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domingo, 12 de dezembro de 2021

Lobista em pele de especialista

 



O que os jornais não te contaram.
 

Queridinho da imprensa, o economista Adriano Pires é a principal fonte para assuntos relacionados ao setor energético. Ele dá entrevistas – há duas décadas – para os principais veículos de imprensa e tem coluna fixa no Estadão e no Poder 360, além de escrever esporadicamente para outros jornais e sites especializados.

O que suas colunas e os jornalistas que o entrevistam com frequência não mencionam é que ele trabalha intensamente nos bastidores pelos interesses de empresas do setor de óleo e gás, principalmente a Comgás. Ou seja, é um lobista que, quando veste a roupa de especialista, advoga publicamente em benefício próprio.

A atuação de Pires para além das páginas da imprensa pode ser exemplificada na agenda que ele tem em Brasília. Quem parece sempre pronto a recebê-lo é o ministro de Minas e Energia, o almirante Bento Albuquerque, por exemplo. Foram 11 encontros oficiais desde que o militar assumiu o cargo, em 2019, de acordo com dados que obtive por meio da Lei de Acesso à Informação. Pode parecer pouco, mas o número se destaca quando comparado a quem o ministro não recebeu nesses quase três anos de governo. Juntas, a Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa, a Associação Brasileira de Energia Eólica e a Associação Brasileira de Energia Solar, principais representantes do setor de energia renovável, por exemplo, tiveram nove encontros com Albuquerque desde sua posse – em três ocasiões, as reuniões foram coletivas. 

Com a crise hídrica e a necessidade de o país encontrar outras fontes energéticas, era de se esperar que o setor recebesse mais atenção do almirante. Em seu discurso na Cúpula de Líderes sobre o Clima, em abril de 2021, o próprio presidente Jair Bolsonaro garantiu que o Brasil iria zerar os índices de emissão de carbono até 2050, o que só é possível com o investimento em fontes de energia limpa. O problema é que o ministro que deveria cuidar dessa agenda prefere receber um lobista dos combustíveis fósseis.

Segundo um empresário com quem conversei e que preferiu não se identificar para evitar prejuízos profissionais, o Adriano Pires opera em "todo tipo de privatização, vantagem a particulares, defesa de interesses estrangeiros no setor elétrico e de petróleo". Embora não seja um crime, o lobby no Brasil não é regulamentado. Isso faz com que as negociatas não tenham transparência e nenhum tipo de controle social. Pior ainda vindo de alguém que ostenta na imprensa a imagem de um estudioso sem interesses financeiros em suas opiniões.

No LinkedIn, Pires se vende como profissional que "atua há mais de 30 anos na área de energia". Ele é sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura, o CBIE, uma empresa que oferece consultoria para os setores de eletricidade, óleo e gás, saneamento, combustíveis, biocombustíveis, açúcar e álcool. 

A maioria das reuniões entre Pires e Albuquerque ocorreram em 2019, no Rio de Janeiro, onde está a consultoria do economista e um gabinete do almirante. Em duas ocasiões, os encontros contaram com a presença de empresários, caso de uma reunião realizada em maio daquele ano entre o ministro, Pires e o executivo da Cosan, Luiz Guimarães. O grupo é dono, entre outras empresas, da Comgás, principal distribuidora de gás natural de São Paulo. 

As reuniões foram mais frequentes em 2019 porque, naquele ano, foi retomado o debate em torno da Lei do Gás. O projeto original é de 2013, mas havia sido arquivado e voltou à baila logo depois que Bento Albuquerque assumiu o Ministério de Minas e Energia, tramitando rapidamente. A nova legislação foi sancionada em abril de 2021.

Pires atuou com afinco por uma lei que beneficiasse a Comgás, empresa sobre a qual ele costuma escrever artigos favoráveis e que também seria cliente da sua consultoria, conforme fontes do setor me garantiram. Procurei Pires por telefone e WhatsApp, mas ele não respondeu meus contatos. Em um artigo publicado no site Poder 360 em 9 de abril de 2019, ele elogiou o estado de São Paulo por ter classificado o Subida da Serra, da Comgás, como um gasoduto de distribuição de gás, o que beneficia a empresa. Por outro lado, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a ANP, órgão do governo federal, classificou o gasoduto como de transporte. 

