremos até à Justiça", disse o governador do Pará, Helder Barbalho (MDB). Durante sua fala, o presidente endereçou recados aos que se queixam de seus gestos, mas não mencionou nomes, afirmou apenas que o vírus existe e é preciso enfrentar a realidade. "Se você não estiver trabalhando aqui vai estar de casa. Ou vão estar de férias ou vão estar demitidos. Essa é uma realidade. O vírus está aí, vamos ter que enfrentá-lo. Vamos enfrentar como homem, pô, não como moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade, todos nós vamos morrer um dia", afirmou. Para sustentar seu argumento de que o isolamento é prejudicial, Bolsonaro citou, sem apontar números, um aumento da violência doméstica. "É só mostrar isso, tem mulher apanhando em casa. Por que isso? Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Como que acaba com isso? O cara quer trabalhar, meu Deus do céu, é crime agora isso?" Ele falou ainda em "casos absurdos" como a detenção de pessoas que estavam passeando pela praia. Segundo o presidente, trata-se de um local "seguro" por ser aberto.
A orientação das autoridades e médicas é de desestimular que as pessoas frequentem locais públicos, como praias, parques e praças, para evitar aglomerações que favoreçam a disseminação do novo coronavírus. A decisão de Bolsonaro de fazer um passeio pelo Hospital das Forças Armadas e comércios do DF foi tomada depois de ele ficar irritado com repercussão de notícias de que seus ministros estavam fazendo pressão para que ele amenize o tom sobre o novo coronavírus e siga as orientações do Ministério da Saúde.
+++ A reportagem ainda menciona trechos da reunião entre Jair Bolsonaro e os ministros, diz que Mandetta apresentou imagens de corpos colocados em uma pista de patina no gelo na Espanha. A reportagem reforça a ideia de que Jair Bolsonaro segue caminho isolado, mas, por outro lado, o presidente usa a imprensa para propagar seu discurso absurdo e simplista que não apenas encontra ressonância em setores da população como fortifica tais ideias e a confusão sobre qual é a real situação do país.
*”Governadores se dizem indignados e prometem reagir a eventual decreto de Bolsonaro”* - Governadores estudam acionar a Justiça se o presidente Jair Bolsonaro cumprir a sua vontade e assinar um decreto para liberar setores da economia a voltarem a funcionar. Bolsonaro disse neste domingo (29) que pensa em liberar a volta ao trabalho para quem precisa. Os mandatários estaduais se disseram indignados com a atitude do presidente, que neste domingo contrariou a orientação do Ministério da Saúde e circulou por Brasília cumprimentando apoiadores. A avaliação feita em um grupo de WhatsApp com governadores do Nordeste é que o presidente continua "inflando" o incêndio em vez de sentar à mesa e liderar o país frente aos desafios da pandemia. "Ele tem que parar de fazer política, parar de fazer intriga e assumir a função que a maioria do povo lhe deu de presidente da República. Cabe ao governo federal liderar esse processo e não ficar alimentando crise", afirmou o governador da Bahia, Rui Costa (PT). Costa disse que os estados vão continuar acionando a Justiça caso alguma medida do governo ponha em risco a população. "Não vamos permitir", afirmou. "O que os governadores querem é que o presidente assuma suas responsabilidades de coordenar as ações de saúde pública para salvar vidas humanas." "Parece que todos nós estamos vivendo um grande pesadelo e o presidente brincando", conclui.
A mesma posição foi adotada pelo governador do Pará, Helder Barbalho (MDB). "Aqui, não vamos recuar. Se for necessário, iremos até à Justiça". Outros dois governadores também se mostraram indignados com o presidente. Paulo Câmara (PSB), de Pernambuco, disse ser “totalmente contra” a medida estudada pelo presidente. O governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), também criticou. "Que ele assuma as responsabilidades", disse, sobre a possibilidade de se agravar a pandemia no país. O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), também reagiu às declarações do presidente. "Amanhã, segunda-feira, 30 de março, assino decreto renovando as medidas restritivas. Essa decisão é baseada na avaliação da OMS [Organização Mundial de Saúde] e das autoridades sanitárias. Não desafie o coronavírus. Não siga atitudes impensadas e descoladas da realidade", disse, em postagem nas redes sociais. Witzel pediu que as pessoas não se orientem por "irresponsáveis". ​"Olhe o que aconteceu nos países nos quais as pessoas não acreditaram nas consequências desse vírus. Não se oriente por ações irresponsáveis de quem quer que seja. Mantenha-se em casa. Os fluminenses podem ter certeza de que vamos, juntos, vencer essa doença", disse. O governador do Rio já orientou sua assessoria jurídica a recorrer de toda decisão que vá contra as medidas restritivas implementadas no Rio.
Já Flávio Dino (PC do B), governador do Maranhão, afirmou que o presidente não pode anular a competência dos estados e que, se houver um decreto presidencial, ele não será levado em conta. “Vivemos em uma Federação. O presidente não tem poderes de ditador. Ele não pode anular competências dos estados sobre proteção à saúde, nem normatizar sobre assuntos de interesse local. Se ele editar essa espécie de “Ato Institucional”, irei ignorar e fazer prevalecer o que consta do artigo 23 da Constituição”, disse Dino. O governador maranhense comentou ainda decisão do Twitter deste domingo de apagar publicações do presidente por considerar que houve violação de regras. Bolsonaro publicou neste domingo vídeos de visitas feitas por ele ao comércio de Brasília, descumprindo orientações do Ministério da Saúde e da OMS (Organização Mundial da Saúde) de evitar aglomerações. “Até o Twitter sabe que Bolsonaro está errado ao desrespeitar os seus deveres quanto à saúde da população”, acrescentou. “Quando o mandatário maior do país aparece em Brasília reunindo pessoas em aglomeração, quando anuncia que vai baixar um decreto para as pessoas voltarem a trabalhar sem o isolamento social, é claro que isso causa um prejuízo a tudo que estamos fazendo em cada lugar do Brasil”, disse Wellington Dias (PT), governador do Piauí, em vídeo gravado neste domingo.
Dias cobrou ainda o envio de equipamentos e testes pelo Ministério da Saúde. Ele afirmou que é preciso priorizar a vida e não a economia. “Nós os governadores, os municípios estamos precisando daquilo que o Ministério da Saúde prometeu. Os respiradores não chegaram aqui como foi prometido. Cadê os respiradores? O EPI também não chegou, está chegando a conta-gotas. O material para os exames chegando a conta-gotas e aumentando o número de pessoas em situação de suspeita”, disse. À Folha o petista disse também que não descarta recorrer à Justiça se Bolsonaro editar o decreto. A reportagem ouviu também, de maneira reservada, um governador da região Sul do país, que disse esperar que o presidente recue da medida e que vai manter as restrições em seu estado, mesmo que para isso tenha que acionar o Judiciário. Bolsonaro disse ao chegar no Palácio do Alvorada, após passear por Brasília, que estuda um novo decreto. "Eu estou com vontade, não sei se eu vou fazer, de baixar um decreto amanhã: toda e qualquer profissão legalmente existente ou aquela que é voltada para a informalidade, se for necessária para levar o sustento para os seus filhos, para levar leite para seus filhos, para levar arroz e feijão para casa, vai poder trabalhar", afirmou. No sábado, o presidente Jair Bolsonaro foi alertado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes sobre o excesso de judicialização. Quem também conversou com o presidente sobre o assunto foi o procurador-geral da República, Augusto Aras.
+++ Vale deixar anotado que o reflexo dos tempos atuais faz com que um governador de Estado dê sua opinião ao jornal pedindo para que não seja identificado. Além disso, é importante mencionar que enquanto o discurso simplista de Bolsonaro tem começo, meio e fim – isolamento vertical como forma de combate ao vírus e sem quebrar a economia -, o discurso dos políticos que se opõem a ele fica parado na necessidade de se manter e até de reforçar o isolamento social, mas não há nesses discursos a saída para a questão econômica, nem para como os cidadãos vão sobreviver ao confinamento. Evidente que essa explicação está somente no caderno de economia, com as opiniões de especialistas, mas essa fragmentação favorece o discurso bolsonarista porque as notícias fragmentadas não são compartilhadas nas redes em conjunto.
*”Entenda os limites de Bolsonaro para controlar ações de estados e municípios”*
*”Pela primeira vez, Twitter apaga postagens de Bolsonaro”* - O Twitter apagou, na noite deste domingo (29), duas postagens feitas por Jair Bolsonaro. A empresa considerou que as postagens violavam as regras de uso ao potencialmente colocar as pessoas em maior risco de transmitir o vírus (veja nota abaixo). Foi a primeira vez que a rede social apagou postagens do presidente do Brasil. Os posts eram de vídeos do tour que o presidente fez neste domingo no DF, contrariando seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que recomendou que as pessoas ficassem em casa como medida de enfrentamento ao coronavírus. Nas filmagens, Bolsonaro cita o uso de cloroquina para o tratamento da doença e defende o fim isolamento social. A hidroxicloroquina, combinado de cloroquina e azitromicina, está em fase de testes e não há comprovação de sua eficácia na luta contra o coronavírus. Em um dos posts, em Taguatinga, ele conversa com trabalhadores informais, escuta críticas à quarentena, concorda com a cabeça, e diz que o medicamento está dando certo.
No outro, em Sobradinho, o presidente entra em um açougue, fala com funcionários, projeta o desemprego que o isolamento social pode causar e, de novo, cita o remédio. Os vídeos compartilhados por Bolsonaro estão no Facebook, que não apagou as postagens. Na semana passada, como mostrou o Painel, a empresa apagou tuítes do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), que utilizavam fora de contexto um vídeo antigo do médico Drauzio Varella sobre a crise do coronavírus.​ Procurado, o Twitter enviou seu posicionamento por meio de uma nota. "O Twitter anunciou recentemente em todo o mundo a expansão de suas regras para abranger conteúdos que forem eventualmente contra informações de saúde pública orientadas por fontes oficiais e possam colocar as pessoas em maior risco de transmitir COVID-19. O detalhamento da ampliação da nossa abordagem está disponível em nosso blog".
*”Antes de Bolsonaro, apenas Maduro havia tido postagem apagada pelo Twitter”*
*”Bolsonaro desautoriza ministros, centraliza decisões sobre pandemia e esvazia comitê de crise”* - A intempestividade do presidente Jair Bolsonaro e seu perfil centralizador têm esvaziado o Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19. Bolsonaro tem concentrado em si os anúncios de ações do governo de combate ao novo coronavírus. O colegiado, criado no dia 16, perdeu a função consultiva para o qual foi formado. O esvaziamento do grupo foi sentido na semana passada, quando deixou de ter a atuação direta de ministros e passou a ser gerido por auxiliares com a criação do CCOP (Centro de Coordenação de Operações). No sábado (28), os ministros cobraram de Bolsonaro a necessidade de ter uma única voz para guiar para dentro e para fora as medidas contra a pandemia. No mesmo dia, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, sugeriu ao presidente um comitê de crise com poderes, a exemplo do que fez Fernando Henrique Cardoso durante o apagão elétrico em 2001.
Três episódios nas últimas duas semanas deixaram claro para técnicos e ministros ouvidos pela Folha que o colegiado perdeu força. Um exemplo é a campanha de publicidade #OBrasilNaoPodeParar, que acabou não circulando oficialmente após críticas e por decisão judicial. O governo produziu um vídeo de duração de um minuto e meio em que são mostradas imagens de trabalhadores com o slogan de que o país não pode ser paralisado diante da pandemia. A campanha não foi discutida pelo comitê, que conta inclusive com um representante da Secom (Secretaria de Comunicação Social). Após a publicação de reportagens sobre o vídeo, a Secom divulgou uma nota negando a existência da campanha. Outro exemplo de ação tomada à margem do colegiado foi o pronunciamento à nação feito por Bolsonaro na terça (24), no qual defendeu a reabertura de comércios e escolas. O texto foi elaborado com a ajuda dos filhos do presidente, em especial do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).
Insatisfeito com a condução da crise, o presidente, além de alterar as decisões técnicas tomadas pelo comitê, passou a exigir ter a palavra final sobre todas as deliberações tomadas. A centralidade atinge até as orientações do Ministério da Saúde. No sábado, o ministro Luiz Henrique Mandetta (Saúde) e outros sete membros do primeiro escalão foram a Bolsonaro pedir moderação e receberam uma sinalização positiva. Menos de 24h depois, Bolsonaro passeou pelo comércio de Brasília e deu um recado. “Alguns querem que eu me cale. ‘Ah, siga o protocolo’. Quantos médicos não seguem o protocolo.” Outro momento em que o comitê não foi consultado foi quando o presidente, na quarta (25), anunciou que iria determinar que a população adotasse o "isolamento vertical", deixando apenas idosos e pessoas com doenças preexistentes fora do convívio social. "A orientação vai ser o [isolamento] vertical daqui para a frente. Vou conversar com ele [Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde] e tomar uma decisão." Em entrevista à TV Bandeirantes, na sexta-feira (27), Bolsonaro foi questionado sobre a interferência no Ministério da Saúde. "Há um comandante no navio", afirmou o presidente. Originalmente formado pelos 22 ministros, presidentes dos bancos públicos federais e o representante da Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária), a atuação do comitê ficou nas mãos de 32 representantes técnicos.
A coordenação saiu da mão direta do ministro-chefe da Casa Civil, Walter Braga Netto, escolhido por Bolsonaro como gestor da crise, e passou ao seu subordinado, o subchefe de Articulação e Monitoramento da Casa Civil, Heitor Freire de Abreu. O esvaziamento do comitê já vinha sendo sentido desde sua criação, mas se acentuou nos últimos dias. Uma das primeiras medidas debatidas pelo colegiado, as regras de funcionamento de estabelecimento durante a crise, foi alterada por determinação direta do presidente. Na quinta (26), o governo liberou o funcionamento de lotéricas, igrejas e templos religiosos, contrariando diagnóstico inicial do comitê publicado no dia 20. A decisão acabou sendo suspensa por determinação da Justiça. A alteração atendeu a pressão de líderes evangélicos, uma das principais bases políticas de Bolsonaro. A falta do protagonismo do comitê foi relatada à Folha por dois ministros, em caráter reservado, que afirmaram também que estão proibidos de dar entrevistas. Sem poder decisório, o órgão virou uma central de monitoramento e de acompanhamento de ações como transporte de cargas e o fechamento das fronteiras. O grupo também cancelou os anúncios diários de suas atividades. Eles foram previstos no primeiro dia de funcionamento do comitê, mas não chegaram a ocorrer.
