terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Fim do auxílio deixa o Brasil entre o medo do vírus e do desemprego

 



Não foi fácil atravessar o ano de 2020, mas a chegada de dezembro preocupa ainda mais os cerca de 67 milhões de brasileiros que deixarão de receber o auxílio emergencial —já que o benefício criado para minimizar os impactos econômicos da pandemia de covid-19 não foi prorrogado para 2021 pelo Governo de Jair Bolsonaro. A reportagem de Heloísa Mendonça conta como as famílias tentam se equilibrar entre a necessidade de buscar um posto de trabalho e a preocupação com a pandemia em um momento em que o país vê crescer novamente o número de casos da doença, enquanto a economia parece longe de sair da crise.

Em meio à apreensão sobre o futuro, outro assunto recorrente nas últimas semanas é a multiplicação de mitos, mentiras e teorias conspiratórias contra as vacinas da covid-19. Os relatos vão do medo da implantação de um chip no cérebro até a falsa possibilidade de contrair câncer ou HIV ―tudo decorrente do turbilhão de notícias falsas espalhadas pelo país. A pandemia de desinformação, incentivada até pelo presidente, cresce ao mesmo tempo em que se aumenta o total de brasileiros que não quer receber imunizantes (de 9% em agosto para 22% neste mês, segundo o Datafolha). A repórter Beatriz Jucá esclarece os mitos e explica quais cuidados devem ser tomados para a vacinação.

O fato de a vacinação em massa estar cada vez mais próxima da realidade dos brasileiros não significa que se deva relaxar nos cuidados. Muitas pessoas, animadas com a flexibilização do isolamento nos meses de setembro e outubro, planejaram viagens e reencontros com familiares e amigos durante o Natal, Ano Novo e férias de verão. A repórter Stephanie Vendruscolo ouviu vários especialistas para saber as estratégias que podem ajudar a diminuir as chances de infecção. Entretanto, a principal recomendação dos médicos é evitar viagens e as reuniões familiares por enquanto.

Às 18h desta terça-feira, o EL PAÍS promove um debate ao vivo sobre o que esperar para o Brasil de 2021, com o neurocientista Miguel Nicolelis e o jornalista Xico Sá, colunistas do jornal. O bate-papo será mediado pela diretora do EL PAÍS no Brasil, Carla Jiménez, e transmitido ao vivo no site, no nosso canal no YouTube e na nossa página no Facebook. No centro da conversa, duas pontas da pandemia: a luta da ciência e da medicina para frear o vírus e salvar vidas e a missão dos veículos de comunicação de informar e combater as fake news. Acompanhe e mande suas perguntas.


Fim do auxílio deixa o Brasil entre o medo da pandemia e do desemprego
Fim do auxílio deixa o Brasil entre o medo da pandemia e do desemprego
Segundo pesquisador, desemprego pode atingir 25 milhões de pessoas no país. “Como vou procurar emprego se a pandemia continua?”, questiona beneficiária do programa de ajuda do Governo
Marcelo Crivella, prefeito do Rio, é preso em operação contra corrupção
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Prisão é um desdobramento da operação Operação Hades, que investiga um suposto ‘QG da propina’. Prefeito se diz vítima de "perseguição política"

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Pela primeira vez em 15 anos, quatro ministros do STF decidiram abrir mão das próprias férias.

Pela primeira vez em 15 anos, quatro ministros do STF decidiram abrir mão das próprias férias. Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Alexandre Moraes avisaram que continuarão despachando normalmente, de forma remota, durante o recesso judiciário, que começou ontem. Na prática, isso tira poderes do presidente da Corte, Luís Fux. Num recesso normal, Fux e sua vice Rosa Weber se alternariam na concessão de liminares e decisões de casos apresentados à Corte. Com outros quatro ministros — três dos quais da ala garantista, antagônica a Fux — em atividade, a relatoria das ações será decidida por sorteio. O movimento ainda é um reflexo da profunda divisão no Supremo deixada pela decisão contrária à reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado.