O tipo de classificação do gasoduto faz diferença, porque a concessão para empresas de distribuição, ou seja, para a entrega do gás aos consumidores, é de competência dos estados; já a concessão para empresas de transporte de gás, que envolve uma operação mais complexa de conexão com fontes de suprimento, é de competência da União. 

Pires defendeu a classificação que beneficia a Comgás em um documento a que tive acesso. Ele foi elaborado por sua consultoria e apresentado em uma consulta pública ao governo de São Paulo. É de praxe, segundo os empresários com quem conversei, que as empresas contratem consultorias ou estudos para defender seus interesses em consultas públicas. O negócio milionário enfrenta resistência no setor, pois pode levar a Cosan a dominar o mercado de gás, impedindo a concorrência de outras empresas. 

No mesmo mês em que escreveu o artigo, o colunista se reuniu duas vezes com o ministro Albuquerque, nos dias 15 e 18 de abril. Um terceiro encontro aconteceu logo depois, em 13 de maio, dessa vez com a presença do executivo Guimarães, da Comgás. A pauta de todas as reuniões – "temas referentes ao setor energético" – pouco diz sobre o que de fato foi tratado. Pedi mais detalhes sobre o encontro ao ministério, que se limitou a informar que "foram tratados temas preparatórios concernentes ao setor energético". 

A Lei do Gás acabou não sendo tão favorável à Comgás quanto Pires gostaria e defendia em seus artigos, determinando a independência entre as empresas de produção, de transporte e de distribuição do gás natural. Mas a relação entre o ministro e o lobista se manteve.

Agora, os dois estão na linha de frente da defesa da energia nuclear como melhor estratégia para preservar os reservatórios das hidrelétricas, principalmente em períodos de escassez hídrica, como ocorre no Brasil atualmente. Sobre o lixo radioativo que a geração de energia nuclear produz, os altos custos e os riscos de acidentes, como o que aconteceu em Fukushima, no Japão, em 2011, eles desconversam. 

O lobista já escreveu que "o histórico de segurança da energia nuclear em comparação com os meios tradicionais de geração de eletricidade é reconfortante". E o ministro, que já foi diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha e registrou ao menos 80 compromissos relacionados ao tema em sua agenda oficial desde que assumiu, afirmou, em entrevista de julho deste ano, que "a energia nuclear é muito importante para uma matriz elétrica mais equilibrada". 

Pires concorda. Em um artigo publicado no dia 27 de abril de 2021, ele afirmou que a energia nuclear tem papel importante no combate à mudança climática, mas as contribuições que ela "tem dado por décadas para reduzir as emissões globais" não são amplamente divulgadas, "como ocorre com as fontes de energia renováveis". O ideal, sugere Pires, seria investir na "termoeletricidade nuclear e a gás natural, que são as fontes mais limpas entre as fósseis". Falta saber se Pires tem algum cliente no setor. 

sábado, 11 de dezembro de 2021

Eu sabia, você sabia, agora temos evidências

 


Há alguns dias, escrevi nesta news sobre a bancada de dados, ou como prefiro, "bancada do like", uma frente no Congresso que se diz preocupada em discutir tecnologia e inovação, mas na prática atende aos interesses de lobistas das gigantes da área. Anteontem, publicamos uma nova reportagem sobre a ética deturpada das big techs, mais especificamente do Facebook. Tivemos acesso aos documentos vazados por Frances Haugen, ex-funcionária do império de Mark Zuckerberg, e vimos se materializar o que eu e você já sabíamos, mas antes não havia provas: a empresa sabe dos riscos das suas tecnologias e não só não trabalha para reduzir esses riscos como cria mecanismos de estímulo para que os usuários continuem colados na tela.

Os documentos, que incluem estudos contratados pelo Facebook (agora "Meta"), detalham como o design dos produtos e o modelo de negócio do grupo são a raiz do problema. Você já deve ter visto, no topo do seu perfil do Facebook, um convite para uma pesquisa da rede, em tese segura e que dura apenas alguns minutos, para que eles te conheçam melhor. Agora entendemos o que eles fazem com isso. 

O que teria um potencial revolucionário infelizmente é usado para estudar comportamentos de consumo que estimulam, por exemplo, a disseminação de desinformação, o racismo estrutural e a radicalização de discursos políticos. Há evidências nesses arquivos de que o Facebook sabe quantas semanas um usuário leva para se radicalizar seguindo posts recomendados – e por tabela se tornar um potencial polinizador de conteúdos polêmicos e engajadores.