+++ Se na reportagem anterior um governador deu depoimento em condição de anonimato, nessa dois ministros fizeram o mesmo. No entando, a reportagem da Folha fica no campo da suposição. Não há certeza sobre o que o texto afirma.
*”Eleitores de Bolsonaro e Haddad têm comportamento diferente na pandemia, aponta Datafolha”* - Os eleitores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tendem a ter percepção e hábitos relacionados à pandemia do coronavírus diferentes daqueles que votaram em Fernando Haddad (PT) na eleição de 2018, segundo pesquisa do Datafolha. Em relação a mudanças de hábitos, 97% dos entrevistados disseram que modificaram seu comportamento por causa da propagação da Covid-19. Quando o entrevistado é questionado sobre se deixou de sair de casa para trabalhar, por exemplo, entre os eleitores do presidente 32% disseram que sim, índice que sobe para 42% entre eleitores de Haddad. Na população em geral, esse número é de 37%. O levantamento ouviu 1.558 pessoas de 18 a 20 de março. Feita por telefone para evitar contato com o público, a pesquisa tem margem de erro de três pontos para mais ou para menos. Quanto a sair de casa para a escola, faculdade ou curso, 50% dos eleitores do capitão reformado dizem que deixaram de fazer isso nos últimos dias, ante 58% entre quem votou no petista. Esse índice é de 55% na população em geral. Em outros itens, como deixar de sair para atividades de lazer e parar de cumprimentar outras pessoas com aperto de mão, também há diferença numérica entre os dois grupos. Sobre o número de mortes no Brasil em decorrência do novo coronavírus, 43% dos bolsonaristas afirmam que elas serão muitas, ante 50% entre os eleitores de Haddad e 45% na população em geral.
Ao longo das últimas semanas, Bolsonaro deu uma série de declarações minimizando os efeitos da pandemia, a qual se referiu como "fantasia", "neurose", "histeria" e "gripezinha". Segundo o boletim do Ministério da Saúde divulgado neste domingo (29), o Brasil tem 4.256 casos confirmados e 136 mortes. No mundo, o número de casos passa dos 638 mil, com mais de 30 mil óbitos. O menosprezo presidencial pelos efeitos da doença culminou com pronunciamento em rede nacional na última terça-feira (24), no qual Bolsonaro pediu a volta da normalidade e a reabertura do comércio e das escolas pelo país —essa declaração ocorreu após a conclusão da pesquisa do Datafolha. Na semana passada, o Datafolha também perguntou se os entrevistados têm medo ou não de ser infectado pelo novo coronavírus. A taxa dos que dizem que não têm medo, que é de 26% na população, vai a 28% entre eleitores de Bolsonaro. Entre quem votou em Haddad em 2018, o índice é mais baixo, de 22%. Quanto a perspectivas para o fim da crise sanitária, também se observa mais otimismo entre eleitores do atual presidente. Para 27% dos que votaram em Bolsonaro em 2018, a situação vai perdurar por até 30 dias. Já entre eleitores de Haddad, o índice vai a 21% nesse item. O cálculo da mediana para a resposta de quanto tempo o entrevistado acredita que vai durar a situação atual por causa da pandemia indica que, para os bolsonaristas, a duração será de 60 dias, enquanto para eleitores do petista, 90 dias.
No campo da economia, os eleitores do ex-prefeito de São Paulo também são mais pessimistas: 56% consideram que a pandemia vai prejudicar a economia do Brasil por muito tempo, índice que cai para 44% entre quem votou em Bolsonaro. No geral, a pesquisa mostrou que a maioria da população apoia as medidas de contenção, que inclui a restrição à circulação nas cidades, criticadas por Bolsonaro, e considera muito sério o risco da pandemia, opinião que se mantém majoritária mesmo entre apoiadores do presidente. O levantamento mostrou ainda que a avaliação positiva do trabalho do presidente na gestão da crise, de 35%, é inferior ao índice obtido por governadores (54%) e pelo Ministério da Saúde (55%).
*”Doria é apoiado pela esquerda, mas também ironizado, após confrontos com Bolsonaro”*
*”Atacado por bolsonaristas, Doria recebe apoio com crítica pontual de partidos de oposição”* - Ao antagonizar com Jair Bolsonaro (sem partido) sobre o modo de combate ao coronavírus, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), se tornou alvo de bolsonaristas, mas, ao mesmo tempo, se viu na mesma trincheira da esquerda e de outras siglas de oposição ao presidente. Enquanto a hashtag #ImpeachmentDoDoria foi impulsionada por movimentos, influenciadores e deputados estaduais ligados a Bolsonaro ao longo da semana, o tucano tem contado com o apoio de PT, PSL e PSB às suas medidas de isolamento social, embora os opositores façam críticas pontuais. Como mostrou a Folha, Doria cresceu em popularidade digital ao protagonizar o embate dos governadores com o presidente sobre o isolamento social. A maior parte dos governadores defende o isolamento de toda a população, medida que é recomendada pelos especialistas e adotada em diversos países, enquanto Bolsonaro prega o retorno das atividades para não prejudicar a economia. A relevância adquirida pelo tucano vem a calhar com seus planos de concorrer à Presidência da República em 2022 e pode também ajudar Bruno Covas (PSDB) na tentativa de reeleger-se prefeito de São Paulo. No entanto, os partidos de oposição a Doria nas urnas evitam fazer cálculo eleitoral neste momento e afirmam não se preocupar com a projeção do governador.
Na bancada de oposição a Doria na Assembleia Legislativa de São Paulo, o deputado estadual Emídio de Souza (PT) endossa as ações do governador, de impor quarentena no estado até 7 de abril. “É uma questão de bom senso, não dá para fazer oposição por oposição. As medidas corretas têm que ser apoiadas. Se Doria está fazendo o papel correto, temos que apoiar. Não significa estar do lado de Doria, mas do lado do povo. O país precisa se unir em torno do combate ao coronavírus, isso não significa fazer aliança política”, diz Emídio. “Não nos preocupa o que vai acontecer politicamente no futuro, não é o debate agora. Como vai estar esse país daqui a seis meses? Ninguém é capaz de saber”, completa. “Não é hora de politizar, o momento é de crise grave. Chamamos de irresponsável quem colocar esse debate na mesa. Da mesma forma, não cabe a Doria colocar 2022 nesse cenário”, resume Luiz Marinho, presidente estadual do PT em São Paulo. A oposição, contudo, vem fazendo críticas específicas. Ao mesmo tempo em que elogia Doria pela serenidade e liderança, Marinho cobra mais ações do tucano para preservar emprego e renda e o reprova por preocupar-se com campanha em vez de governar desde quando foi prefeito da capital paulista. “Tem governadores fazendo mais que Doria, não basta engrossar a voz contra Bolsonaro”, diz. Em sua rede social, Marinho, que é candidato do PT em São Bernardo do Campo, chamou de inadmissível o fato de funcionários do Poupatempo da cidade terem os contratos suspensos e ainda terem que se aglomerar para assinar a suspensão. O post foi acompanhado de #doriadesemprega. “Ainda tem coisas que não são realizadas por conta do discurso fácil e da ação difícil. Isso não desmerece a postura de Doria de ter assumido uma posição dura e necessária no estado”, afirma o deputado estadual Paulo Fiorilo (PT). Fiorilo critica o fato de Doria anunciar medidas que demoram a entrar em prática, como ampliação de testes do coronavírus. Também cobra medidas de proteção aos mais pobres e considera baixo o valor de R$ 55 reais por estudante dado às famílias para compensar a perda da merenda escolar. “O estado tem recursos em fundos que poderiam ser usados”, diz. Ainda assim, afirma que Doria teve postura mais altiva e ofensiva no combate ao vírus. “A crise está só começando, não sabemos o que vai acontecer no estado. O cálculo político está longe, mas Doria está pensando no xadrez mais pra frente”, completa.
O ex-governador Márcio França (PSB), que disputou o segundo turno com Doria em 2018, tem espalhado a campanha “fique em casa” nas suas redes. Ele condena a disputa política em torno da pandemia e cobra união. “Torço pela união dos Poderes. Doria e Bolsonaro deveriam deixar as pessoas físicas João e Jair em segundo plano. São Paulo e o Brasil são maiores que os dois, individualmente”, afirmou. Representante da ala do PSL que rompeu com Bolsonaro, mas que prega independência em relação a Doria, o presidente estadual do partido em São Paulo, deputado federal Júnior Bozzella, também elogia o governador e diz que é o presidente quem politiza a questão e só pensa em 2022. “Tem que se aplaudir se ele está cumprindo o papel dele. É nas adversidades que surgem os grandes líderes. Agora é hora de mais gestão e menos eleição”, afirma Bozzella, lembrando que as bancadas paulistas na Câmara e no Senado também se uniram para destinar recursos ao estado. “Não vou depor contra alguém que tenha boa gestão mesmo que não seja do meu partido. Se isso vai se reverter em aspecto eleitoral, só o tempo vai dizer. Mas se acontecer, é melhor que seja para uma pessoa que está cumprindo a missão do que para alguém que faz discurso para torcida e não entrega resultado”, completa.
A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL) também endossa o isolamento da população. De perfil técnico e com postura independente do governo na Assembleia, faz reparos pontuais às medidas de Doria. Na quinta (25), votou contra o decreto de calamidade na Comissão de Constituição e Justiça por considerar o texto amplo demais. “Os textos teriam que ser mais detalhados, mais restritivos, para não ensejar contratações sem os rigores da Lei de Responsabilidade Fiscal em outras áreas que não relacionadas ao coronavírus”, disse a repórteres da Assembleia. Já o senador Major Olímpio, também do PSL, mantém a postura de criticar duramente Doria. Os dois quase chegaram a se agredir durante evento no último dia 16. “Não concordo com o presidente em relação ao isolamento social, mas tudo no Doria tem duas caras. Ele é bom de iniciativa, mas não de terminativa”, diz Olímpio.
Representante das forças de segurança pública, o senador diz que a quantidade de máscaras e álcool em gel oferecidos pelo governo estadual para as polícias não é suficiente. Para Olímpio, as contradições de Doria são aparentes e ele não colherá louros dessa crise. “O estado já conhece e não vota mais nele.” Já a atuação dos opositores de Doria que são alinhados a Bolsonaro é completamente diferente, marcada pelo confronto e pelos ataques nas redes sociais. O tucano se elegeu governador apoiando Bolsonaro em 2018, mas adiantou o plano de descolar-se do presidente para fazer oposição devido à pandemia de coronavírus. Os apoiadores de Bolsonaro pedem impeachment de Doria e o acusam de conspirar com os governadores e agir como se fosse presidente. Também afirmam que o tucano está inflando as mortes por coronavírus no estado –suspeita também levantada por Bolsonaro sem apresentar prova alguma. Doria chegou a registrar boletim de ocorrência após receber ameaça de morte. Para a equipe do governador, segundo a coluna Mônica Bergamo, há indícios de que as ameaças são articuladas com o gabinete do ódio que agiria no Planalto. “É lamentável que alguns poucos radicais usem a ameaça como instrumento político, como têm feito grupos organizados contra o governador João Doria. No momento em que enfrentamos a maior emergência de saúde da história, a prioridade do PSDB de São Paulo e do governador João Doria continuará sendo salvar vidas e resguardar condições de sobrevivência aqueles mais vulneráveis”, afirma em nota o presidente do PSDB paulista, Marco Vinholi.
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*”Como economista, gostaria de manter a produção, mas como cidadão, quero ficar em casa, diz Guedes”* - O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o período de isolamento como medida de combate à pandemia de coronavírus pode ser mantido por dois ou três meses, mas que depois desse período é preciso liberar as pessoas para o trabalho sob o risco de desmontar o país. “Esse equilíbrio é difícil. Coisa de dois, três meses vai rachar para um lado ou para o outro. Ou funciona o isolamento em dois meses ou vai ter que liberar porque a economia não pode parar também, senão desmonta o Brasil todo”, disse Guedes. “Eu como economista gostaria que nós pudéssemos manter a produção e voltar mais rápido. Eu como cidadão, seguindo o conhecimento do pessoal da saúde, ao contrário, quero ficar em casa e manter o isolamento.”
A declaração vai no sentido contrário da atitude do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que na manhã deste domingo (29) saiu de sua residência oficial, o Palácio da Alvorada, em Brasília, para visitar pontos de comércio local e o Hospital das Forças Armadas (HFA). A visita de Bolsonaro a diferentes pontos de Brasília causou aglomeração de pessoas, no momento em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda isolamento para evitar o contágio do novo coronavírus, que já causou 114 mortes no Brasil. O giro do presidente ocorreu um dia após o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ter reforçado a importância do distanciamento social à população nesta etapa da pandemia do coronavírus.
O ministro Paulo Guedes conversou neste domingo (29) por videoconferência com prefeitos da Confederação Nacional de Municípios (CNM). Eles debateram ações para minimizar os efeitos do novo coronavírus nos cofres municipais. "Do ponto de vista da economia, a gente sabe que um mês a economia aguenta. A Tereza (Cristina, ministra da Agricultura) e o Tarcísio (de Freitas, dos Transportes) estão fazendo belíssimo trabalho. Se a linha básica de alimentação, suprimento, remédio funcionar, pedir comida em casa”, disse Guedes. "Se isso pelo menos funcionar, você estica um pouco. Aguenta 1 ou 2 meses, isso funcionando você talvez aguente os três meses sem o colapso completo da economia. Passou dos 2 meses e meio, três meses, a economia começa a se desorganizar. Estamos esticados, espremidos", considerou.
Guedes pediu que os prefeitos pressionem parlamentares federais de suas regiões para a aprovação no Congresso de projetos de lei que flexibilizem o orçamento e assim possam ser feitas mais transferências e realocações de recursos. Ele também defendeu que a aprovação de reformas, como a tributária e administrativa, vão ajudar a retomada econômica quando a crise do coronavírus.
+++ A Folha mostra que até o super ministro Paulo Guedes tem posicionamento antagônico ao de Jair Bolsonaro.