E no apagar das luzes antes do recesso, o ministro Nunes Marques deu um presente aos enquadrados na Lei da Ficha Limpa, em ação impetrada pelo PDT. No sábado, em decisão monocrática, Marques suprimiu a determinação de que uma pessoa condenada na Justiça estava impedida de se candidatar por oito anos após o cumprimento da pena, e estipulou que a inelegibilidade é contada a partir da sentença. Na prática, estabeleceu oito anos como prazo máximo, independentemente da natureza do crime ou do tamanho da pena.

Sob a alegação de que “os presídios do Rio estão superlotados”, Gilmar Mendes mandou soltar no mesmo dia da prisão Chaaya Moghrabi, considerado um dos maiores doleiros do país, investigado pela Lava-Jato.




O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), quer que, a exemplo de ministros do STF, os deputados abram mão do recesso, alegando que a pandemia exige “um esforço maior”. Candidato do Centrão e do Planalto ao cargo de Maia, Artur Lira (PP-AP) disse que a ideia é uma manobra do presidente para fortalecer um eventual candidato de seu grupo, que recebeu reforço dos partidos de oposição. Cresce na Câmara o temor de que, com Lira na presidência, Jair Bolsonaro volte a forçar pautas conservadoras, até mesmo reenviando temas já rejeitados no Congresso.




Devido ao apagão que deixou o Amapá às escuras em novembro, aconteceu ontem o segundo turno da eleição para prefeito em Macapá. Segundo colocado na primeira rodada e nas pesquisas, Dr. Furlan (Cidadania) virou o jogo e venceu com 55,67% dos votos válidos. Josiel Alcolumbre (DEM), irmão do presidente do Senado, obteve 44,33%.

Painel: “O prestígio de Alcolumbre com Bolsonaro será posto à prova após a derrota do irmão, Josiel, em Macapá neste domingo, apostam parlamentares. Atendendo a Alcolumbre, o presidente gravou um vídeo pedindo votos no candidato, o que selou um novo fracasso de Bolsonaro nas urnas.” (Folha)




Coronavírus 70% mais contagioso já circula na Europa

 


Países de quase todos os continentes suspenderam voos provenientes do Reino Unido após Londres confirmar a descoberta de uma cepa mais contagiosa do coronavírus. No sábado, o premiê Boris Johnson disse que a variação é 70% mais contagiosa que o vírus ‘normal’. Matt Hancock, ministro da Saúde, reconheceu que a nova cepa está fora de controle, o que motivou a decretação de lockdown completo no Natal londrino. Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Bélgica, Bulgária, CanadáColômbia, El Salvador, França, Holanda, Irã, Irlanda, Israel, Itália, Suíça e Turquia já haviam confirmado a suspensão de voos até a noite de ontem.

Porém... A medida vem tarde. A Itália identificou ontem o primeiro caso de contágio pela nova variante. Hoje o Conselho Europeu se reúne para discutir uma estratégia uniforme. (Globo)

Segundo cientistas, um tipo muito parecido da mutação circulou no Brasil em abril e foi identificado na Austrália e nos EUA meses depois. Não se sabe ainda por que ele reapareceu com força na Inglaterra.

A boa notícia é que, segundo especialistas, as vacinas em uso e em testes são igualmente eficazes contra a nova cepa do vírus.

O Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) dos EUA identificou seis casos de reações alérgicas graves à vacina desenvolvida pela Pfizer e pela BioNTech, entre as mais de 112 mil pessoas que já receberam o imunizante. Para se ter uma ideia do quanto o número é baixo, se a mesma quantidade de pessoas comer amendoim, 600 apresentarão a reação alérgica grave. Cerca de três mil pessoas tiveram alguma reação, mas não precisaram de tratamento médico.

Aqui no Brasil, o prefeito eleito do Rio, Eduardo Paes (DEM), firmou, antes mesmo de tomar posse, um acordo com o governo paulista para comprar do Instituto Butantan doses da CoronaVac, que a instituição produz em parceria com a chinesa SinoVac. Ele não revelou quantidade de doses nem como seria sua aplicação, dizendo que essas informações serão divulgadas em janeiro. Enquanto isso, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), aumentou em 70% a verba de publicidade para o ano que vem, incluindo campanhas sobre a vacina.