Na matéria, que assino com os repórteres Débora Lopes e Paulo Victor Ribeiro, mostramos que o Facebook de fato se preocupa com a saúde mental dos usuários — mas faz isso para evitar que os insatisfeitos deixem de usar as plataformas do grupo. Ver tudo isso documentado na nossa frente foi um misto de assombramento e frisson: finalmente, o que eu venho apontando há anos e, nas matérias do TIB, desde 2018, está provado. 

Minha reportagem de estreia aqui, aliás, em junho de 2018, tinha como título "Facebook e Google investem contra fake news, mas são uma das causas do problema". À época, um consórcio de mais de 20 veículos brasileiros se uniu para combater a divulgação de notícias falsas, uma enxurrada que começou na eleição de Donald Trump com a Cambridge Analytica e teve reflexos no Brasil na traumática campanha eleitoral de Bolsonaro. Apesar de reconhecer a importância da iniciativa, fiz questão de marcar posição e apontei o contrassenso que era essa ação ser financiada pelo Google e pelo Facebook, que sempre vi como parte do problema. 

Fui vista como chata do rolê por alguns colegas jornalistas, mas não me arrependo: os documentos do Facebook revelados pela ex-funcionária que analisamos confirmam o que eu venho dizendo há mais de três anos: essas empresas não são boazinhas, não querem saber se o usuário está bem quando convidam para pesquisas. Elas são empresas que visam ao lucro e, como tal, fazem de tudo para obtê-lo. A matéria-prima que elas usam para isso é o seu tempo — e a sua saúde mental.

Se você ainda não leu a reportagem, te convido a ler, está no nosso site. É importante sabermos que nossa presença em redes sociais não é um simples passatempo: envolve dinheiro grande e riscos, assim como outras indústrias. 

Quero também que você lembre que esses são alertas que fazemos desde o início do Intercept: hoje somos um dos veículos mais críticos à cultura digital predatória em que vivemos. E uma conclusão óbvia, mas o óbvio também precisa ser dito: não é possível fazer isso com o dinheiro do Google, do Facebook, da Amazon ou do iFood. Por mais que eles já tenham apoiado iniciativas positivas e importantes, não é preciso ser especialista para saber que tudo que eles não querem são investigações e denúncias sérias sobre seus impérios. Bom, nós queremos.



Abraço,

Tatiana Dias
Editora Sênior

sábado, 4 de dezembro de 2021

Resenha: o livro do Moro

 

 



 






Briga de gangues 


Moro não tem problemas éticos, desde que seus interesses estejam contemplados 

OK, não é uma resenha. Eu não gastaria o sábado de vocês com isso. Vocês sabem que Sérgio Moro lançou um livro, não sabem? Vou apenas ressaltar a parte mais importante logo abaixo, mas, antes, em suma: a obra é uma peça de defesa do ex-juiz. Em suas mal escritas páginas – sem pegação no pé, é de uma pobreza atroz mesmo – o ex-aliado e ministro de Jair Bolsonaro justifica todos os seus atos que levaram o bolsonarismo ao poder, do levantamento de sigilo da delação vazia de Antônio Palocci nas barbas da eleição (alimento ao anti-petismo) aos chats publicados nas 109 reportagens da Vaza Jato.
 
Dois exemplos e depois vou ao que realmente importa. Moro tem um problema sério com a lógica. Diz que o episódio Palocci não interferiu na eleição porque “não foi no segundo turno” (?) e argumenta que as “supostas conversas” publicadas pelo Intercept estavam “fora de contexto”.
 
Ora, mas se são “supostas” conversas, ou seja, se ele questiona a autenticidade dos diálogos, então não seria necessário falar em contexto, certo? Se contam uma mentira sobre você o contexto é irrelevante. Mentira é mentira, independe de observações colaterais. Mas eu, vocês e Sérgio sabemos que não há suposições no que ele escreveu no Telegram. Tanto que ele próprio pediu “escusas” por chamar os tontos do MBL, no Telegram, em confidência a Deltan Dallagnol, de tontos. Alguém aqui já pediu desculpas por algo que não disse? Moro não se dá mesmo bem com a dialética. Como ex-juiz, deveria saber que tem horas que o melhor é ficar calado.
 
Mas há uma confissão detalhada importante nas tortas páginas morísticas. Ela deveria produzir uma manchete importante na imprensa brasileira. Eis:
 

"Moro concordou com troca do comando da PF proposta por Bolsonaro, desde que ele indicasse o novo diretor".