*”’Fomos atingidos por um meteoro’, diz ministro da Economia sobre coronavírus”* - O ministro Paulo Guedes afirmou que os ministérios da Economia e da Saúde não possuem informações técnicas que permitam dizer que já chegou o momento de relaxar as medidas de restrição de circulação para combater o coronavírus no país. Para ele, é possível manter a quarentena por mais tempo se algumas atividades básicas de de abastecimento de alimentos e produtos médicos estiverem funcionando. Guedes participou neste sábado (28) de videoconferência com representantes da XP Investimentos que questionaram o ministro, por exemplo, sobre boatos de que deixaria o governo e sobre qual seria o tempo necessário de quarentena, questão que gerou polêmica após as últimas manifestações do presidente da República. “Quando é que é o isolamento ótimo? Eu não me arrisco em assuntos de saúde. Não é a minha especialidade. Você me perguntou se já há um entendimento entre o Ministério da Economia e da Saúde sobre a questão. Não temos conhecimento de saúde para saber se o isolamento deve ser de duas ou três semanas, se isso quebra a onda, ou dois ou três meses”, afirmou Guedes, que também negou estar demissionário, afirmou não estar doente e disse ter ficado sumido nesta semana por conta do ritmo intenso de reuniões sobre medidas econômicas. “Eu sei a partir de quando a coisa começa a desorganizar no setor produtivo. Se nós conseguirmos manter alguns corredores abertos, a safra agrícola escoando, os caminhoneiros trafegando, os supermercados e farmácias, as coisas essenciais, se conseguirmos manter essa oxigenação do sistema econômico, pode até alongar um pouco o isolamento. Se for total, o fôlego é mais curto.”
Segundo o ministro, pode haver um momento em que os custos do isolamento total seja uma catástrofe econômica. Se, por outro lado, passasse do isolamento horizontal para o vertical, mantendo principalmente serviços básicos e infraestrutura, seria possível manter algumas restrições por mais tempo sem que a economia “degringole”. Guedes afirmou que a briga política em torno da questão —gerada após o presidente da República atacar os governadores— mostra que não há um acordo das autoridades sobre a questão. “Nós sabíamos, estávamos claramente a favor do isolamento no início, ninguém tinha dúvida disso. Num primeiro momento o isolamento é importante. Agora, se for um isolamento longo demais é uma catástrofe econômica. Se for curto demais, é uma catástrofe de saúde pública.” O ministro afirmou que o tempo de restrição exigido pelas questões de saúde será, provavelmente, maior que o tempo que as empresas podem aguentar. Pesquisa da XP apresentada ao ministro mostrou que 60% das empresas consultadas disseram que não conseguem ficar paradas por um período de 30 a 60 dias. “Se precisa de três meses, do ponto de vista de saúde, e do ponto de vista econômico depois de dois meses todo mundo vai abrir o bico, quer dizer que o [fim do] lockdown tem de começar um pouco antes do que a Saúde acha e um pouco depois, talvez, do que a Economia pense.”
O ministro afirmou que o país conseguiu “furar a primeira onda” e “achatar a curva” de aumento de casos, mas que há uma segunda onda que são os impactos econômicos da crise atual. Guedes disse, no entanto, que é necessário tomar cuidado para que não se caia na armadilha de liberar todas as atividades diante de uma possível queda nos índices de contaminação, diante do risco de que a volta das circulação de pessoas provoque um novo aumento de casos. Questionado sobre o tempo que o governo precisa para viabilizar medidas de ajuda a empresas e trabalhadores informais, como a liberação de R$ 600 para pessoas de baixa renda e dinheiro para financiar a folha de pagamento, Guedes afirmou que em até duas semanas tudo precisa estar no lugar ou o governo terá falhado na execução dessas ações. “A família chegou no final do mês agora, talvez ainda receba esse último salário, mas o próximo a gente não sabe. As empresas funcionaram até cinco, dez dias atrás, mas no mês que vem a gente não sabe. Então no mês que vem já tem de estar tudo no lugar. Senão nós falhamos no desafio da execução.” O ministro estimou o pacote total de ajuda em quase R$ 800 bilhões e afirmou que o governo irá efetivamente injetar o equivalente a 8% do PIB (Produto Interno Bruto) na economia, percentual que já inclui medidas ainda não anunciadas. Sobre os boatos de que sairia do governo, o ministro afirmou: "Isso é conversa fiada. Esquece. Conversa fiada total, o presidente tem total confiança no meu trabalho, fomos atingidos por um meteoro, mas vamos combater o meteoro. Não tem esse negócio de sair, como vou deixar o país no momento mais grave.
+++ O posicionamento do ministro difere do de Jair Bolsonaro, mas é um tanto “em cima do muro”. Ele pondera sobre o tempo de paralisação, reflete se o país pode aguentar, mas não pontua qual deve ser a prioridade.
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*”Ministro do STF autoriza flexibilização da Lei de Responsabilidade Fiscal contra coronavírus”* - O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), liberou o uso de regras fiscais mais flexíveis para o combate ao coronavírus e para a proteção da população afetada pela crise. O magistrado autorizou o governo a criar despesas para enfrentar a pandemia sem apontar a origem das receitas. Moraes atendeu a um pedido da AGU (Advocacia-Geral da União), que afirmava que as exigências estabelecidas pela Lei de Responsabilidade Fiscal e pela Lei de Diretrizes Orçamentárias poderia prejudicar, neste momento, a garantia do direito à saúde. A decisão, segundo o magistrado, se aplica também aos estados e municípios que decretarem estado de calamidade pública. Os governos poderão seguir regras mais flexíveis não apenas nas despesas de saúde, mas também no socorro a empresas, na cobertura da população mais vulnerável e na proteção do mercado de trabalho.
O ministro argumentou que a pandemia “representa uma condição superveniente absolutamente imprevisível e de consequências gravíssimas, que afetará drasticamente a execução orçamentária”, o que tornaria “impossível o cumprimento de determinados requisitos legais compatíveis com momentos de normalidade”. A decisão deve abrir caminho para a apresentação de novas medidas para tentar preservar empregos durante a crise do coronavírus. O governo hesitava em anunciar esses programas antes de uma decisão do STf para afrouxar as regras fiscais. As duas leis --a de Responsabilidade Fiscal e a de Diretrizes Orçamentárias-- exigem que o governo mostre como vai custear novas despesas, prevendo um crescimento de receitas para bancar os gastos a serem criados. Com a queda da atividade econômica provocada pelas medidas de contenção da transmissão do novo coronavírus, o prognóstico é de baixa na arrecadação e de alta nas despesas. Um exemplo é a proposta do ministro Paulo Guedes (Economia) para que patrões possam reduzir a jornada e salário do funcionário, mas garantindo que os cofres públicos cubram uma parcela ou integralmente a renda do empregado. A ideia é tentar evitar demissões durante a crise.
A medida, portanto, tem impacto nas contas públicas. Uma parte da equipe econômica tinha receio de lançar esse plano sem a certeza de cumprimento das regras. Por isso, a AGU acionou o STF na noite de quinta-feira (27) com um questionamento sobre as leis fiscais. O pedido era para que programas de proteção de estímulo econômico e proteção social pudessem ser adotados durante a pandemia sem que a compensação orçamentária (previsão de receita) fosse obrigatória. Para ter segurança jurídica, a equipe econômica preferia esperar o posicionamento do STF sobre o caso e, então, apresentar oficialmente medidas trabalhistas, já anunciadas. Isso, contudo, não era unanimidade dentro do time de Guedes. Alguns técnicos defenderam que o programa de combate às demissões em massa já poderia entrar em vigor. O plano seria colocado em prática por MP (medida provisória). Ou seja, a flexibilização das regras trabalhistas durante a pandemia passaria a valer logo após a publicação do texto, mas a proposta precisará do aval do Congresso em até 120 dias para não perder a validade. A MP que permite o corte de jornada e de salários de trabalhadores da iniciativa privada e a compensação de renda a ser paga pelo governo deverá representar um custo maior que o estimado inicialmente -- R$ 36 bilhões -- para os cofres públicos. Até quinta, o modelo em estudo por Guedes previa uma compensação maior às remunerações mais baixas e a garantia de pagamento próximo ao integral para quem ganha até três salários mínimos (R$ 3.135). Mas o núcleo político do governo defende que o programa de proteção ao emprego seja mais amplo, e não limitado ao salário de R$ 3.135. O Ministério da Economia estuda o pedido. As mudanças trabalhistas são aguardadas por empresários, que pressionam o governo por medidas de alívio de custo imediato diante da forte queda no consumo com a expansão dos casos confirmados da Covid-19.
Na noite de domingo (22), foi editada às pressas uma MP que flexibilizou regras para férias, banco de horas e trabalho à distância. Técnicos temiam que, já na segunda (23), ocorresse uma demissão em massa se o governo não agisse. A primeira versão do texto também previa que patrões poderiam suspender contratos de trabalho por até quatro meses, mas não deixava claro que o trabalhador temporariamente dispensado teria uma contrapartida da empresa ou do governo. Diante da repercussão negativa, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) teve que derrubar esse trecho até que a medida estivesse integralmente em vigor. A trapalhada foi causada por falhas no time de Guedes. A equipe responsável pela MP com medidas de impacto fiscal (que elevam gastos) ainda não havia concluído a proposta -- também por causa de preocupações jurídicas. Por causa do coronavírus, o Congresso aprovou o pedido de Bolsonaro, reconhecendo estado de calamidade pública. Assim, o governo fica desobrigado a cumprir a meta de resultado primário (diferença entre receitas e despesas federais, sem contar os gastos com juros da dívida pública) deste ano. Mas técnicos do Ministério da Economia têm dúvidas sobre a regra de compensação orçamentária. Agora, a ideia é que a segunda MP trabalhista seja oficializada assim que o STF se posicionar sobre o pedido da AGU pela suspensão da norma durante a pandemia. ​
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*”Coronavírus causa cancelamento em massa de voos no mundo, e Guarulhos perde 76% das decolagens”*
*”Latam anuncia suspensão de rotas internacionais”*
*”Investidores pedem ajuste em calendário de concessões por causa de medidas de restrição”*
MARCIA DESSEN - *”Dúvida cruel”*
*”Com fila do INSS, governo pedalou R$ 2,3 bilhões e piorou contas do ano”* - Ao descumprir determinações legais e atrasar a concessão de benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), o governo Jair Bolsonaro pedalou para 2020 o pagamento de aproximadamente R$ 2,3 bilhões que deveriam ter sido liberados em 2019. O represamento aliviou artificialmente o Orçamento federal do ano passado e vai deteriorar ainda mais as contas públicas neste ano, em um momento de forte demanda por recursos para enfrentar a crise do novo coronavírus. A promessa do governo de zerar a fila terá de ser cumprida em meio à pandemia, que vai gerar perda de arrecadação e levar a uma disparada de gastos públicos. O problema não se restringe às esferas legal e econômica, já que o represamento dos benefícios deixa sem pagamento milhares de pessoas consideradas vulneráveis à doença. A pedalada é um termo informal usado quando o governo empurra ou distorce compromissos financeiros, o que acaba mascarando a real situação fiscal da União. A ex-presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment em 2016 sob a acusação de ter cometido crime de responsabilidade ao pedalar despesas. Na gestão da petista, o governo atrasou repasses a bancos públicos para o custeio de programas sociais. Com isso, eles tiveram de usar recursos depositados pelos seus clientes para fazer os pagamentos. As antecipações foram consideradas empréstimos ilegais das instituições financeiras ao seu controlador, a União. Há aproximadamente três meses, a pede ao INSS informações sobre a fila de espera por benefícios no encerramento de 2019 e pagamentos que foram empurrados para este ano. O órgão não detalha os dados sob o argumento de que há restrições técnicas. “Em razão da reestruturação dos procedimentos relativos à extração de registros dos sistemas de gerenciamento de dados do INSS, não é possível fornecer dados relacionados a competências anteriores”, informou em fevereiro, em resposta a pedido feito via Lei de Acesso à Informação. Diante da recusa, a Folha reuniu todas as variáveis que compõem o processo de liberação dos benefícios e estimou o valor que deveria ter sido pago em 2019, conforme determinação da lei, mas foi adiado por 2020. Os cálculos foram validados reservadamente por técnicos do Congresso especializados em Orçamento.
Lei de 1991 define que o primeiro pagamento do benefício, pelo INSS, será efetuado até 45 dias após a data da apresentação da documentação pelo segurado. No encerramento do ano, a fila de benefícios em atraso estava em 1,3 milhão. Em média, o INSS autoriza o pagamento de 55% dos pedidos que estão nessa fila —outros 45% são indeferidos. Em dezembro, o tempo médio de espera estava em 75 dias. O valor médio dos benefícios pagos, também em dezembro, foi de R$ 1.286,87. O cálculo que compila todos os fatores aponta que o montante que deveria ter sido pago em 2019 é de aproximadamente R$ 2,3 bilhões. Procurado, o Ministério da Economia não se manifestou.
De acordo com a presidente do IBDP (Instituto Brasileiro de Direito Previdenciário), Adriane Bramante, embora o prazo de 45 dias para concessão esteja previsto em lei, o gestor público não é punido se há descumprimento. Para ela, porém, esse quadro desrespeita a Constituição. “A Previdência precisa cumprir princípio da eficiência, que está na Constituição. Isso hoje não existe”, afirmou. A advogada alerta para o risco de que haja uma explosão de pedidos de benefícios diante da pandemia do novo coronavírus. “Agora temos mais esse agravante. Vamos ter um boom de pedidos de auxilio-doença e de pensão por morte. É uma questão social relevante e preocupante”, disse. Economista e professor da PUC-RJ, José Márcio Camargo explica que a fila de espera do INSS cresceu no ano passado por causa da digitalização dos pedidos de benefícios. O atraso prejudica as contas públicas, pois, quando a aposentadoria for concedida, o governo é obrigado a pagar os valores retroativos e com correção monetária. “O sistema [do INSS] não comportou a demanda. Para o governo, isso foi péssimo, mas não houve capacidade para atender a todos”, avaliou. Os gastos, somente com correção monetária, são de aproximadamente R$ 200 milhões por ano. Em 2019, o ano foi encerrado com folga em relação à meta de resultado primário. Apesar da autorização de déficit de R$ 139 bilhões, o resultado ficou em R$ 95 bilhões.