“A Covid só é letal para idosos.” “Para quem tem histórico de atleta, é só uma ‘gripezinha’.” Todas essas falácias ficam ainda mais indefensáveis diante da morte, neste fim de semana, da nadadora Mariana Franklin Ferreira Silva, de apenas 14 anos, em Presidente Prudente (SP).

Neste domingo, São Paulo e Goiás não divulgaram seus dados sobre a Covid-19. Contando os demais estados, o consórcio de veículos de comunicação contabilizou 408 mortes, totalizando 186.773 desde o início da pandemia. O número de casos no Brasil atingiu 7.237.350, com 24.680 testes positivos registrados no domingo. Apenas a região Nordeste apresentou estabilidade na média móvel de mortes; todas as demais mantiveram tendência de alta.




Humilhação, violência verbal, distúrbios alimentares e até tentativas de suicídio. Esse cenário trágico é relatado por ex-atletas da seleção brasileira de ginástica rítmica, fazendo eco a denúncias semelhantes em pelo menos outros cinco países. Em agosto, uma ex-atleta conclamou as colegas, por meio de um post numa rede social a contarem suas histórias. O Esporte Espetacular falou com vinte dessas moças, das quais sete aceitaram aparecer na reportagem. A obsessão com peso, imposta por treinadores abusivos, é o denominador comum, levando as meninas a distúrbios alimentares e psicológicos. A Confederação Brasileira de Ginástica alega que jamais recebeu denúncias de abusos.




O Bahia demitiu o técnico Mano Menezes e afastou o jogador Indio Ramírez após ambos serem acusados de racismo contra o jogador Gerson, do Flamengo, na partida entre os dois times ontem. Após o clube baiano fazer um gol, Indio teria dito para Gerson “cala a boca, negro”. Já Mano desqualificou a denúncia como “malandragem” do rubro-negro. O Flamengo venceu o jogo por 4 x 3.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Bolsonaro entra na mira do STF por suspeita de blindar seus filhos com a máquina pública

 


Com quase dois anos à frente do Governo, o presidente Jair Bolsonaro, que sempre se disse um “defensor da família”, transparece a preocupação em proteger pelo menos uma delas: a sua própria. O repórter Gil Alessi conta que, nesta sexta-feira, a ministra Carmem Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a investigação da suposta produção de relatórios pela Abin com o objetivo de auxiliar a defesa do senador Flávio Bolsonaro, o filho “01” do presidente, no caso das rachadinhas. Caso fique comprovado que a agência agiu para ajudar Flávio, será escrito mais um capítulo de uma história de episódios nos quais a atuação do presidente parece borrar a linha que separa os negócios privados do clã e a máquina pública. “Pretendo beneficiar filho meu sim, pretendo, se puder dar um filé mignon para o meu filho, eu dou”, já declarou o mandatário.

As outras famílias latino-americanas esperam que a vacina contra o coronavírus venha acompanhada da renda e dos empregos perdidos durante a pandemia. Essa recuperação começará em 2021, de acordo a organismos multilaterais, mas será árdua e incompleta. Dependerá da eficiência dos poderes públicos em distribuírem e administrarem a vacina, da capacidade de manter os estímulos fiscais para ajudar suas populações, e de como os Governos lidarão com possíveis insatisfações sociais. Além da economia, as democracias da região foram deterioradas pela crise sanitária. Um relatório da IDEA Internacional alertou que a crise pode consolidar ou agravar ainda mais as preocupantes tendências que os regimes apresentavam na América Latina.

A imunização da população tem sido apontada como a solução mais rápida para frear a pandemia que assola o mundo, e obriga países, como a Itália, a decretar o confinamento da população durante as festas de final de ano. Até o momento, as duas vacinas contra o novo coronavírus que mostraram maior eficácia se baseiam na molécula de RNA, especificamente em um subtipo conhecido como RNA mensageiro. Seu trabalho é transmitir a mensagem da vida contido no DNA e transformá-lo em todas as proteínas que nos permitem respirar, pensar, nos mexer, viver. Por meio de uma reportagem ilustrativa, Nuño Domínguez e Arthur Galocha explicam como a aprovação das vacinas da Moderna e da BioNTech pode ser o começo de uma nova era de tratamentos contra o câncer, doenças raras e vacinas universais.