 
Alguém viu essa manchete por ai? Sergio Moro confessou isso em seu livro. Parece notícia? Sim, porque é notícia. E não: essa manchete não foi escrita por nenhum grande meio de comunicação do país. 
 
​​Vamos fazer uma análise bastante objetiva deste trecho do livro. Porque a troca do comando da PF pelo Bolsonaro parou a imprensa na época. É notícia, certo? Claro que sim. O motivo do presidente era claro: proteger Flavio. Moro, em livro, diz textualmente isso aqui:

domingo, 24 de outubro de 2021

Tchutchuca com milicos

 

Sábado, 23 de outubro de 2021
Tchutchuca com milicos


A matemática da impunidade

A CPI da Covid é o maior documento histórico produzido no Brasil sobre a pandemia. No futuro, poderemos consultar seus arquivos para entender como um governo desalmado foi responsável pela morte de mais de meio milhão de pessoas – pessoas essas que ele tem o dever constitucional de cuidar.
 
A CPI da Covid é um documento histórico tão importante que ela diz muito até mesmo sobre as coisas que ignora. Então que se diga: a CPI ignorou a responsabilidade dos militares no morticínio brasileiro.
 
O Brasil está entre os 10 países com mais mortes per capita do mundo, e este sangue escorre pelas mãos de agentes fardados infiltrados na máquina pública. 
 
🍕 O coordenador do Comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19 era um militar (Braga Netto)
🍕 O ministro da Saúde era um militar (Eduardo Pazuello)
🍕 O Secretário-executivo do Ministério da Saúde era um militar (Élcio Franco)
 
Há, no relatório de Renan Calheiros, o pedido de indiciamento dos três. Portanto, as Forças Armadas foram responsabilizadas, você dirá. Mas não.
 
O repórter do Intercept Guilherme Mazieiro levantou ao menos mais duas dúzias de nomes de militares em postos-chave da estrutura de combate à covid. Eles estão espalhados por ministérios e outras autarquias, cuidando de contratos, logística, saúde indígena. Nenhum deles aparece nas investigações ou no relatório. 
 
O Exército é o coração do governo Bolsonaro, é natural que seu alto-escalão seja povoado por homens de farda que também têm responsabilidades sobre a gestão da pandemia.
 
🪖Edson Leal Pujol
 Comandante do Exército quando destravou recursos públicos para a produção de cloroquina no laboratório da corporação. Foi Pujol que deu aval para a confecção de quantidade imensurável de tabletes do medicamento, na época já sabidamente ineficaz.
 
🪖Paulo Sérgio de Oliveira
O dinheiro para a produção de cloroquina no laboratório do Exército saiu do DGP, o Departamento-Geral do Pessoal. O DGP tinha um chefe, Artur Costa Moura, que foi chutado de lá assim que a ordem de Pujol foi recebida. No lugar dele assumiu o general Paulo Sérgio de Oliveira. Quem é Paulo Sérgio de Oliveira? O atual comandante do Exército, substituto de Pujol.
 
🪖Luiz Eduardo Ramos
O ministro que criticou a imprensa dizendo que jornalistas mostravam muito “caixão e corpo”, pedindo para que nos dedicássemos mais a publicar “coisa positiva”.
 
🪖Fernando Azevedo e Silva
Jair Bolsonaro em 21 de março 2020, em seu Instagram: “Agora há pouco me reuni com o senhor ministro da Defesa [na época, Fernando Azevedo e Silva] onde decidimos que o laboratório Químico e Farmacêutico do Exército deve imediatamente ampliar a sua produção deste medicamento".
 
Nas palavras do próprio presidente, a decisão pela produção amalucada do remédio mágico foi tomada, também, por Ramos.
 
O relatório de Renan confirma: “Essa foi uma decisão conjunta do Presidente Bolsonaro com o então Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.”
 
Qual o problema disso tudo? Um problema de ordem matemática, digamos. Observe o número de vezes que cada um desses personagens é citado no relatório da CPI (páginas):
 
Edson Leal Pujol: zero
Paulo Sérgio de Oliveira: zero.
Luiz Eduardo Ramos: uma.
Fernando Azevedo e Silva: uma.
 
E nenhum deles está na lista de indiciados.
 
Para efeito comparativo, personagens muito menos importantes aparecem em inúmeras citações, todos por propagar notícias e teses que induziram pessoas a contrair covid (como fez Eduardo Ramos, por exemplo). E nenhum deles era parte da gestão da pandemia. 
 