Para este ano, a meta foi estipulada em déficit de R$ 124,1 bilhões. Porém, com a decretação de estado de calamidade pública com o novo coronavírus, o governo não será mais obrigado a cumprir a meta. Cálculos preliminares da equipe econômica após o anúncio das primeiras medidas de enfrentamento à pandemia já apontam para um rombo fiscal superior a R$ 200 bilhões neste ano. Para acabar com a fila no INSS, o governo apresentou, no começo do ano, mais uma força-tarefa. O plano inclui contratação temporária de militares na reserva e de servidores aposentados, além da realocação de mais funcionários do INSS para a área de análise de pedidos de aposentadoria e outros benefícios. Mesmo com a crise do novo coronavírus, a previsão do governo não foi alterada: a fila deverá ser praticamente zerada entre setembro e outubro. O edital para contratação de militares reservistas e servidores aposentados ainda não foi publicado. A expectativa é que funcionários inativos do INSS possam atuar também na avaliação de requerimentos de benefícios, apesar das limitações impostas por medidas de combate à covid-19. A força-tarefa foi anunciada em janeiro e a principal medida (contratações) ainda não entrou em vigor por causa dos trâmites burocráticos. A seleção depende do edital do INSS. A estimativa mais recente é que sejam contratados 9,5 mil servidores, sendo 8 mil militares inativos e aposentados do serviço público federal e 1,5 mil aposentados do INSS. A ideia é que militares reservistas e aposentados civis atuem nas agências da Previdência Social e na parte administrativa. Por isso, o coronavírus poderá atrasar a contratação desse grupo.
OUTRO LADO
O presidente do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), Leonardo Rolim, negou que o governo tenha feito uma pedalada fiscal ou premeditado o represamento de benefícios. Segundo o técnico, o estoque de pedidos atrasados vinha aumentando desde 2014, mas só ficou evidente em 2018 e 2019, depois que o governo digitalizou os processos. Ele justificou que, com isso, requerimentos que estavam “escondidos” passaram a aparecer. Rolim responsabiliza o governo da ex-presidente Dilma Rousseff por uma piora na fila. “Eu não entendo que houve pedalada nenhuma. Na verdade, houve uma irresponsabilidade do governo Dilma em 2015”, disse, explicando que a ex-presidente autorizou que mais de um terço dos servidores do INSS se aposentassem a partir de janeiro do ano passado, o que derrubou a força de trabalho do órgão no primeiro ano de gestão de Bolsonaro. Rolim afirma que o governo implementou uma série de ações no ano passado para ampliar a análise de processos, incluindo teletrabalho e bônus de desempenho para servidores, o que levou a uma gradual redução do estoque. “Não houve nenhuma ação premeditada, ou ainda que não fosse premeditada, de não analisar benefício para jogar para frente. Pelo contrário”, afirmou. O presidente do INSS ressaltou que o impacto orçamentário gerado pela regularização das concessões está nas contas do governo e foi explicitado em nota técnica elaborada pelo Ministério da Economia em dezembro. Rolim afirmou ainda que não espera uma explosão de pedidos de benefícios por conta do novo coronavírus. Além de acreditar que o número de mortes será menor do que em outros países, ele afirma que a maior parte das pessoas em quarentena volta às atividades em 14 dias, prazo menor do que o necessário para solicitar auxílio-doença.
+++ A notícia pode ter grande repercussão pela frente. É provável que o presidente Jair Bolsonaro seja cobrado por repórteres da Folha.
RONALDO LEMOS - *”A proteção de dados e a Covid-19”*
*”'Sky gato' é gargalo a provedores de internet em crise de coronavírus”*
*”Coronavírus eleva tráfego na internet, mas analistas descartam apagão”*
ENTREVISTA DA 2ª - *”Quem elogia tortura, admira torturador, não se coloca no lugar do outro, diz Miriam Chnaiderman”* - O isolamento social e toda a angústia gerada pela pandemia do novo coronavírus trazem à tona o melhor e o pior do ser humano. De um lado, muitas pessoas com gestos de empatia e solidariedade, do outro, outras tantas com atos de egoísmo, falta de compaixão. Para a psicóloga e psicanalista Miriam Chnaiderman, professora do Instituto Sedes Sapientiae, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que tem minimizado a pandemia e defendido isolamento só para idosos e grupos de risco, enquadra-se no segundo grupo. "Falta total empatia. É uma coisa absolutamente autorreferente. É a não compaixão. Quem elogia a tortura, quem admira torturador, não se coloca no lugar do outro", afirma ela, também documentarista e doutora em artes pela USP. Segundo Chnaiderman, esse é o momento em que todos os fantasmas internos se concretizam. "A realidade é de fato ameaçadora, não é mais a tua fantasia, a tua paranoia, é uma ameaça real. É a presença de um inimigo invisível e que mata. Isso é muito desorganizador, é muita angústia." Na opinião da psicanalista, as pessoas precisam aceitar a condição de vulnerabilidade e descobrir truques para lidar com essa angústia, caso queiram preservar a saúde mental nesse período tão exigente. "Fazer coisas que em geral a gente não tem tempo para fazer, como ler poesia, contos, escutar música, escrever, fazer diários e contar sobre essa experiência. As pessoas têm feito festas online, dançam, inclusive. Podem transar online também. Deve dar um refresco. A saúde mental vem disso, de saber suportar esse momento", afirma.
*”Governo de SP suspende entrega de itens a presos e eleva tensão em presídios”* - Em nova medida de restrição de acesso a presídios no estado por conta do novo coronavírus, o governo de São Paulo decidiu suspender por tempo indeterminado a entrega de produtos por parte dos familiares de presos, os chamados “jumbos”, o que deve elevar a tensão do sistema prisional paulista. É por meio de “jumbos” que os cerca de 230 mil presos espalhados pelo estado recebem das famílias produtos de higiene, alimentação e outros itens necessitários para a subsistência. Geralmente a entrega ocorre nos dias de visitas, mas o acesso das famílias ao interior dos presídios foi suspenso por determinação da Justiça. Mesmo com as visitas suspensas, as famílias continuaram indo aos presídios para levar os “jumbos” para serem entregues aos presos pelos funcionários. Essa demanda desagradou os agentes penitenciários, porque continuaram expostos à aglomeração de pessoas e, também, a itens que, segundo eles, poderiam estar contaminados —como vasilhames de plástico. De acordo com norma publicada no Diário Oficial desta quarta-feira (25), as entregas de produtos só poderão ser feitas por meio de pacotes postados nos Correios ou com depósito de dinheiro na conta-pecúlio do preso (pela qual recebe remuneração por trabalhos na prisão), para que os funcionários façam a aquisição dos itens. “Por meio do pecúlio, a unidade pode adquirir itens extras que serão entregues diretamente ao custodiado. Ainda esclarecemos que todos os reeducandos recebem material de higiene e limpeza, adquirido pelo Estado. Como medida de combate ao coronavírus, a entrega desse material vem sendo reforçada,

domingo, 29 de março de 2020

sábado, 28 de março de 2020

SAIBA


Análise de Mídia 28/03

DOS JORNAIS DE HOJE: A imprensa escrita volta a se posicionar politicamente de forma unitária. Os jornais consideram Jair Bolsonaro irresponsável e inábil. De formas diferentes, Folha, O Globo e Estadão abordaram as últimas declarações feitas por Jair Bolsonaro em entrevista ao apresentador José Luiz Datena. A Folha destaca que o governo federal admitiu para governos estaduais que não tem estudos que embasem a eficácia do isolamento parcial. Além disso, o jornal mostra que o presidente questionou a veracidade dos dados oficiais apresentados pelo governo de São Paulo com relação ao número de mortes no estado. O jornal O Globo se concentrou mais na decisão de governadores e prefeitos de ignorar Jair Bolsonaro. Já o Estadão, destacou na capa trecho da fala do presidente em que ele diz que alguns vão morrer, “paciência”. Além disso, o jornal publica reportagem sobre um estudo apresentado por um instituto inglês que fala na possibilidade de 44 mil mortes no Brasil, caso o isolamento seja total.
Com relação à economia, os jornais se concentraram no pacote de socorro dos empresários apresentado pelo governo federal. É impressionante como o noticiário econômico é desprovido de pluralidade de pensamento. Apenas vozes ligadas ao mercado financeiro tem espaço. São poucas as vezes em que abre-se espaço para a divergência. Hoje, O Globo e Estadão tinham um pouco mais de contraponto ao pacote do governo do que a Folha, mas muito pouco.
 
 
CAPA – manchete principal: *”Pequenas e médias empresas terão R$ 40 bi para pagar salários”*
EDITORIAL DA FOLHA - *”O desvario de Bolsonaro”*: Não satisfeito com seu pronunciamento de terça-feira (24) em cadeia de rádio e TV, o presidente Jair Bolsonaro avançou em sua cruzada para sabotar os esforços de controle da epidemia de Covid-19. Na mais recente ofensiva contra as recomendações quase unânimes de médicos e estudiosos, o Palácio do Planalto encomendou um vídeo publicitário em que se exorta a população a voltar ao trabalho, às escolas e a outras atividades. “O Brasil não pode parar” é o mote da peça populista, veiculada de modo experimental nas redes sociais bolsonaristas —o que já seria um escândalo em potencial, tratando-se de comunicação de governo, mesmo se o conteúdo fosse sensato ou bem-intencionado. Mais que excitar as hordas fanáticas da internet, o que se faz é estimular de modo temerário pressões de empresários e trabalhadores contra as normas de confinamento em suas cidades e regiões.
Se compreendem-se as preocupações com a renda e os empregos, é com fundamentos científicos que se deve travar a discussão. O governo Bolsonaro, entretanto, não apresenta um fiapo de argumento técnico para sustentar a defesa que o presidente faz de isolamento apenas parcial de indivíduos. Com o mesmo ímpeto demagógico e irresponsável, o chefe de Estado decidiu incluir as atividades religiosas entre aquelas oficialmente consideradas essenciais, permitindo que cultos de qualquer natureza continuem ocorrendo mesmo em situações de quarentena. Encoraja-se, assim, o comportamento de risco da população, com a formação de aglomerações em espaços fechados —ambiente propício para a propagação do vírus. Para dizer o óbvio, atividades hieráticas não se revestem, num Estado laico, da essencialidade fundada no interesse público. Conforme o decreto que trata da matéria, serviços essenciais são aqueles que “se não atendidos, colocam em perigo a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população”. Nem mesmo como cálculo político os desmandos de Bolsonaro fazem grande sentido. Ele investe contra políticas já em curso, aceitas pela grande maioria da população e de impacto econômico consumado. Não escapará de responder por uma recessão; tampouco merecerá os créditos se o combate à pandemia for bem-sucedido.
PAINEL - *”Estados ignoram Bolsonaro e Mandetta e criam comitês para avaliar isolamento”*: Em mais uma iniciativa para coordenar esforços à margem do governo federal, inoperante na visão dos governadores, os estados articulam dar respostas unificadas ao coronavírus a partir de estudos de uma câmara técnica formada por secretários estaduais de saúde, médicos e pesquisadores. O órgão terá a missão de analisar a evolução da doença estado a estado e, a partir daí, projetar as necessidades de cada um e responder às demandas por abrandamento do isolamento. Os governadores esperam receber informações a partir da semana que vem, quando o prazo de decretos de fechamento do comércio começam a vencer em muitos estados. A ideia é ter dados científicos para projetar a necessidade de leitos e também para avaliar se é possível aplicar medidas restritivas seletivas estado a estado. Abrir o isolamento sem critério, como sugere Jair Bolsonaro, não é opção na mesa. Para Wellington Dias (PT-PI), os comerciantes e demais setores também terão que se equipar para voltar. "O setor privado está preparado para isso? Não é só o setor público que deve se preparar", disse ao Painel. Os gestores agem por conta própria a partir do diagnóstico de que o governo federal está imerso em contradições internas, com Jair Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Paulo Guedes (Economia) e o vice-presidente, Hamilton Mourão, apontando para direções diferentes.
PAINEL - *”Ex-comandante da PM em SP se filia ao PSD e vai ser candidato a vereador”*
PAINEL - *”Muitos morrerão pela obsessão de Bolsonaro em não se responsabilizar, diz Marta Suplicy”*: A ex-senadora Marta Suplicy (sem partido) tem visão crítica da campanha com o mote "O Brasil não pode parar", do governo Jair Bolsonaro. Segundo ela, a postura do presidente de estimular a circulação das pessoas nas ruas apenas agravará a crise do novo coronavírus pela qual passa o país. "Muitos mais morrerão pela obsessão de Bolsonaro em não se responsabilizar pela saúde dos brasileiros", diz a ex-prefeita de São Paulo ao Painel. "Ao contrário, isolado e na contramão, só pensando em reeleição, oferece o slogan 'Brasil não pode parar', incentivando greve de caminhoneiros e carreatas que só aumentam a tensão no país e agravam a pandemia", completa.
PAINEL - *”Insatisfação com Mandetta cresce entre secretários, mas chefe da Anvisa preocupa”*: Na carta de governadores do Nordeste, divulgada nesta sexta (27), o ministério da Saúde sequer foi citado como referência para as decisões dos estados. Em seu lugar, aparecem os conselhos de medicina e o Ministério Público. Como revelou o Painel, secretários de saúde se desentenderam com Mandetta em reunião na quinta (26). Ainda assim, alguns secretários dizem ser temerário criticar o ministro. A alternativa ventilada é o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, considerado “terraplanista sanitário” por ter ido com Bolsonaro à manifestação do dia 15 de março. Governadores articulam uma campanha nacional por conta própria, em reação à propaganda lançada pelo governo Jair Bolsonaro, que diz que o “Brasil não pode parar”.
PAINEL - *”Ministério da Economia recebe enxurrada de emails com pedidos de ações”*
*”Governo Bolsonaro admite a estados não ter estudo que embase isolamento parcial”* - O governo Jair Bolsonaro considera o isolamento parcial um princípio, e não possui nenhum estudo técnico para embasar a defesa que vem fazendo da medida no combate ao contágio do novo coronavírus. Isolamento parcial, ou vertical como vem sendo chamado, consiste em retirar do convívio social apenas os grupos mais suscetíveis a mortalidade pela Covid-19, como pessoas acima de 60 anos e portadores de doenças como hipertensão e diabetes sem controle. A defesa da medida está na base do discurso de Bolsonaro, que vem insuflando atos em favor da volta ao trabalho para evitar maiores danos à economia com períodos de quarentena. São Paulo, mais populoso estado e centro da pandemia no país, ficará até 7 de abril com os serviços não essenciais fechados.
