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sexta-feira, 8 de abril de 2022

O exorcismo dos fantasmas da política econômica de Lula

 


A melhor fase da economia foi quando as políticas sociais e o aumento do salário mínimo abasteceram o mercado interno

Luís Nassif | GGN

Aos poucos vão se desfazendo as fantasias sobre a política econômica de um futuro governo Lula. A demora se deve aos vícios da cobertura econômica, centrada em bordões, tipo “toda privatização é virtuosa”, “o mercado leva ao equilíbrio de preços sem necessidade de regulação”, e outros slogans do livre mercado.

É até curioso haver necessidade de esclarecer que Lula não pretende ir contra as empresas e o mercado. Lula tem reputação consolidada em todos os grandes centros globais, junto aos maiores investidores e aos maiores países. A ideia de um Lula economicamente incendiário é mero fake news.

O jogo que se tem pela frente é a reconstrução de padrões mínimos de governabilidade, fundados em princípios básicos de bom senso. 

Nos últimos dias, uma série de reportagens sobre o pensamento de Gabriel Galipolo – economista, ex-presidente do Banco Fator, membro do Conselho de Economia da FIESP e de um sem-número de think tank de nível – trouxe mais clareza para o debate.

São eles:

1. Privatização não é bem nem mal em si. Cada caso precisa ser analisado em si, assim como as consequências para o país.

É uma norma de absoluto bom senso. Qual o impacto da privatização da Eletrobras no custo da energia? O que significará tirar a Eletrobras da condição de armazenadora de energia de última instância? Qual a relevância da Petrobras no fortalecimento das cadeias produtivas do petróleo, das redes de pesquisa, da garantia de fornecimento de combustível ao país? Qual o papel do BNDES na oferta de financiamento de longo prazo, compatível com taxas internacionais? Com a privatização, quais dessas funções seriam comprometidas?

Em qualquer país racional, seriam questões colocadas à mesa como ponto de partida para qualquer início de discussão sobre a privatização.

2. A Lei do Teto é pró-cíclica.

Há um princípio básico em economia, que não foi revogado nem por esse sub-hiper-liberalismo pós Temer: a de que a política fiscal tem que ser anticíclica. Isto é, se a economia está caindo, tem que aumentar os gastos para recuperar a economia. Se a economia está muito aquecida, precisa atuar para desaquecê-la.

Os gênios brasileiros da economia criaram uma Lei (para vigorar por 20 anos!) que faz o contrário. Se a economia entra em crise, há um desaquecimento que derruba a arrecadação fiscal. Aí a Lei propõe cortar ainda mais os gastos, reforçando ainda mais o movimento recessivo. O que se propõe é, de um lado, uma lei anticíclica. De outro, regras que definam prioridades para os gastos, para impedir o comprometimento dos investimentos públicos.

3. As estatais são fundamentais para a retomada dos investimentos.

Uma das maiores loucuras pós-2016 foi supor que fazendo o ajuste fiscal pelo corte de despesas, se conseguiria a confiança dos investidores, que inundariam o país de dólares.

O investimento que conta – o que levanta empresas, aumenta a capacidade produtiva, gera empregos – depende de algo óbvio: mercado. A irresponsabilidade do ajuste fiscal pró-cíclico liquidou com o mercado interno, levando empresas historicamente ligadas ao país a fecharem suas fábricas. Sem mercado, sem expectativa de crescimento, quem irá investir? Aí a relevância das estatais, puxando o bonde dos investimentos.

4. Políticas sociais são fundamentais para a paz social e para a recriação do mercado interno.

A melhor fase da economia foi quando as políticas sociais e o aumento do salário mínimo abasteceram o mercado interno. Para um país que voltou ao mapa da fome, essas políticas são essenciais e não apenas por uma questão civilizatória, mas como peça central da recuperação do desenvolvimento.

https://jornalggn.com.br/economia/o-exorcismo-dos-fantasmas-da-politica-economica-de-lula-por-luis-nassif/

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Pandora Papers: O caminho para investigar Paulo Guedes e Campos Neto

 

A investigação deve se concentrar na movimentação desses fundos, onde estavam aplicados durante a montanha russa do mercado de ações e de títulos

Luís Nassif | GGN

O que uma autoridade econômica de uma grande economia pode fazer com seus fundos offshore, tendo acesso a informações antecipadas sobre os rumos da economia e as medidas econômicas?

O caso Roberto Campos Neto e Paulo Guedes chamam a atenção.

Uma primeira análise é sobre os rumos da política monetária. Ao permitir a notável depreciação do dólar, ambos foram diretamente beneficiados.

Vamos a outras possibilidades, a partir do que foi descoberto sobre Richard Clarida, vice-presidente do Federal Reserve (o Banco Central norte-americano)., em reportagem da Zero Hedge.