Deputado Carlos Jordy: 6 vezes
Deputada Carla Zambelli: 8 vezes
Jornalista Allan dos Santos: 14 vezes
 
Você pode ver tudo isso com mais detalhes em vídeo, aqui.
 
Os mais de seis mil militares que ocupam o governo são parte fundamental da máquina bolsonarista, de ministros a secretários. O Exército foi o executor-em-chefe da gestão da pandemia, e seria dele o mérito total caso o Brasil “vencesse a covid”. Um ministro general, um remédio produzido pelas Forças Armadas. Acontece que o Brasil foi destroçado pela covid. De quem é a responsabilidade maior? Para além de seus méritos, a CPI nos serviu uma pizza verde-amarela.

Bom apetite. 🤮
 

Leandro Demori
Editor-Executivo

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Bolsonaro e mais quantos?

 

Quinta-feira, 21 de outubro de 2021
Bolsonaro e mais quantos?

Não se constrói um país sozinho. O pouco que há de sólido no tecido social brasileiro foi erguido a duras penas com o esforço de muitos. Não foi resultado do trabalho desse ou daquele partido, de um ou dois presidentes. Numa sociedade tão violenta, tão racista, tão misógina, o que existe no campo dos direitos e da igualdade foi conquistado por muitas e muitos que vieram antes de nós. 

Vale o mesmo para a destruição de um país. O governo Bolsonaro não é obra de um homem só. Também não é apenas resultado da aliança de empresários com generais, algo tão antigo quanto a República. E não me refiro só aos sólidos 20% de apoio que o presidente detém, mas também aos setores organizados, mobilizados de maneira eficiente em torno do bolsonarismo. 

É muito importante identificarmos esses grupos, apontarmos qual a sua colaboração para a desgraça que vivemos e, não tenha dúvida, responsabilizá-los. Se não agora, em um futuro muito próximo. 

O Conselho Federal de Medicina é, sem dúvida, um ator essencial para a cruzada da extrema direita contra a vida hoje no Brasil, mas especialmente contra a vida das mulheres. Falo com a tranquilidade de quem há alguns anos cobre as ações do CFM e as políticas que se referem aos direitos sexuais e reprodutivos. 

É uma das razões que me prendem ao Intercept. Essa é uma cobertura que não costuma ter espaço em grandes veículos, afinal, quem quer bater de frente com uma classe conhecida por seu poder econômico e seu corporativismo? Mas é uma cobertura que me interessa muito e aqui no TIB sempre encontrei espaço para tocar as investigações nesse campo. 

Por essa razão publiquei muitas reportagens de 2018 para cá. Meu último texto, uma coluna, saiu sexta-feira. Nele, demonstrei os artifícios do CFM para dificultar o acesso à contracepção e barrar a luta pelo fim da violência obstétrica. Também conto como funciona o novo conselho: a autarquia que, em 2013, se manifestou favoravelmente à descriminalização do aborto até a 12ª semana, afirmando-se defensora da autonomia da mulher, há dois anos chegou ao ponto de aprovar procedimentos forçados em gestantes. 

Essa, digamos, "proximidade" com o que vem acontecendo no CFM nos permitiu enxergar primeiro o papel que o conselho desempenhou durante a pandemia. Dezenas de milhares de brasileiros foram feitos de cobaias de tratamentos ineficazes sob a benção do Conselho Bolsonarista de Medicina. Indicamos como tudo isso ocorreu em uma série de matérias publicadas ao longo deste ano. Depois, a CPI da Covid comprovou para o país todo o tamanho da responsabilidade da instituição na desastrosa política nacional de enfrentamento à pandemia.

Tudo isso é muito grave. Está bastante claro o perigo que o Conselho Federal de Medicina representa hoje. E é assustador perceber que, a despeito de tudo que está comprovado, a entidade ainda não é cobrada publicamente de maneira enfática. 

Aqui no TIB, como alertei no começo deste texto, estamos convencidos de que uma das nossas funções neste momento histórico é justamente documentar esse tipo de absurdo. Porque essas instituições e pessoas precisam ser responsabilizadas. É por isso que o CFM é um dos focos do meu trabalho. Tenho mais reportagens para tocar sobre esse tema e preciso de toda ajuda possível para conduzir as investigações. 