Em reuniões com secretários estaduais de diversas áreas, autoridades federais admitem que não há um estudo para justificar a medida. Nesta manhã, por exemplo, o secretário especial de Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos da Costa, foi confrontado por autoridades estaduais sobre o tema. Segundo ele, o isolamento parcial é "um princípio" do governo federal ao qual os estados deveriam se ajustar. Em vez de uma minuta técnica, ele apresentou um slide com o que o governo considera necessário para o isolamento parcial na área econômica: manter abertos serviços essenciais e garantir a cadeia de suprimentos, exatamente o que estados como São Paulo têm feito. Costa foi questionado então por um grupo de secretários se o governo editaria um decreto obrigando os estados a cumprir a medida. Disse que não, que isso deveria ser voluntário. Perguntado então se haveria recursos federais caso alguém se interessasse pelo tema, a resposta foi que "não temos o cronograma".
A Folha ouviu de três participantes da reunião que o clima estava contaminado pela postura beligerante do presidente Bolsonaro, que tem no governador João Doria (PSDB-SP) seu principal antagonista acerca da condução da crise do coronavírus. A questão sanitária está sendo ofuscada pela disputa política. Reunidos na quarta, 25 de 27 governadores assinaram uma carta cobrando liderança e medidas de Bolsonaro. O presidente e Doria tiveram uma altercação durante videoconferência no mesmo dia. Desde então, Bolsonaro tem se dedicado a um embate direto com governadores. Abraçou uma retórica segundo a qual confinamento generalizado e fechamento de escolas não teriam efeito para conter a crise, embora essas sejam algumas das medidas adotadas internacionalmente sob orientação da OMS (Organização Mundial da Saúde). Desde a noite de ontem, redes de apoio bolsonaristas têm convocado carreatas em favor da reabertura geral do comércio, que vêm ocorrendo em diversos pontos do país, pressionando governadores. O Planalto estimula o movimento, e até preparou peça publicitária sobre o tema.
Neste momento, Bolsonaro coloca todas as fichas na hipótese de que a epidemia no Brasil será branda. Alpe da alegada questão de princípio citada por Costa, o entorno presidencial teme que a estagnação ou recessão previstas para este ano com o impacto da desaceleração da atividade econômica afetem os planos reeleitorais do titular do Planalto —e deem gás a rivais como Doria. Até a quinta, havia 77 mortos pela Covid-19 no país. O isolamento vertical não é medida considera eficaz em nenhum país. No começo da crise, o Reino Unido chegou a ensaiá-lo, defendendo a ideia de "imunização de rebanho", ou seja, confinar os grupos de risco e permitir a circulação do vírus entre populações menos vulneráveis na esperança de que isso desidratasse a epidemia. Não deu certo e, no dia 16, um estudo do Imperial College de Londres comparou medidas mundo afora e chegou à conclusão que o país teria o dobro de fatalidades pela Covid-19 se não tomasse medidas mais drásticas. Hoje o Reino Unido está em "lockdown", com a população confinada —até seu premiê, Boris Johnson, está contaminado pelo vírus. Nesta sexta, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, pediu desculpas por ter liderado um movimento semelhante ao que começou no Brasil. O #MilãoNãoPara ignorou riscos e estimulou a volta ao trabalho. Até aqui, o coronavírus matou 4.474 na região da cidade italiana.
*”Sem sair de seus carros, manifestantes pelo país atendem apelo de Bolsonaro e pedem fim do isolamento”*
*”Maia defende isolamento e diz que liberação precoce pode provocar tragédia”*
*”Em meio à pandemia, aliado de Bolsonaro convoca ato para 'encher o Palácio do Planalto'”* - Em meio à pandemia do novo coronavírus, o secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Nabhan Garcia, convocou por WhatsApp uma reunião para "encher o Palácio do Planalto" de produtores rurais na próxima semana. A mensagem de áudio foi encaminhada na quinta-feira (26) a um grupo de lideranças do agronegócio. Nele, Nabhan, um dos mais próximos auxiliares de Bolsonaro, diz que acabou de falar com o presidente, que quer receber os produtores "de braços abertos". "As portas do Palácio [do Planalto] estão abertas para quem trabalha, produz e carrega o Brasil nas costas. E é para semana que vem já", diz o secretário no áudio. Nabhan pede então para que os produtores já comecem a se mobilizar. "Estão convidados, de Mato Grosso, do Brasil inteiro. Quem produz, seja soja, milho, algodão, leite, carne, coco, eucalipto, seja o que for. A cana de açúcar, enfim. O presidente recebe com maior prazer o setor produtivo", diz. "[Bolsonaro] já me garantiu aqui agora, mandou dizer que recebe vocês com o maior prazer. Já me deu essa função de coordenar. Vamos começar a mobilizar e vamos encher esse Palácio do Planalto aqui semana que vem de produtor rural brasileiro e mostrar que o Brasil tem rumo, sim, e nós estamos juntos com o nosso presidente Bolsonaro."
Com o avanço do novo coronavírus no país e no mundo, uma das principais recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de epidemiologistas é a redução do contato social, evitando aglomerações. Ambientes com muitas pessoas —explicam os sanitaristas— são propícios para a disseminação do vírus. O número de mortes pelo novo coronavírus no Brasil subiu para 92 nesta sexta, segundo dados do Ministério da Saúde. Até quinta (26), eram 77 óbitos. No Distrito Federal, há 230 casos confirmados. Há ainda pelo menos 25 pessoas próximas ao presidente Bolsonaro que testaram positivo para o Covid-19 —a maioria integrou a comitiva oficial que acompanhou o mandatário à Flórida (EUA), no início de março. Procurado para comentar o teor do áudio, o Palácio do Planalto não se manifestou.
Questionado nesta sexta-feira (27), Nabhan disse que o áudio é uma conversa de WhatsApp e que usou a expressão "encher o Palácio do Planalto" por ser uma "maneira cabocla" de falar. "Isso é coisa de WhatsApp. Ninguém nem sabe se vai ser no Planalto. Isso é uma coisa de WhatsApp. A imprensa adora fazer... É uma conversa que a gente teve com algumas lideranças, de WhatsApp", disse o secretário à Folha. "[É] maneira de dizer só. Primeiro que quem define onde vai ser e onde não vai [o ato] é a Presidência da República, e não nós. É maneira cabocla de falar, eu sou caipira, eu sou caboclo", afirmou. Sobre o fato de, no áudio, ele dizer que planeja o ato para a próxima semana, Nabhan afirmou que está apenas intermediando um pleito das lideranças rurais e que ainda não há data para o evento. Ele justificou ainda que o ato só deve ocorrer após o fim da validade do decreto do Distrito Federal (5 de abril), que, justamente para evitar aglomerações e reduzir o número de pessoas nas ruas, estabeleceu uma série de restrições de movimentação para a população, entre elas a proibição de eventos e o fechamento de comércio, bares e restaurantes.
"Eu não estou organizando nada. Estou recebendo pedidos aqui. Eu sou secretário especial do Ministério da Agricultura, estou licenciado de uma entidade ruralista e estou recebendo todos os dias pedidos de produtores querendo uma audiência com o presidente. Estou só intermediando esse pedido de vários segmentos produtivos, de Norte a Sul, de Leste a Oeste." Nabhan afirmou que vai esperar o término do prazo estabelecido pelo governo do Distrito Federal. "Mas que vai ter esse encontro vai ter", disse. Horas depois de ter sido procurado pela Folha, Nabhan encaminhou uma nota em que diz que o encontro de Bolsonaro com o setor produtivo ocorrerá, "provavelmente", na segunda quinzena de abril. ​"O presidente Jair Bolsonaro reitera com muita satisfação o seu compromisso em receber lideranças de produtores rurais de todo Brasil. Contudo, diante da circulação do Covid-19 e necessidade de evitar aglomerações, será definido encontro do presidente Bolsonaro com o setor produtivo, provavelmente para a segunda quinzena do mês de abril, cujo dia, horário e local serão confirmados, a depender da situação que se encontrar a questão do vírus", afirma o secretário. Desde o seu pronunciamento em rede nacional de rádio e TV, na terça-feira (24), Bolsonaro radicalizou o seu discurso sobre a Covid-19. Ele tem insistido que as pessoas voltem à normalidade. A orientação do presidente contraria medidas adotadas por governadores, que têm aplicado regras de distanciamento social para tentar conter a disseminação da doença. Bolsonaro, por outro lado, passou a defender que apenas as pessoas do grupo de risco sejam isoladas e o restante da população retorne ao trabalho, para, na visão do mandatário, evitar uma situação de caos e de colapso da economia.
*”CNBB e entidades de cientistas, advogados e imprensa pedem respeito a isolamento”* - Entidades que representam a Igreja Católica, a comunidade científica, a imprensa e os advogados divulgaram nota nesta sexta-feira (27) pedindo que a população fique em casa em meio à crise do coronavírus. Elas afirmam que a campanha do presidente Jair Bolsonaro, contrária ao confinamento diante da pandemia, é uma grave ameaça à saúde. A nota é assinada por Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB); José Carlos Dias, presidente da Comissão Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns (Comissão Arns); Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC); Paulo Jeronimo de Sousa, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e Ildeu de Castro Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Os representantes se reuniram de forma virtual para discutir a pandemia de coronavírus e alertam a população para manter o isolamento "respeitando as recomendações da ciência, dos profissionais de saúde e da experiência internacional". A nota critica a campanha lançada pelo governo Bolsonaro pela reabertura das atividades econômicas. "A campanha de desinformação desenvolvida pelo presidente da República, conclamando a população a ir para a rua, é uma grave ameaça à saúde de todos os brasileiros. A hora é de enfrentamento desta pandemia com lucidez, responsabilidade e solidariedade. Não deixemos que nos roubem a esperança", afirma o texto. A nota esclarece ainda que as estratégias de isolamento social são fundamentais para conter o crescimento acelerado de contágios por coronavírus. O isolamento, afirmam as entidades, visa a "organização dos serviços de saúde para lidar com esta situação, que, apesar de grave, pode ser bem enfrentada por um sistema de saúde organizado e bem dimensionado".
*”Após 1 mês e 4 mil mortos, Milão reconhece erro de campanha contra isolamento”*
*”Sem apresentar provas, Bolsonaro diz desconfiar do número de vítimas do coronavírus em SP”* - Em meio a um embate com o governador João Doria (PSDB), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse na tarde desta sexta-feira (27) que não acredita nos números de casos de coronavírus no estado de São Paulo. Para ele, os números podem estar superdimensionados. O número de óbitos relacionados ao novo coronavírus no estado de São Paulo cresceu 209% em cinco dias, segundo balanço da Secretaria da Saúde divulgados nesta sexta-feira. No último domingo (22), o estado registrava 22 mortes, contra 68 agora. "Está muito grande para São Paulo. Tem que ver o que está acontecendo aí. Não pode ser um jogo de números para favorecer interesse político", disse o presidente em entrevista ao apresentador José Luiz Datena, da TV Bandeirantes. O jornalista insistiu no questionamento, indagando se ele não acreditava nos dados de São Paulo. "Não estou acreditando nesse número", afirmou Bolsonaro. Antes, sem querer confirmar que estava falando de São Paulo, acusou que está havendo uma fraude. "Sem querer polemizar com ninguém, tem um estado aí que orientou por decreto que, em última análise, se não tiver uma causa concreta do óbito, bota lá coronavírus para colar", afirmou.
"Procura saber, por estado, quantos morreram por H1N1 até o momento. Não é que eu queria que tenha morrido. Ano passado foram 700 pessoas mais ou menos. Vai ter que ter alguém que morreu este ano disso aí. Se for todo mundo com coronavírus, é sinal de que o estado está fraudando a causa mortis daquela pessoa, querendo fazer uso político de números. Isso a gente não pode admitir". "Vamos enfrentar o vírus. Vai chegar, vai passar. Infelizmente, algumas mortes terão, paciência, acontece, e vamos tocar o barco", afirmou. "Porque as consequências, depois, dessas medidas equivocadas [decretos dos estados e municípios fechando o comércio], vão ser muito mais danosas do que o próprio vírus. Não podemos ter um remédio que final das contas a dose vai ser tão grande que o número de problemas vai ser muito maior que o vírus em si. É questão de bom senso", acrescentou. Ao chegar no Palácio da Alvorada no fim da tarde desta sexta, Bolsonaro foi questionado por jornalistas sobre suas afirmações. Ele disse que está analisando o decreto de São Paulo sobre o tema. "Pelo o que parece sempre que possível bota um Covid-19 ali [na causa mortis]. Agora o número de mortes em São Paulo é muito maior do que no Rio de Janeiro. É um número de 60 mais ou menos [são 68], que fica difícil para estatística. Espero que pare por aí". O presidente foi perguntado uma primeira vez o que Doria ganharia ao inflar números de mortes no estado. "Por favor. Não quero fazer... não vai levar para fofoca aqui. João Doria faça a sua parte lá e eu faço a minha aqui", respondeu. Em seguida, Bolsonaro foi questionado por provas que embasassem sua acusação. "Ô cara, você vê números, cara. Não vou mais responder a você", reagiu o mandatário, dirigindo-se ao repórter.
À TV Bandeirantes o presidente pôs em dúvida ainda os números de casos na Itália, país que registrou nesta sexta 919 novas mortes provocadas pelo novo coronavírus, o maior número diário desde que a pandemia atingiu o país, no começo deste ano. O recorde anterior havia sido registrado em 21 de março, quando 793 pessoas morreram. "O vírus evolui. Nós temos informações do mundo todo de como as pessoas estão sendo tratadas. Inclusive, certos mitos estamos desfazendo, como a questão das mortes na Itália. A maioria das mortes não tem nada a ver com o coronavírus, nada a ver. São pessoas que estavam em uma região fria e todos com uma média de idade de 80 anos", disse Bolsonaro. Ele afirmou que terá uma reunião com o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, neste sábado (28), no Palácio da Alvorada, para dar um "pequeno redirecionamento do que está sendo feito até agora". Bolsonaro disse que, entre as mudanças que serão discutidas, está uma possível adoção do isolamento vertical, aquele em que apenas integrantes do grupo de risco ficariam isoladas. Ele disse que há também a ideia de contratar hotéis para acolhimento de idosos infectados e outros para não infectados. "Para nós, aqui no Brasil, pode ser que não seja tudo isso que aconteceu em alguns países", afirmou o presidente. Bolsonaro disse que o país tem que voltar à normalidade "imediatamente" e voltou chamar a Covid-19 de "gripezinha".