As manobras levaram a escândalos que provocaram a renúncia dos presidentes do FED de Boston e Dallas. O escândalo Clarida veio em seguida.

Em 27 de fevereiro de 2020 ele negociou milhões em títulos, um dia antes do presidente do FED dar uma declaração de emergência, bastante otimista, sugerindo uma possível ação monetária conforme a pandemia piorava.

As declarações de Jerome H. Powell, presidente do FED, eram otimistas:

Os fundamentos da economia dos EUA permanecem fortes. No entanto, o coronavírus apresenta riscos crescentes para a atividade econômica. O Federal Reserve está monitorando de perto os desenvolvimentos e suas implicações para as perspectivas econômicas. Usaremos nossas ferramentas e agiremos conforme apropriado para apoiar a economia

Clarida transferiu US$ 5 milhões de um fundo de título da Pimco e de um fundo negociado em bolsa, pouco antes do FED nacionalizar o mercado de títulos corporativos, tirando o mico da banca privada.

Poucos dias depois, com as ações despencando, O FED avançou na primeira de muitas operações de resgate emergencial do mercado, incluindo trilhões em operações compromissadas e reversas.

Depois disso, a S&P500 (que mede comportamento das ações) explodiu.

Flagrado com o porco nas costas, Clarida explicou que as operações já estavam planejadas há tempos e seriam apenas um rebalanceamento de suas aplicações.

Assim como Guedes e Campos, Clarida veio do mercado, era executiva da PIMCO.

No dia da negociação, segundo levantou a Bloomberg, ela estava visitando professores e alunos da Universidade de Yale, e não em seu escritório em Washington. Não se identificou nenhum telefonema para a PIMCO, que comprovasse uma negociação aberta. O que sugere que a ordem de compra foi particular.

O Guia Voluntário de Conduta do FED define que ” eles devem evitar cuidadosamente o envolvimento em qualquer transação financeira cujo momento possa criar a aparência de ação com base em informações privilegiadas sobre as deliberações e ações do Federal Reserve”. Também diz que eles devem evitar negociações que possam “transmitir até mesmo uma aparência de conflito entre seus interesses pessoais, os interesses do sistema e o interesse público”.

Fevereiro de 2020 foi um mês particularmente nervoso nos mercados internacionais – e no Brasil. Muitos fundos carregavam títulos de dívida de grupos privadas, e não se sabia quem sairia vivo ou morto da parada súbita da economia. Em ambos os mercados, houve movimentações violentas no mercado de títulos privados, conforme relatamos aqui no GGN.

As medidas do Banco Central permitiram a recuperação do mercado, injetando bilhões para assumir os títulos duvidosos dos fundos privados.

Quem teve conhecimento prévio dos movimentos do BC, ganhou muito dinheiro. 

O ponto central das investigações sobre Campos Neto e Guedes não deve ser a origem dos recursos depositados.

As notas oficiais de ambos não explicam nada. Dizem que declararam os recursos antes de assumir. Dizem que os recursos foram depositados no exterior antes de sua posse como Ministro e presidente do BC.

A investigação deve se concentrar na movimentação desses fundos, onde estavam aplicados durante a montanha russa do mercado de ações e de títulos.

https://jornalggn.com.br/editoria/politica/pandora-papers-o-caminho-para-investigar-paulo-guedes-e-campos-neto-por-luis-nassif/

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Xadrez de como Braga Netto tentou operação Davati quando interventor no Rio

 Xadrez de como Braga Netto tentou operação Davati quando interventor no Rio 

O remanejamento do general Ramos da Casa Civil não foi medida isolada de Bolsonaro. Sua entrevista ao Estado, dizendo-se atropelado por um trem, visou esconder o óbvio: a entrega de anéis ao Centrão foi uma decisão conjunto dos militares no governo, visando salvar o mandato de Bolsonaro.

Luís Nassif | GGN

Peça 1 – a prova que faltava 

A informação de que, quando interventor do Rio de Janeiro o general Braga Netto tentou adquirir coletes de segurança de uma empresa de Miami – sem licitação – pode se constituir na mais relevante informação sobre o grupo militar que se apossou do poder através de Jair Bolsonaro.

Reforça a tese de que a eleição de Bolsonaro foi uma operação articulada dentro das Forças Armadas por militares diretamente envolvidos com os negócios da ultra-direita mundial antes mesmo de Bolsonaro surgir como presidenciável.

Vamos por partes.

Primeiro, algumas reportagens pioneiras do GGN sobre os grupos de ultradireita mundiais e Bolsonaro

Aqui, sobre a indústria de armas global e os esquemas globais de neopentecostais.

Aqui, os precursores da guerra híbrida.