Por fim, para ler com calma, a história de Aryeh Neier, o advogado judeu que lutou pelas liberdades dos nazistas. Ativista das liberdades civis e direitos humanos desde sua época de estudante secundarista, Neier declara: “A história é eloquente: a liberdade dos nossos inimigos deve ser defendida se quisermos conservar a nossa”. “E eu, sendo judeu, como posso me negar a defender a liberdade, mesmo que para os nazistas?”.

 

Bolsonaro entra na mira do STF por suspeita de blindar seus filhos com a máquina pública
Bolsonaro entra na mira do STF por suspeita de blindar seus filhos com a máquina pública
Suspeita de que Abin favoreceu defesa de Flávio Bolsonaro se soma à lista que inclui troca no comando da PF e influência nas eleições do MP do Rio

sábado, 19 de dezembro de 2020

Rosângela Moro acha que somos idiotas

 


Rosângela Moro acha que somos idiotas

Uma resenha do novo livro da esposa de Sergio Moro – um conto de fadas sobre o marido.

 

Rosângela Wolff Moro, advogada e esposa do ex-ministro bolsonarista Sergio Moro, vende "um olhar privilegiado sobre a história de um dos personagens mais importantes do Brasil" em "Os dias mais intensos", um livrinho de meras 142 páginas que chegou antes ao Kindle que às livrarias. 

Só que não.

Como realização literária, é um previsível fiasco. Rosângela escreve como uma adolescente, seja na forma ou na visão maniqueísta de mundo que suas memórias mais confirmam que revelam. Mas a impressão que a leitura deixa é que isso não se deve apenas à falta de traquejo da autora. 

Ao contrário, "Os dias mais intensos" cumpre com louvor o que parece seu propósito: mitificar Sergio Moro como homem incorruptível e bem intencionado, que abraçou o bolsonarismo por uma sensação de dever patriótico e sem saber direito quem era seu chefe, o pior sujeito que a política brasileira já produziu e, já na época, bastante conhecido por qualquer pessoa que não vivesse em Marte.

Não é de hoje que, na versão tupiniquim dos Underwood (o casal de políticos inescrupulosos do seriado “House of cards”), Rosângela cuida das tarefas da comunicação. Sergio, ainda juiz, sabia da importância de conquistar a opinião pública para o sucesso do seu empreendimento – tanto que escreveu artigos saudando a habilidade que a operação Mãos Limpas teve na Itália para dominar a narrativa política. Desde que a Lava Jato mal começara, Rosângela estava ajudando no projeto: criou uma página no Facebook em que trocadilhava o verbo morar com o sobrenome do casal: Eu Moro com ele. O livro deve ser lido como a sequência dessa esparrela.

"Ele [Moro] já havia tido algumas decepções que o impediram de alcançar melhores resultados para a sociedade, mas seguira em frente, tendo em vista que a sua missão era servir ao país", escreve Rosângela logo no início do texto. "Deixar o governo cabia exclusivamente ao meu marido, mas confesso: vê-lo abrir mão do cargo para não ceder a suas convicções só fez aumentar ainda mais a minha admiração por ele".

Há superlativos em profusão (e algumas dubiedades acidentais) quando Rosângela se refere ao marido e político: "a transparência [é] marca registrada de Sergio", "Essa é a razão de eu ter afirmado, em minhas redes sociais, que não poderia esperar outra atitude ética dele [quando da demissão do governo]", "Moro não brinca em serviço e não poupa ninguém no que diz respeito ao alcance da lei", "a Lava Jato foi a maior operação já vista na história do Brasil e tirou a sujeira toda de debaixo do tapete".

Acredita só quem quer, claro. As reportagens da #VazaJato estão aí para lembrar que Moro não quis melindrar FHC, atitude algo imprópria a alguém que pretenda “não poupar ninguém”. Também sabemos que o então ministro deixou o miliciano Adriano da Nóbrega de fora da lista dos criminosos mais procurados do país – dias depois, ele seria morto pela polícia na Bahia, levando consigo segredos da relação da família Bolsonaro com a milícia. 

Em dado momento, a ânsia de Rosângela em limpar a barra do marido é tamanha que a faz cometer um saboroso ato falho – que passou despercebido pelos revisores do livro. É justamente quando ela comenta as mensagens de Telegram publicadas pelo Intercept e veículos parceiros. 