Ele também voltou a estimular as pessoas a voltarem ao trabalho e indagou se "vamos quebrar o Brasil por causa do vírus". "O Brasil tem que trabalhar. O maior remédio para qualquer doença é o trabalho. Temos que trabalhar", disse Jair Bolsonaro. "Estamos tomando providências para que quem tem emprego vá trabalhar. Porque depois que perder, vai levar anos para conseguir de volta, e as consequências são enormes." Sobre projeções de mortes no Brasil feitas por pesquisadores estrangeiros, Bolsonaro disse que, para ele, trata-se de "chute" e que "deve ter algum interesse econômico". O presidente também foi questionado sobre os resultados de seus testes de coronavírus. Bolsonaro disse que ambos tiveram resultado negativo, mas nunca apresentou o comprovante do laboratório. Bolsonaro afirmou que, por precaução, seus exames são feitos com o nome dele em código. "Se mostrar os códigos vão falar que é mentira", disse o presidente.
Indagado sobre o trabalho de Mandetta, que somente nesta semana modulou seu discurso para se aproximar ao de Bolsonaro, o presidente fez elogios, mas disse que nenhum de seus ministros tem "total liberdade" e insistiu na intenção de mudar a estratégia de isolamento no país. "Aqui não sou eu isolado e cada ministro faz o que der na cabeça", afirmou. "Tenho o poder de interferir e vou continuar interferindo, sem problema nenhum", disse. "Tem um comandante no navio. Não é cada um remando para um lado de acordo com seu interesse", afirmou Bolsonaro. Em outro momento da entrevista, Datena perguntou se Bolsonaro seria capaz de dar um golpe. "Quem quer dar o golpe jamais vai falar que vai dar", respondeu o presidente, ao negar qualquer tipo de iniciativa nesse sentido. Ele também comentou seu relacionamento com o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) que, na quarta-feira (25), disse que o posicionamento do governo é único para o combate do novo coronavírus e defendeu o isolamento e distanciamento social. Sobre o pronunciamento de Bolsonaro em rede nacional, na terça (24), Mourão disse que talvez ele não tenha se expressado da melhor forma. "Ele é mais tosco do que eu. É muito mais tosco do que eu", afirmou Boslonaro, acrescentando que seu vice é "pau para toda obra" e que é "o único que não é demissível".
DECORO
A conduta de Bolsonaro diante da pandemia, a rigor, pode ser questionada como crime de responsabilidade por quebra de decoro, segundo a lei 1.079/50, afirmam advogados ouvidos pela Folha. Segundo a norma, o presidente não pode "proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo". Na prática, contudo, é uma análise subjetiva. "Às vezes uma coisa não é suficiente para ser em si um crime de responsabilidade, mas ela se soma a um conjunto de coisas que o presidente vem fazendo", diz Diego Werneck, do Insper. "A orientação que ele está dando não só é potencialmente letal como ele nem sequer apresentou, até o momento, uma política pública do que ele defende", afirma. Para o professor da Escola de Direito da FGV Rubens Glezer, os casos são frágeis para enquadrar em quebra de decoro. Ele afasta também a possibilidade de uma afronta ao poder dos estados.
+++ Falta impacto na manchete da reportagem sobre o presidente da República tentar criar desconfiança sobre os dados oficiais de um estado que é governado por um adversário político seu. Dizer apenas que não apresenta provas é algo que permite que alguns levem à sério a acusação. O jornal poderia ter ido atrás de explicar como é feita a estatística.
*”Na crise do coronavírus, Doria, Witzel e Dino crescem nas redes; Bolsonaro cai”* - A crise provocada pela pandemia de coronavírus alavancou a popularidade virtual dos governadores João Doria (PSDB-SP), Wilzon Witzel (PSC-RJ) e Flávio Dino (PC do B-MA), enquanto fez cair o índice em relação ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Ainda assim, Bolsonaro segue disparado no chamado IPD (Índice de Popularidade Digital), medido pela consultoria de dados Quaest. O IPD compila informações do Twitter, Facebook, Instagram e, agora, em sua versão 2.0, também analisa Youtube, Google Trends e acessos a Wikipedia. O IPD, que varia de 0 a 100, também passou a ser medido diariamente, possibilitando a comparação dos políticos entre os dias 25 de fevereiro e 25 de março, quando o país começou a sentir os efeitos da pandemia. No período, Bolsonaro caiu de 83,1 para 69,1 —queda de 16,8%. Em patamar bastante abaixo do presidente, os governadores, porém, experimentaram altas proporcionais significativas. Doria cresceu 66,1%, Dino subiu 54,9% e Witzel, 39,6%. O tucano foi de 10,55 a 17,52. Dino aparecia com 12,74 e alcançou 19,73. Já Witzel variou entre 9,76 e 13,62. Isso significa que os governadores despertaram mais interesse dos internautas e tiveram mais engajamento e alcance nas suas redes sociais. Ao longo da semana, o presidente e os governadores travaram uma disputa em torno da melhor forma de combater o coronavírus, que culminou com uma discussão entre Doria e Bolsonaro na quarta-feira (25).
Enquanto Bolsonaro defende o isolamento somente dos grupos de risco e pede o retorno das atividades produtivas na tentativa de minimizar o baque na economia, os governadores são a favor do isolamento social completo —medida sugerida por médicos e pesquisadores e adotada pelos países afetados. Após pronunciamento na terça-feira (24), em que chamou o coronavírus de “gripezinha” e defendeu abrandar o isolamento social, Bolsonaro recebeu críticas dos governadores, de parlamentares e de especialistas em saúde. Ferramenta da Folha mostra que, no Twitter, o presidente se isolou com a direita, enquanto centro e esquerda condenaram o seu discurso. Em reação, os governadores se reuniram na quarta-feira e mantiveram as medidas de isolamento social —a exceção é o governo de Santa Catarina, Mato Grosso e Rondônia. Nesse movimento, Doria ganhou protagonismo ao liderar a oposição a Bolsonaro. Felipe Nunes, CEO da Quaest e professor de ciência política da UFMG, diz que, apesar do expressivo capital político digital de Bolsonaro, adversários antes combalidos nas redes voltam a ter destaque. “Isso é explicado fundamentalmente pela maneira como os governadores estão reagindo e interagindo com Bolsonaro nas redes. Esses três atores estão se recuperando. Ainda estão longe, mas foram os que mais ganharam no período”, afirma.
Doria e Witzel, que se elegeram apoiando Bolsonaro e pegando carona em seus votos, também tinham a popularidade digital a reboque do presidente. Tanto que caíram nas redes quando romperam politicamente com o capitão. Neste momento, porém, quando Doria dá seu maior passo em oposição a Bolsonaro, chegando a dizer à CNN que se arrependeu do seu voto no capitão em 2018, o tucano cresce mesmo assim. “Antes esses governadores tinham destaque não independentemente, mas por conta do presidente. Agora estão construindo um capital político independente, estão ganhando musculatura digital própria”, explica Nunes. Doria se destaca em volume de interesse, dimensão que mede buscas por informação no Google e na Wikipedia. O dado mostra que o governador paulista, que pretende ser candidato à Presidência da República em 2022, está nacionalizando seu nome —tornando-se conhecido por quem é de fora de São Paulo. Dino tem a mobilização como ponto forte, ou seja, se sobressai no total de compartilhamentos de conteúdos em redes sociais. O governador do Maranhão se destaca como representante da esquerda.
Além de mobilização e interesse, as demais dimensões do IPD são presença digital (número de redes sociais ativas), fama (público total nas redes), engajamento (volume de reações e comentários ponderado pelo número de postagens nas redes) e valência (proporção de reações positivas e negativas). Apesar do revés na crise do coronavírus, Bolsonaro ainda lidera isolado o ranking do IPD. Nunes afirma que o índice considera as interações nas redes feitas por robôs, mas que não é isso que explica o sucesso do presidente. “Na verdade, é mais orgânico do que robotizado. A estratégia de Bolsonaro é sempre pautar a conversa política do dia, gerando engajamento e mobilização que o colocam na dianteira. Ele é o centro das atenções. O ‘falem mal ou falem bem, mas falem de mim’ funciona muito.” Nunes afirma ainda que nenhum político se firmou como o antagonista político de Bolsonaro, o que poderia fazer desse adversário tão forte quanto ele nas redes. Essa posição varia num rodízio entre Lula (PT), Luciano Huck, Doria, Witzel, Dino e outros. “Bolsonaro tem posições claras e é polêmico. Está buscando o inimigo sempre. Mas os outros não estão no noticiário o tempo todo como ele. Ele é sempre ator em um polo, mas o antagonista no outro polo varia a cada momento”, diz.
ENTREVISTA - *”É uma irracionalidade esse debate se é mais importante a vida ou a economia, diz governador do Pará”* - O governador do Pará, Helder Barbalho (MDB), 40, diz que não busca o aval do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para tomar atitudes contra o coronavírus dentro das dividas de seu estado. Polidamente, ele afirma que respeita a visão do presidente de minimizar a crise, mas deixa claro que não concorda com ideias como a flexibilização do isolamento. "Nossa estratégia está em curso e para tal nós não pedimos autorização para ninguém", afirma, em entrevista à Folha. Ele também bate pesado nos que acusam a China, para quem pediu ajuda no combate ao Covid-19, de ser a culpada pela pandemia. "Isso é ignorância", diz.
- Como o sr. vê a troca de farpas entre o presidente e governadores?
- Eu defendo que nós tenhamos um único adversário, que é o coronavírus. Temos de nos unir para enfrentar. E colaborar cada um com a sua missão.
- O sr. defende a flexibilização do isolamento, como pede o presidente?
- Aqui no Pará, nós decretamos suspensão de aulas, fechamento de shoppings, bares, restaurantes e casas de espetáculo. Lojas de rua estão mantidas. Suspendemos o transporte interestadual e o intermunicipal. Vamos seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde. Eu respeito o contraditório, respeito a opinião do presidente da República. Agora, eu me balizo nas decisões técnicas. Busco para a tomada de decisões informações da OMS, do Ministério da Saúde, da área de vigilância. Estudo os casos de países que já enfrentaram a crise com maior gravidade, já vivenciaram todo o ciclo do coronavírus nas suas áreas.
- O que o sr. achou do pronunciamento do presidente pedindo o fim do isolamento?
- Acho que não devemos nesse momento valorizar o conflito. O presidente tem a opinião dele, então há de se respeitar. Entre respeitar e concordar, são coisas distintas.
- Mas não é estranho esse isolamento do presidente nesse momento? A própria reunião dos governadores sem ele mostra isso, não?
- Eu acho que mostra que os governos estaduais estão buscando cumprir com suas missões de agir em proteção dos seus estados. Está muito claro aqui no estado do Pará que nós agiremos desejosos de ter apoio do governo federal. Valorizamos a parceria com o Ministério da Saúde e temos aqui um protocolo de emergência e uma estratégia desde janeiro. Está em curso, sendo executada, e para tal nós não pedimos autorização para ninguém.
- Por que o sr. barrou o transporte interestadual?
- Nós não temos aqui fiscalização da Anvisa para as dimensões territoriais do estado do Pará. A Anvisa possui 11 colaboradores no estado, sendo 8 deles no aeroporto de Belém e 3 no porto de Vila do Conde. Um estado que faz fronteira inclusive internacional não possui uma autoridade sanitária com musculatura funcional. Óbvio que é um flanco de facilitação da circulação do vírus. São medidas restritivas de prevenção para evitar a disseminação.
- Isso não vai contra o discurso de cooperação entre estados?
- A fronteira não está sendo fechada. A circulação de mantimentos, carga, continua aberta. Agora, cada estado tem autoridade sobre o seu território. Cada governador está buscando cumprir com as suas estratégias para fazer com que o seu território esteja protegido. Farei isso no Pará. O estado vizinho do Amazonas está com mais de 40 casos e teve inclusive 1 óbito.
- O sr. já tem uma estimativa do impacto econômico da crise no estado do Pará?
- A nossa expectativa é de cerca de R$ 2,5 bilhões de perda de arrecadação em 2020. Isso significa 10% em termos reais. Depende muito de como a Vale e as mineradoras vão se comportar. Até o momento elas sinalizam não haver redução na operação. Se isso se mantiver, o impacto no PIB se reduz. Mas nesse momento, nós não estamos preocupados com o PIB. O PIB acaba retratando uma realidade pontual, não a realidade da população. Adotamos a estratégia de fazer um programa importante de microcrédito para pequenos empreendedores, empreendedores individuais e trabalhadores da informalidade.
- Muitos empresários estão dizendo que mais importante é manter a economia girando, até mais do que a questão da saúde. Como o sr. vê esse debate?
- Isso é uma irracionalidade. A vida, se for perdida, não dá segunda chance. A economia você pode recomeçar, reerguer-se. Se alguém colocar em pauta se é mais importante vida ou economia, este alguém seguramente deverá ser avaliado.
- Por que o sr. fez um pedido de ajuda à China?
- Pedi equipamentos e EPI [Equipamento de Proteção Individual] no último sábado. O embaixador solicitou que eu detalhasse e me disse que até segunda-feira iria fazer o check-list com o governo central e as províncias, seja naquilo que podem colaborar, seja em oportunidades de compra.
- Como o sr. vê as acusações de que a China é culpada pelo vírus?
- É ignorância. Quem culpa a China pelo vírus não tem que sofrer avaliação, tem que sofrer interdição.
- Muita gente no entorno do presidente tem essa opinião, inclusive o filho dele [Eduardo Bolsonaro].
- Que meu adjetivo sirva para os que pensam assim. Nunca ouvi falar de ter status para doido. Todo doido é doido, não tem meio doido. Quem ficar especulando esse tipo de coisa tem de ser interditado.