Aqui, sobre o pensamento da ultradireita militar.

Peça 2 – os negócios de Braga Netto com a intervenção 

No dia 31.12.2019, a Agência Pública divulgou uma reportagem sobre os negócios de Braga Netto no comando  da intervenção militar no Rio de Janeiro.

Segundo ela, Braga Netto fechou R$ 140 milhões em contratos sem licitação. Uma das compras foram 14 mil pistolas Glock para a Polícia Militar do Rio de Janeiro. O principal divulgador  da Glock passou a ser  Eduardo Bolsonaro. A compra antecedeu sua campanha, mostrando que as teias estavam sendo tecidas por Braga Netto mesmo antes da ascensão de Bolsonaro.
Na 5a feira, Brasil de Fato publicou reportagem mostrando acordo fechado por Braga Netto com a CTU Secutiry, para compra de coletes de segurança, no período em que comandou a intervenção no Rio de Janeiro. 

Primeiro, Braga Neto armou a compra de coletes com dispensa de licitação no valor de R$ 40 milhões.  

Aparentemente, a jogada foi suspensa após análise da Secretaria de Controle Interno da Presidência da República.

Mas os personagens envolvidos guardam preocupante semelhança com aqueles envolvidos na tentativa de venda das vacinas Covaxin.

Vamos comparar os principais personagens e modus operandi de ambas as operações.

Peça 3 – os personagens da licitação dos coletes

Primeiro, mais dados sobre a tal CTU, que pretendia vender coletes a Braga Netto.

Não é uma fabricante. É uma empresa de segurança em dificuldades financeiras, que até no nome mostrava seus propósitos políticos. A sigla significa Academia Federal da Unidade de Combate ao Terrorismo.

A empresa em questão é presidida por Antonio Emmanuel Intríago Valera, o Tony Intriago, um venezuelano conhecido como Tony Intríago e, agora, investigada pela participação no assassinato do presidente do Haiti. 

https://www.facebook.com/100652334681130/videos/563037504694171

A CTU é especializada em contratar mercenários para operações políticas Segundo a Agência Pública, ela "foi citada nas revelações do WikiLeaks em 2015 sobre a Hacking Team, uma empresa italiana conhecida por desenvolver ferramentas de vigilância e espionagem cujos programas foram acusados de roubar senhas de jornalistas e espionar ativistas de direitos humanos em países como os Emirados Árabes Unidos e Marrocos. O vazamento do WikiLeaks mostrou que a CTU buscou a Hacking Team para tentar vender projetos conjuntos de vigilância para o governo do México, revelando interesse, inclusive, na implantação remota de softwares espiões em computadores".

A imprensa americana menciona que Intriago esteve envolvido com a tentativa de invasão da Venezuela em 2020.

Peça 4 – as coincidências com o esquema Davati

Vamos às principais semelhanças entre as duas tramas:

Compra de emergência

Tanto nos contratos da intervenção do Rio de Janeiro quanto nos da Saúde, tentou-se fugir das licitações alegando emergência. Nos dois casos, Braga Netto foi personagem central, como comandante da intervenção militar no Rio, e como Ministro-Chefe da Casa Civil e coordenador do grupo de combate ao coronavirus. Nos dois casos, os órgãos de controle – ainda não desmontados por Bolsonaro – impediram a consumação das compras.

Donos de empresa de segurança e academia de tiro 

Segundo o Miami Herald, além de vender equipamentos, a CTU é uma academia de tiro e uma agenciadora de mercenários para ações políticas. Teria participado de uma tentativa fracassada de golpe na Venezuela em 2020. Seu proprietário, Tony Intriago, é venezuelano.

Segundo a Newsweek, a CTU era uma empresa de segurança em dificuldades, "que supostamente tinha um histórico de evitar dívidas e declarar falência". Ou seja, o padrão Precisa (a empresa que intermediava vacinas) já estava presente nas compras de Braga Netto. 

No caso da Covaxin, um dos personagens principais é Carlos Alberto Tabanez, proprietário de um clube de tiro e de uma empresa de terceirização, a G.S.I., que nos últimos anos conquistou R$ 20 milhões em contratos com o setor público, especialmente com o Hospital das Forças Armadas.

Desde 2019 apontamos que os Clubes de Tiro são o principal braço armado do bolsonarismo, a partir das ligações de Eduardo Bolsonaro com o clube de tiro de Florianópolis. 

Eles são peças centrais da ideologia das armas.

O fator Haiti

Outro ponto em comum é o fator Haiti, comprovando que o núcleo original é o da força de paz do Haiti.

Em Brasília, Tabanez deu aulas de explosivos à tropa, quando se preparavam para ir ao Haiti. Já Tony Intriago tem relação umbilical com Haiti, a ponto de participar do assassinato do presidente.