"Por algum motivo, atribuíram a Moro e a Deltan mensagens trocadas por aplicativo que nunca tiveram seu conteúdo periciado e atestado como verdadeiro. Afirmam que, em algum procedimento, Moro foi suspeito de ser imparcial", embanana-se Rosângela. Doutora, ele foi suspeito de ser “parcial”, mas obrigado por duvidar da imparcialidade de Sergio, ainda que por um lapso.

(Detalhe: ela mente ao dizer que as mensagens não foram periciadas. Não faz muito tempo que o procurador Diogo Castor de Mattos, ex-Lava Jato, pediu e obteve acesso às mensagens guardadas sob custódia da Justiça Federal para usá-las em um processo judicial. A perícia da Polícia Federal confirmou a Castor que as mensagens foram retiradas do telefone dele.)

 

Censurada pelo marido

A certa altura da narrativa, Rosângela confessa ter sido pressionada por Moro a apagar uma postagem em rede social em que defendia o ministro Luiz Henrique Mandetta – que, àquela altura, já nadava no óleo fervente da frigideira do Palácio do Planalto. 

"A minha publicação em rede social foi feita como cidadã, como brasileira, como contribuinte e como eleitora. No entanto, sendo casada com o então ministro da Justiça e Segurança Pública, a minha mensagem não passou despercebida. Esse é o ônus de ser casada com uma figura pública. Você não pode se manifestar, pois perde esse direito", diz, revelando plena consciência de que suas palavras são indivisíveis das do marido.

É nesse trecho do livro, justamente, que Rosângela parece escrever com um pouco mais de sinceridade e profundidade. No restante da obra, os temas vêm e vão em frases telegráficas e parágrafos que pouco revelam e nunca surpreendem.

"Desde a época da Lava Jato, eu já tinha perdido esse direito porque atribuem a minha fala a Moro, o que é totalmente descabido, porque meu marido fala por si mesmo. No entanto, sou apenas uma 'cônje', como tratado na entrevista de Pedro Bial", lamenta-se.

Apesar disso, Rosângela parece à vontade no papel de coadjuvante do marido, como revelam frases que volta e meia aparecem no texto. "Decidi largar meu início de carreira por amor". "Eu buscava a independência, mas a vida me apresentou o Moro e tive que fazer uma escolha". "Outra ocasião em que estive com Michelle [Bolsonaro] foi quando fui com meu marido visitar o presidente, que se restabelecia de uma cirurgia em um hospital em São Paulo. Enquanto os meninos tratavam dos assuntos da pátria, nós conversávamos sobre dia a dia, filhos e rotina".

 

O abraço em Bolsonaro

Em 2 de outubro passado, Sergio Moro foi ao Twitter para espinafrar a indicação de Kassio Nunes Marques ao Supremo Tribunal Federal. "Simples assim, se o PR @jairbolsonaro não indicar alguém ao STF comprometido com o combate à corrupção ou com a execução da condenação criminal em segunda instância, todos já saberão a sua verdadeira natureza (muitos já sabem)", escreveu, em seu português único.

Moro apagou o post, mas não sem antes ser questionado por um tuiteiro se não sabia quem era Jair Bolsonaro antes de aceitar o cargo de ministro. "Não", ele respondeu, seco. Se ele não sabia, Rosângela sabia e deixa isso claro no livro ao tratar da viagem de Sergio a Davos, em 2019, quando Bolsonaro fez o célebre discurso de meros seis minutos que embasbacou o mundo. 

"É certo que suas declarações pretéritas [as de Bolsonaro], ainda como deputado ou candidato, não haviam repercutido bem no exterior", ela escreve. Rosângela alivia para o presidente – as atrocidades dele causaram espanto inclusive no Brasil. É difícil acreditar que ela e Sergio não conversaram sobre as declarações e a biografia de Bolsonaro, sobretudo após o convite ao então juiz.

Mas mesmo Rosângela tenta fingir que foi enganada – ou, para ser preciso, parece tentar enganar o (e)leitor. "A promessa de um governo compartilhado com técnicos e especialistas nas áreas viscerais do governo federal, para o bem do país, era um projeto que me agradava", afirma Rosângela, tentando justificar porque se deixou seduzir pelo bolsonarismo.