*”Zema destoa de 25 governadores e não endossa carta que pede ação de Bolsonaro contra coronavírus”*
*”Filhos de Bolsonaro, Flávio e Carlos se filiam ao Republicanos, partido de Crivella”* - O senador Flávio Bolsonaro, o vereador Carlos Bolsonaro e Rogéria Nantes, filhos e ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), se filiaram ao Republicanos, partido ligado à Igreja Universal cujo principal nome é o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. O prefeito, que busca o apoio do presidente na reeleição deste ano, comemorou a adesão da família presidencial ao seu partido. "É uma honra receber o senador @FlavioBolsonaro e o vereador @CarlosBolsonaro no Republicanos. Tenho certeza de que eles chegam no nosso partido para somar. Parabéns e sejam bem-vindos. @jairbolsonaro", escreveu Crivella em sua rede social.
*”Coronavírus ressuscita disputa entre Congresso e governo Bolsonaro por controle de verbas”* - A crise do coronavírus deve retomar uma disputa do Congresso pelo controle de recursos, semelhante à que marcou a tensão do Legislativo com governo Jair Bolsonaro (sem partido) nos últimos meses. A proposta de emenda à Constituição que estabelece um regime extraordinário fiscal de contratações exclusivamente para a crise da Covid-19, a PEC do Orçamento de guerra, amplia, na prática, o parlamentarismo branco ao dar ao Congresso a palavra final nas decisões. A versão do texto ao qual a Folha teve acesso pode sofrer alterações porque o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ainda tem apresentado a PEC aos deputados. Como se trata de uma emenda à Constituição, precisa dos votos favoráveis de 308, entre os 513 deputados, e de 49, entre os 81 senadores, em dois turnos de votação na Câmara e no Senado. As sessões nas duas Casas estão sendo realizadas remotamente, pela internet, para evitar que os parlamentares saiam de seus estados durante a pandemia. A PEC cria o comitê de gestão de crise para, entre outras atribuições, fixar a orientação geral e aprovar as ações que integrarão o escopo do regime emergencial, solicitar informações sobre quaisquer atos e contratos celebrados ou em via de celebração pela União com poder para anulá-los ou ratificá-los. O colegiado será presidido pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e tem como integrantes com direito a voto os ministros da Economia, Paulo Guedes; da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas; da Agricultura, Tereza Cristina; da Justiça, Sergio Moro; da Controladoria-Geral da União (CGU), Wagner Rosário; e o chefe da AGU (Advocacia-Geral da União), André Mendonça.
Os demais integrantes —secretários estaduais e municipais de Saúde e de Fazenda e membros do Congresso, do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) e do TCU (Tribunal de Contas da União)— não têm poder de voto. A PEC prevê que o Congresso Nacional poderá sustar qualquer decisão do comitê gestor da crise em caso de "ofensa ao interesse público ou de extrapolação aos limites" da proposta. O Legislativo também se manifestará sobre a pertinência temática dos créditos extraordinários, que não poderão tratar de despesas permanentes. Eventuais conflitos federativos decorrentes da aplicação da proposta serão resolvidos exclusivamente pelo Poder Judiciário, o que pode atingir questões como, por exemplo, a disputa entre estados e União sobre fechamento de rodovias. Além disso, durante a vigência da calamidade pública, o Orçamento de guerra está livre da regra de ouro​, que tem como objetivo impedir endividamento para pagar despesas correntes. Câmara e Senado vinham disputando até o início de março o controle sobre parte do Orçamento 2020 em uma escalada de ataques e acordos. Diante do agravamento da pandemia de coronavírus, as negociações foram suspensas. Na segunda-feira (23), Maia falou pela primeira vez na proposta de um Orçamento de guerra para conter a crise provocada pelo vírus. O objetivo, argumentou, é aumentar a segurança para que o servidor público possa executar as despesas de ações de controle da pandemia. A ideia é separar o Orçamento fiscal do Orçamento da crise. Ao dar a palavra final ao Legislativo, a PEC do Orçamento de guerra se encaixa em um contexto em que, cada vez mais, o Congresso reforça seu papel de freio do Executivo.
Nos últimos dias, Bolsonaro foi alvo de críticas de integrantes de diversos partidos por causa de sua atuação diante da crise da Covid-19. Ao minimizar a doença, o presidente da República ficou ainda mais isolado e cresceu entre parlamentares a ideia de deixá-lo de lado, falando sozinho, e tomar para o Parlamento a tomada de decisões. A atuação independente ultrapassa os salões do Congresso e chega a outras frentes. Nesta quinta-feira (26), por exemplo, o DEM, partido de três ministros de Bolsonaro —inclusive o da Saúde— e dos presidentes da Câmara e do Senado lançou um protocolo de atuação em comunidades carentes para prefeitos e governadores. O documento com 19 pontos foi elaborado pelo Instituto Liberdade e Cidadania, braço de formação política do Democratas, e prevê o isolamento de idosos que estiverem em pior situação em hotéis e pousadas, apoio às famílias carentes com cestas básicas e a criação de uma renda informal por 90 dias para famílias que perderam a renda informal. O material será distribuído aos 27 governadores e, através da CNM (Confederação Nacional de Municípios), aos prefeitos do país. "Acho que, no momento de crise da magnitude que estamos vivendo, de dimensões apocalípticas, tem que ter uma mobilização de todos", diz o ex-ministro da Educação do governo Michel Temer, Mendonça Filho, presidente do instituto do DEM.
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*”Governo anuncia R$ 40 bi em crédito para empresas pagarem salários”* - O governo anunciou que vai abrir uma linha de crédito emergencial para pequenas e médias empresas financiarem folha de salários. O programa demandará R$ 40 bilhões e será custeado em maior parte pelo Tesouro Nacional. O presidente do BC (Banco Central), Roberto Campos Neto, afirmou que o programa foi formulado pela autoridade monetária, pelo Ministério da Economia e pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Segundo ele, o programa vai ser destinado exclusivamente para pequenas e médias empresas, que faturam entre R$ 360 mil e R$ 10 milhões por ano, e se destina só para financiamento de folha de pagamento. Segundo Campos Neto, o programa tem potencial para contemplar cerca de 12 milhões de pessoas e 1,4 milhão de empresas. Do montante, R$ 17 bilhões mensais serão financiados via recursos do Tesouro Nacional e o restante virá do próprio setor bancário. ​ No total, serão R$ 34 bilhões dos cofres públicos. Pessoas envolvidas na discussão dizem que a decisão de fazer o anúncio nesta sexta-feira (27), mesmo sem a iniciativa estar pronta para ser enviada ao Congresso, foi política. Com isso, o governo tenta conter críticas crescentes sobre o ritmo de apresentação de medidas econômicas contra a crise do novo coronavírus.​​ O programa vai financiar até dois salários mínimos por empregado. Se a pessoa ganhar mais que isso, o crédito só vai contemplar o limite estabelecido, podendo a empresa complementar a remuneração.
Toda empresa que aceitar não poderá demitir funcionários por dois meses. "O dinheiro vai direto para a folha de pagamento, a empresa fica só com a dívida", disse. “Estará em contrato [que não pode haver demissão por dois meses] e o dinheiro vai direto para o funcionário. Então, se ele for demitido, a empresa terá de arcar com os custos e não receberá o recurso”, completa. O BC afirmou que o arranjo operacional está em discussão, mas o BNDES teria o papel de repassar os recursos do Tesouro para os bancos. As instituições financeiras serão responsáveis pela concessão do crédito, com todos os custos operacionais.
O financiamento terá spread zero —ou seja, a taxa de 3,75%. O empréstimo terá seis meses de carência e será dividido em 36 parcelas. O dinheiro vai direto para o CPF do empregado. As operações não visam lucro e os bancos concederão o crédito a preço de custo. Todas as instituições são elegíveis a participarem do programa, segundo o BC. Os bancos poderão seguir seus próprios modelos e políticas de concessão, como bom histórico dos clientes. O BC, no entanto, salientou que vai supervisionar e poderá solicitar a justificativa nos os casos em que as instituições negarem crédito para clientes elegíveis. Banco Central, enquanto supervisor do sistema bancário, se assegurará que a política de concessão é não discriminatória. Poderá, se e quando entender conveniente, solicitar a justificativa para os casos em que os bancos negarem a concessão da linha para clientes elegíveis. O risco para os bancos é de 15% da operação, percentual de participação das instituições na linha de crédito. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, também anunciou outras medidas, como o uso de letras financeiras como garantia de empréstimos da autoridade monetária aos bancos. A iniciativa já tinha sido antecipada e deve entrar em vigor na próxima semana. O impacto pode chegar a R$ 670 bilhões. “O banco pode pegar a carteira de crédito e fazer um fundo, o BC vai emprestar dinheiro para o banco e pegar o fundo como garantia”, explicou Campos Neto.
Além disso, a autoridade monetária vai comprar dívidas diretamente das empresas, a exemplo de medida anunciada recentemente pelo Fed, banco central norte-americano. A iniciativa será enviada ao Congresso Nacional por meio de PEC (Proposta de Emenda à Constituição). “É um instrumento muito importante para garantir que os recursos cheguem diretamente à ponta”, ressaltou o presidente do BC. Não foram divulgados detalhes de como serão feitas essas operações. O BC informou que será publicada uma MP (medida provisória) para a abertura de um crédito extraordinário de R$ 34 bilhões por dois meses (R$ 17 bilhões por mês), além da criação de um fundo operacionalizado pelo BNDES, fiscalizado e supervisonado pelo BC e com aporte de recursos do Tesouro Nacional. Os R$ 6 bilhões de recursos dos bancos privados completarão os R$ 40 bilhões do programa anunciado. Apesar de o evento ter sido para anúncio de medidas econômicas, o ministro Paulo Guedes (Economia) não estava presente e não foi mencionado por Bolsonaro. O único que citou Guedes foi o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães.
+++ A reportagem não busca nenhum fonte que não faça parte do governo, ela traz apenas o discurso oficial. Não há contraponto e nem sequer complementos. A única observação feita pelo texto é de que Paulo Guedes continua afastado de Brasília.
*”Entenda ponto a ponto os últimos anúncios do governo Bolsonaro para empresas e trabalhadores”*
VINICIUS TORRES FREIRE - *”Pacote deixa a descoberto 22 milhões de trabalhadores com carteira”*
PAINEL S.A. - *”Negociações entre lojas e shoppings para dividir perdas do coronavírus avançam”*
*”Chat de vídeos viraliza e bate recordes na quarentena”*
ENTREVISTA - *”Medidas do BC dão sobrevida a empresas, afirma economista”* - O pacote de crédito do governo vai na direção certa, embora talvez possa ter pouco dinheiro, acredita o economista Sergio Werlang, da FGV do Rio. Para Werlang, o plano anunciado pelo governo nesta sexta (27) faz parte de um eixo essencial de providências a fim de mitigar a crise, entre elas a grande irrigação do sistema financeiro promovida pelo Banco Central e o auxílio para trabalhadores informais, autônomos e sem renda em geral. Werlang enfatiza que o debate da crise tem de ir além. Para o economista, o isolamento é agora sem dúvida necessário, por um tempo ainda difícil de estimar. Mas é preciso um limite. “O que temos que implantar com muita rapidez é a testagem em massa, os testes de terapias alternativas.” Para Werlang, a testagem daria informações para planejar também o tratamento econômico da pandemia.
- O que achou do pacote de crédito do governo?
- Os recursos não poderiam ser 100% do Tesouro, mas com operação dos bancos, remunerados para conceder os empréstimos? Se fosse 100% do Tesouro, o incentivo seria pequeno para que as escolhas de repasse fossem minimamente prudentes. Como eu dizia ontem [quinta, 26], antes do anúncio do governo, sugeria que a parte do Tesouro fosse de 70% a 80%. Parte ou todo valor deve vir da União. Afinal, é um custo de todos nós. Os empréstimos para micro e pequenas empresas deveriam ser a custo, grande parte diretamente do Tesouro. Dessa maneira, teríamos bancos emprestando sem spread por um prazo razoável, três meses. Mas o banco teria uma parte do empréstimo; 70% ou 80% deveriam ser do Tesouro. No limite, a depender da severidade da crise, essa parte do Tesouro pode até mesmo ser perdoada [parte da entrevista foi feita antes do pacote de crédito do governo].
- A linha de crédito cobre parte da folha das empresas. Mas, sem ter como cobrir outras despesas fixas, como sobreviver? 
- Imagine uma empresa que tenha sido muito atingida, perdendo até 40% do faturamento. Sem ajuda extra, vai demitir e corre o risco de quebrar. Com essa linha, muito provavelmente sobrevive. O exemplo de 40% do faturamento é aproximado e representa uma empresa que sofreu muito, mas não mortalmente.
- Os bancos podem travar a operação, tendo de entrar com algum (com 15% e o risco de crédito correspondente)? 
- Não acho. Os bancos vão escolher repassar para empresas que são suas clientes. Essas empresas já têm empréstimos com esse banco. Sem essa linha, é alta a probabilidade de ficarem inadimplentes e até mesmo quebrarem. Assim, os bancos terão um empréstimo pequeno (de 15% do valor) para dar fôlego à empresa.
- E qual o montante desse dinheiro para pequenas e médias empresas? 
- Os números sugeridos por você [R$ 115 bilhões] e por Vinícius Carrasco, Arminio Fraga e José Alexandre Scheinkman [R$ 120 bilhões] são próximos. Em suma, é preciso cobrir os buracos, em particular da falta de faturamento das empresas, com carência razoável e prazos alongados, para atravessar o deserto. As outras muitas medidas do BC vão nessa linha, de fazer o crédito ajudar nessa travessia. O presidente do BC, Roberto Campos Neto, já disse que o crédito não está empoçado e que haverá liquidez para os empréstimos. O sistema financeiro brasileiro é sólido e tem os recolhimentos compulsórios dos mais elevados no mundo.
- De quanto tempo as empresas precisarão para pagar esses empréstimos da linha de emergência? 
- Tudo depende do tempo de isolamento necessário. Na China foram cerca de dois meses e meio, mas a epidemia já estava muito avançada quando começou. O número de casos no Brasil está ainda muito variável, provavelmente pela disponibilidade ainda irregular de testes.
- O sr. imagina um isolamento de quanto tempo? 