Pastores de empresas benemerentes

No caso da Covaxin, um dos principais personagens é o reverendo Amilton Gomes, atuando através de uma falsa ONG, uma empresa de nome Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários (Senah), que faz marketing da benemerência mas está aberta para negócios. É apresentada como ligada a uma tal Embaixada Mundial Humanitária pela Paz, além de se dizer parceira da ONU nas metas do milênio. Também se apresenta como especialista terapêutico, em psicologia e psicanálise.

No caso do atentado que matou o presidente do  Haiti, o principal personagem é o reverendo Christian Shanon. do Tabernáculo Evangélico Tabarre,  um haitiano de 62 anos que mora na Flórida há mais de duas décadas e que tem também uma empresa (disfarçada de ONG) de nome Operação Roma-Haiti. Ele se apresenta como médico, embora não tenha nenhum registro médico em Miami.

Segundo o Miami Herald, Shanon pediu falência em Tampa em 2013 e teve mais de uma dúzia de empresas registradas no estado, a maioria das quais agora estão inativas

Mas juntou recursos para alugar um jatinho e levar as duas dezenas de mercenários para o Haiti.

Em ambos os casos, os pastores mantêm relações com militares e praticam o discurso da anti-corrupção.

Ontem, o Miami Herald trouxe mais um implicado, que possui falsa ONG de benemerência. Trata-se de James Solanges. Segundo o jornalJames Solages, 35, foi um dos dois cidadãos americanos presos pelas autoridades haitianas  imediatamente após o ataque ao presidente haitiano.

Natural de Jacmel, Haiti, Solages morava em Tamarac antes de ser detido. Em sites pessoais e páginas do Facebook que já foram retirados do ar, Solages se descreveu como um ex-guarda-costas da Embaixada do Canadá no Haiti e graduado na Fort Lauderdale High School.

Solages administrava uma instituição de caridade chamada FWA SA A JACMEL AVAN INC, que ele descreveu em sua página do LinkedIn, agora desativada, como uma instituição de caridade de capacitação econômica. Ele também é o CEO registrado da EJS Maintenance & Repair, LLC em North Lauderdale.

Peça 5 – um movimento maior do que o bolsonarismo

Não há coincidências, mas um modus operandi  que liga esquemas da ultra-direita armada com pastores neopentecostais, em cima das mesmas bandeiras: interferência política para salvar a humanidade das esquerdas, ligações com Israel, montagem de ONGs para exercitar o marketing da benemerência.

No site da Senah, menciona-se que a tal Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários integra uma rede mundial que atua em 18 países.

O maior engano que poderia ocorrer, a esta altura do campeonato, é a extraordinária miopia de alguns analistas políticos, de supor que o Centrão está ocupando o espaço dos militares. Alguns artigos manifestam até solidariedade, como se os militares de Bolsonaro fossem cadetes ingênuos, sendo engolidos por raposas. 

Para com isso! Trata-se de um governo militar, composto por militares ambiciosos, das mesmas turmas do então tenente Jair Bolsonaro, que vão defender a ferro e fogo o espaço político conquistado. Bolsonaro é um agente do grupo militar.

As ligações de Braga Netto com empresas especializadas em atentados políticos, o eixo Haiti, a enorme quantidade de militares envolvidos em irregularidades, os abusos de contratos sem licitação beneficiando  os neo-empresários, militares da reserva que estão conseguindo contratos polpudos com o setor público, tudo isso leva a crer que o Twitter do general Villas Boas não foi o início da tentativa militar de empalmar o poder, mas o tiro de largada.

O remanejamento do general Ramos da Casa Civil não foi medida isolada de Bolsonaro. Sua entrevista ao Estado, dizendo-se atropelado por um trem, visou esconder o óbvio: a entrega de anéis ao Centrão foi uma decisão conjunto dos militares no governo, visando salvar o mandato de Bolsonaro.

As concessões ao Centrão foram planejadas pelos próprios militares sabedores de que as revelações da CPI do Covid, especialmente a comunicação entre o então Ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto, e a Saúde, desnudarão de vez a grande armação das vacinas.

Do mesmo modo, a indicação dos novos comandantes das Forças Armadas não foi um gesto de autonomia em relação a Bolsonaro. Foi uma escolha pessoal do Ministro da Defesa, Braga Netto. E uma escolha a dedo, a julgar pelas manifestações dos comandantes da FAB e da Marinha em endosso ao factoide criado para justificar a Nota Oficial contra o presidente da CPI Omar Aziz.

Nas próximas semanas, haverá a explicitação da parte mais complexa da infiltração militar: os grandes negócios realizados no âmbito do orçamento militar que estão sendo levantados pelo Tribunal de Contas da União.