Em entrevista sobre o livro, ela dobra a aposta na própria candura. "Bolsonaro montou um time de peso [no ministério], com pessoas realmente técnicas em cada uma das pastas". Vamos relembrar nomes técnicos nomes do primeiro ministério de Bolsonaro para ver se essa frase faz sentido: Ernesto Araújo, Ricardo Salles, Damares Alves, o olavista Vélez Rodrigues, Osmar Terra, Marcelo Álvaro Antônio e Onyx Lorenzoni – este, aliás, já conhecido pela força-tarefa da Lava Jato de Moro. No Telegram, Deltan Dallagnol confessou que sabia que Onyx estava envolvido com corrupção, mas nada fez. Pois é.

Falando de Mandetta, Rosângela registrou para a posteridade outra pérola: "Eu acompanhava quase que diariamente a coletiva do Ministério da Saúde e agradecia a Deus por termos um ministro da Saúde que, além de conhecer o nosso SUS, era médico. Sabemos que no Brasil nem sempre foi assim". 

Não sei bem em qual Brasil vive a doutora, mas nos 21 anos que englobam os governos de FHC, Lula e Dilma Rousseff, 12 pessoas comandaram a Saúde. Só três delas não eram médicos. Ademais, quem conhece Mandetta sabe que ele não é um entusiasta do "nosso SUS". Há anos que ele se dedica à política e ao lobby de médicos, planos privados de saúde e ruralistas – desde 2001, para ser preciso, quando se tornou presidente da Unimed do Mato Grosso do Sul. Nos dois mandatos como deputado federal, de 2011 a 19, foi feroz adversário do Mais Médicos, que cuidou de implodir como ministro.

Nem acho que a doutora Rosângela – mulher formada numa boa faculdade, com dinheiro para se informar bem – não saiba disso tudo. Ela só acha que vai passar incólume com a propaganda política travestida de conto de fadas que mandou às livrarias.

Rosângela Moro acha que somos todos idiotas.

Rafael Moro Martins
Editor Contribuinte Sênio

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Câmara aprovou nesta quinta-feira a regulamentação do Fundeb

 Câmara aprovou nesta quinta-feira a regulamentação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) sem a emenda que os próprios deputados haviam incluído permitindo o repasse de dinheiro público para instituições ligadas a igrejas. Na véspera, o Senado havia rejeitado a mudança, que, na prática retirava R$ 12,8 bilhões das escolas públicas e repassava para instituições filantrópicas privadas, comunitárias e religiosas. Com a alteração feita pelos senadores, o assunto voltou à Câmara. O Partido Novo ainda tentou aprovar emenda para que essas escolas privadas pudessem usar recursos do Fundeb nos ensinos fundamental e médio, mas a proposta foi rejeitada. (Folha)

Se ganhou no Congresso, o ensino público perdeu no Planalto. O presidente Jair Bolsonaro vetou o trecho da regulamentação do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) que previa a instalação, até 2024, de internet em banda larga em todas as escolas públicas, em particular fora dos grandes centros. Na justificativa para o veto, ele reconheceu o mérito da medida, mas disse que ela acarretava “renúncia de receita”. Esse e outros cinco vetos só serão analisados pelo Congresso no ano que vem.




Quem leu o clássico Duna (trailer do novo filme em produção), de Frank Herbert, é familiarizado com a ideia, mas para os demais pode soar estranho. A companhia Dinamarquesa Aquaporin aprimorou o sistema de filtragem da Estação Espacial Internacional usando uma proteína que permite, por exemplo, um par de rins humanos filtrar 45 litros de fluido por dia. No espaço, água não pode ser desperdiçada, assim, o sistema recicla qualquer umidade, incluindo urina humana, que se torna água potável. A tecnologia já está sendo usada na Dinamarca e na Hungria para retirar resíduos plásticos da água, e a empresa espera utilizá-la para suprir parte da demanda por água potável em países pobres. (CNN)

Ministério da Saúde batendo cabeça

 


Tony de Marco

 
Ze-Gotinha