- Difícil achar que dure menos de duas semanas. O isolamento por um tempo será necessário, é indiscutível. Precisamos de mais informação, para saber por quanto tempo mais vai durar. O Ministério da Saúde anunciou que vai distribuir muitos testes, talvez milhões. A testagem em massa é a estratégia da Alemanha e mostrou-se eficaz. Em artigo no Estado de S. Paulo, Eduardo Bittencourt Andrade, da FGV/Ebape, mostrou a importância de testes em massa: saber qual a probabilidade de infecção ao redor das pessoas. As pessoas acabam por decidir ficar em isolamento, voluntário ou não, se sabem qual a probabilidade de infecção. Assim, poderemos observar os efeitos do isolamento nas diversas localidades e decidir o que fazer, à medida que tivermos mais dados objetivos.
- Como fica a discussão do efeito econômico do isolamento? 
- A discussão do custo do isolamento versus o efeito econômico é fundamental, e até o início desta semana estava bloqueada. Proteger a saúde dos informais e autônomos a todo custo pode significar um enorme problema para essas pessoas no futuro. O governo anunciou adiamento de impostos, suspensão de dívidas estaduais, renda mínima para informais, antecipação de seguro-desemprego e pagamento de benefícios sociais. O pacote é razoável? Essas medidas do Ministério da Economia estão na direção certa, mas depende muito da velocidade de implantação. Mas não foram todas as que foram tomadas.
- O que mais foi feito? 
- De fundamental importância e com tamanho bastante relevante são as medidas do Banco Central. Entre elas, cito:
1) liberação de liquidez de compulsório, compulsório adicional e da LCR (medida de liquidez curta);
2) empréstimo com lastro em Letra Financeira garantida, forma de o BC dar liquidez direta a um banco com garantia dos empréstimos do banco;
3) novo Depósito a Prazo com Garantia Especial; 4) empréstimo com lastro em debêntures (para comprar carteiras de fundos de crédito de gestoras independentes). Entre outras medidas, como permitir rolagem de empréstimos sem afetar a provisão para devedores duvidosos por 60 dias e permitir que o colchão de capital requerido pela regra de Basileia 3 fosse flexibilizado, o que abre espaço para a concessão de empréstimos pelas instituições. O volume total de liquidez que somente o BC colocaria na economia é de 16,7% do PIB, muito considerável.
+++ Consultar apenas um economista está longe de abordar a pluralidade de perspectivas sobre a crise entre os economistas.
*”Em carta à Folha, banqueiros questionam reportagem sobre aumento de juros durante crise do coronavírus”* - Os presidentes dos três maiores bancos privados do país enviaram nesta sexta-feira (27) uma carta endereçada ao comando da Folha em que questionam as informações da reportagem "Bancos elevam juros e restringem negociação com a crise do vírus", publicada pelo jornal nesta sexta-feira (27). O texto mostrou a dificuldade de pequenos e grandes empresários em conseguir crédito e o aumento de taxas de juros nas novas contratações após o surto de coronavírus. O anúncio feito pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos) de que clientes poderiam suspender por dois meses pagamentos de parcelas de contratos em dia também não estaria sendo cumprido, segundo relatos. Octavio de Lazari, do Bradesco; Candido Bracher, do Itaú-Unibanco; e Sérgio Rial, do Santander, afirmam que leram o texto publicado pelo jornal com "profunda consternação e uma dose de decepção". Os banqueiros afirmam que a reportagem tem viés, é parcial e contém erros de apuração.
Para os executivos, o título e o texto "desmerecem o rigor jornalístico que tem marcado, até aqui, a atuação da Folha de S.Paulo, digna de reconhecimento por informar e alertar a população sobre os riscos, impactos e ações preventivas contra a pandemia de Covid-19." "Nenhum dos casos específicos apresentados na reportagem foi alvo de consulta prévia aos bancos mencionados. Hoje, ao fazermos nossa lição de casa, que incluiu uma profunda checagem da situação de cada cliente mencionado, descobrimos que nenhuma das histórias apresentadas condiz com a realidade. A reportagem é, portanto, um exemplo de mau jornalismo", diz a carta.
Para Lazari, Bracher e Rial, o texto da Folha se baseia em casos isolados e fomenta "desentendimento e animosidade em relação às instituições financeiras, que têm agido como aliadas de primeira hora da sociedade na busca incessante por instrumentos capazes de mitigar os impactos da pandemia no país." Segundo a carta, a reportagem "desinforma o leitor, por exemplo, ao apontar como elevação de juros o aumento de valor em parcelas de dívidas postergadas, um erro primário." Os executivos dos bancos afirmam que a interrupção por 60 dias no pagamento de dívidas está sendo cumprida pelas instituições, mas afirmam que "o objetivo da medida foi dar ao tomador de crédito mais prazo e, principalmente, fôlego financeiro neste momento mais crítico. Ou seja, nunca se tratou de uma medida de perdão de dívida, seja do principal ou dos juros, e não foi apresentada desta forma." A carta afirma que "em um momento excepcional como o atual, erros podem ser -e serão- cometidos, mas esperamos que sejam rapidamente corrigidos." O texto assinado pelos presidentes dos bancos termina com a afirmação de que as instituições financeiras trabalham para que "a atividade econômica do país sofra menos danos e seja capaz de emergir mais rapidamente desta crise. E esse trabalho merece respeito."
ANÁLISE - *”Ausente, Guedes abandona estado de negação lentamente”*
*”Bolsonaro diz que emprestou Granja do Torto para Guedes morar”*
*”Bolsonaro diz que prefeitos e governadores terão que pagar indenização a trabalhador por paralisação”* - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse nesta sexta-feira (27) que prefeitos e governadores que decretaram fechamento do comércio por causa da pandemia do coronavírus terão que pagar indenização a trabalhador por paralisação. Ao deixar o Palácio da Alvorada, Bolsonaro parou para falar com apoiadores que voltaram a se aglomerar diante da residência oficial depois que ele intensificou o discurso de minimizar a Covid-19. O presidente disse haver previsão na CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) para que se cobre da autoridade que determinou o fechamento. "Tem um artigo na CLT que diz que todo empresário, comerciante, etc, que for obrigado a fechar seu estabelecimento por decisão do respectivo chefe do Executivo, os encargos trabalhistas, quem paga é o governador e o prefeito, tá ok?", disse Bolsonaro.
O artigo 486 da CLT diz que "no caso de paralisação temporária ou definitiva do trabalho, motivada por ato de autoridade municipal, estadual ou federal, ou pela promulgação de lei ou resolução que impossibilite a continuação da atividade, prevalecerá o pagamento da indenização, que ficará a cargo do governo responsável". No entanto, juristas entendem que não será possível a aplicação deste artigo facilmente e será preciso um grande debate. "Este artigo certamente vai ser invocado pelo comércio, pelas empresas, para dizer que uma situação alheia a vontade deles, que é, no caso, o governo ter feito que eles tivessem o problemas na relação de trabalho. Porém, tem uma série de fatores que podem ser ponderados para ver se vai dar para aplicar a letra fria deste artigo. Estamos falando de uma situação de calamidade pública, de uma situação sem precedentes, de segurança das pessoas, da coletividade, então, parte do governo tem uma qualificação muito mais voltada para a a preservação da vida humana do que a questão pura e simplesmente de um emprego", diz o advogado Decio Daidone Jr.​. A advogada Karolen Gualda Beber afirma que várias empresas já levantaram esta questão, mas que a aplicação não é direta. "Para esta decisão de fechamento do comércio em razão da pandemia, muitos juristas entendem que não se aplica porque [o decreto de fechamento] é uma regra geral e, por se tratar de um instituto de preservação da saúde, não há que se falar de aplicação do artigo 486", diz Beber.
Para o advogado Carlos Eduardo Ambiel, o artigo não é aplicável nesta situação de fechamento devido a uma quarentena. "Existe uma série de mecanismos criados pelo próprio governo federal em medida provisória que autoriza, por exemplo, a concessão de férias, concessão de banco de horas, antecipação de férias coletivas. E há a possibilidade de uma medida provisória nova que vai regulamentar a possibilidade de suspensão do contrato enquanto está durando o período de paralisação. Ou seja, o próprio governo federal sabe que isso não é uma situação de rescisão de contrato, é uma situação de paralisação temporária. Isso não obriga os empregadores a rescindir contrato", afirma Ambiel. O professor de direito trabalhista Leone Pereira diz acreditar que haverá uma grande discussão sobre responsabilidades do empregador e da administração pública. "Estamos em um momento de calamidade pública. É a pior crise da nossa geração. Não dá para falar que [o fechamento temporário de empresas] é um ato discricionário da administração pública", afirma. Aos apoiadores, Bolsonaro ironizou os jornalistas, relacionando-os com o coronavírus. "O vírus está para lá", disse o presidente indicando com a mão o local onde repórteres esperam para entrevistá-lo. "Não vou chegar perto porque eu posso passar vírus para eles​", continuou. Com base em uma notícia falsa que circula na internet, Jair Bolsonaro também ironizou a manutenção de fechamento de escolas e estabelecimentos comerciais por parte do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). "Eu vi uma notícia aí na imprensa que o Ibaneis vai abrir tudo segunda-feira? É isso? Olha minha cara de tristeza", afirmou. A Secretaria de Comunicação do DF informou que a informação é falsa.
+++ Na reportagem sobre a medida judicial que Bolsonaro promete adotar, a Folha consulta diferentes especialistas que apresentam uma série de perspectivas sobre o fato. O tratamento dado à economia é diferente.
*”Trump sanciona pacote de incentivo de US$ 2,2 trilhões”*
*”Falta gás em São Paulo e preço do botijão já está mais caro na quarentena”*
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MARCOS MENDES - *”Dinheiro do auxílio-paletó precisa virar máscara de proteção e luvas para médicos”*
TEC - *”Brasil libera participação da chinesa Huawei no leilão do 5G”*
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*” Isolamento radical contra coronavírus pode salvar 1 milhão de vidas no Brasil, aponta estudo
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*”Com 200 leitos, hospital no estádio do Pacaembu deve ser entregue em abril”*
*”Itália registra 919 novas mortes, maior número diário desde início da pandemia do coronavírus”*
*”Governo brasileiro fecha fronteiras aéreas a estrangeiros de todas as nacionalidades”*
*”Revista científica inglesa afirma que Bolsonaro dá resposta fraca à Covid-19”* - A revista científica britânica The Lancet criticou em editorial publicado na edição desta semana os líderes governamentais que não tratam com seriedade a ameaça que a Covid-19 representa. O presidente Jair Bolsonaro é o único que tem o nome citado no texto. O periódico, publicado desde 1823, é um dos mais prestigiosos na área médica e serve de vitrine para pesquisas científicas relevantes da atualidade. “Muitos governos nacionais responderam rapidamente, mas muitos ainda precisam tratar com seriedade a ameaça da Covid-19”, diz o editorial, dando destaque para os governantes que ignoram a recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) para evitar aglomerações de pessoas. “O presidente do Brasil Jair Bolsonaro tem sido fortemente criticado por especialistas em saúde e enfrenta uma crescente reação do público pelo que é visto como uma resposta fraca”, continua o texto.
De acordo com o editorial, os confinamentos que pareceram exagerados quando adotados por Wuhan, na China, há dois meses, agora se tornam normais, e a resposta inicial lenta de países como Reino Unido, Estados Unidos e Suécia parecem decisões mal tomadas. “Enquanto líderes lutam para adquirir testes de diagnóstico, equipamentos de proteção pessoal e ventiladores para hospitais sobrecarregados, há um crescente sentimento de raiva”, diz o documento. Bolsonaro tem minimizado a pandemia do novo coronavírus em suas falas e chama a doença de gripezinha. Na terça (24), durante um pronunciamento em rádio e televisão, o presidente falou contra as medidas de isolamento social, como as restrições para o funcionamento de escolas e comércio. Na quinta (26), Bolsonaro disse que o contágio pela Covid-19 no Brasil não será como nos Estados Unidos porque, segundo ele, não acontece nada com o Brasileiro. No mesmo dia, o presidente disse que o brasileiro deveria ser estudado porque mergulha no esgoto e não pega nenhuma doença. O editorial da The Lancet lembra que países da África e da América Latina, por onde o vírus já está sendo disseminado, possuem sistemas de saúde frágeis e grandes populações que vivem em áreas urbanas cheias e, muitas vezes, sem saneamento básico —fatores que agravam ainda mais essa crise.
*”Ao menos 18 estados mantêm fechados shoppings, comércio de rua e academias”*
*”Periferia da capital sofre com a falta d'água durante pandemia”*
MÔNICA BERGAMO - *”Corregedoria vai apurar promotora que diz que defensoria aproveita pandemia para soltar estupradores”*
 
CAPA – Manchete principal: *”Governo financia R$ 40 bilhões para folha de pequenas e médias empresas”*
EDITORIAL DO GLOBO - *”Casos no mundo não convencem o Planalto”*: O lançamento nas redes sociais de um vídeo soba chancelado governo federal como slogan “o Brasil não pode parar” reforça o discurso feito pelo presidente Bolsonaro na noite de terça-feira contra a indicação de médicos, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para que as populações pratiquem o isolamento social e a quarentena, afim de conter a disseminação global da Covid-19. Confirma-se que o clássico mecanismo do aprendizado pela observação não tem sido usado no Planalto. Se a realidade factual fosse levada em conta, essa questão não existiria para o governo, tampouco inspiraria peças de manipulação política. O tempo não para, e os fatos se sucedem, a despeito do desejo de autoridades. De acordo com as previsões do Ministério da Saúde e conforme o padrão seguido nos demais países, os casos de coronavírus no Brasil começam a acelerar e assim ficarão durante algum período. Acurvada epidemia está na fase de “subir a ladeira”, dizemos técnicos. Segundo o secretário de Saúde de São Paulo, José Henrique Germann, o número de mortes pela Covid-19 no estado subiu para 68 ontem, um óbito a cada duas horas e 20 minutos. O total de casos confirmados era de 1.223, um acréscimo de 14% em relação a quinta. O tempo de ascensão e o ângulo da subida dependerão das precauções tomadas pelas pessoas, razão direta da consciência e empenho das autoridades. Por coincidência infeliz para o presidente, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, liberou ontem um vídeo em que pede desculpas por haver apoiado a campanha “Milão não para”, talvez uma das fontes inspiradoras dos publicitários do Planalto. A Lombardia, região do Norte italiano em que se localiza Milão, a mais rica cidade do país, contabilizava 250 contaminados pela Covid-19 e 12 mortos.