Ultimamente as reportagens que você recebe do Intercept são mais relacionadas à política e à pandemia, os assuntos, sem dúvida, mais urgentes do momento. Mas vasculhar as ações de uma entidade como o CFM é também uma frente importante que não quero deixar de cobrir. Por isso pedi aos meus colegas de redação para enviarem esta newsletter. 


Um abraço,

Bruna de Lara
Editora

sábado, 16 de outubro de 2021

As investigações que importam

 

Sábado, 16 de outubro de 2021
As investigações que importam


Policiais do Rio foram denunciados pela chacina do Jacarezinho. Ainda bem que o Ministério Público decidiu investigar quem puxou o gatilho.

Em maio, policiais civis do Rio de Janeiro entraram na favela do Jacarezinho e mataram 27 pessoas, na maior chacina do estado – um policial também morreu na operação. O governo fluminense insiste que todas as vítimas eram criminosos que morreram em conflito com a polícia, mas nós mostramos em vídeo que tinha algo errado nessa narrativa. As casas e vielas da favela pareciam cena de crime bárbaro. 

Nesta quinta-feira, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou dois policiais civis por homicídio doloso e fraude processual na operação. Os dois integram a Coordenadoria de Recursos Especiais, a Core, braço operacional da Polícia Civil, responsável pela ação no Jacarezinho.

Esse é um assunto caro para nós. Logo após a chacina, nosso editor-executivo, Leandro Demori, assinou um texto nesta mesma newsletter de sábado revelando, com base em fontes, que há um setor da Polícia Civil conhecido como “facção da Core”. Além do Jacarezinho, o grupo está envolvido no caso João Pedro (menino de 14 anos, morto durante uma operação), na chacina do Salgueiro (oito mortos) e no caso do helicóptero da Maré (oito mortos). 

A Polícia Civil decidiu abrir inquérito contra Demori. Ainda bem que o Ministério Público decidiu focar no que realmente interessa: investigar quem puxou o gatilho e não quem digitou num teclado.

Na época, recebemos uma forte onda de apoio. Muito obrigado a todos que se manifestaram contra esse absurdo.
 

***


Hoje publicamos uma história curiosa – e tensa. 

Fábio Souza Lima começou a trabalhar como cobrador de van aos 12 anos. Ele é negro, nascido no interior da Bahia, e foi criado numa favela do Rio de Janeiro. Duas décadas depois, vendeu sua startup à PagSeguro em um contrato milionário. 

Até aqui seria uma linda história de superação, daquelas que a grande imprensa adora – sobretudo nas editorias de economia e negócios, que sempre jogam confetes no universo startupeiro. Fábio tinha Steve Jobs pintado na parede do escritório. 

Mas o caldo entornou de um jeito que poucos veículos além do Intercept podem relevar.

Fábio foi preso em janeiro deste ano, dividindo uma cela superlotada de São Paulo, após dois anos de conflitos judiciais com a fintech bilionária do UOL, ligado ao Grupo Folha. 

"Minha vida se transformou num inferno", contou Fábio à repórter Julia Dolce.

A guerra entre Fábio e PagSeguro começou por desavenças contratuais que fizeram com que o empresário sonhador ficasse sem grana logo nos primeiros meses da relação com a fintech. Os milhões sumiram. 

A coisa escalou, e Fábio foi acusado de cometer coação no curso do processo, ou seja, "usar de violência ou grave ameaça com o fim de favorecer interesse próprio ou alheio" contra uma testemunha de um processo aberto contra ele a partir de uma comunicação da PagSeguro. Foi aí que o empresário acabou em cana.

sábado, 9 de outubro de 2021

A elite do atraso na vacina

 

Sábado, 9 de outubro de 2021
A elite do atraso na vacina


No Amapá, vice-lanterna da vacinação, os ricos jogam a favor da covid-19.

Era agosto. Boa parte do país celebrava o avanço da vacinação contra a covid-19, que chegava então aos menores de 18 anos. As mortes diárias pela doença diminuíam. Para a médica e representante do Conselho Federal de Medicina no Amapá, Maria Teresa Renó, porém, a vacinação das crianças e adolescentes não era algo a ser comemorado, mas combatido. 

Durante uma reunião com os outros conselheiros, em 20 de agosto passado, um dia antes do calendário de vacinação incluir os adolescentes de 17 anos em Macapá, a médica defendeu que o CFM tinha que divulgar um posicionamento contrário à obrigatoriedade da imunização, “principalmente frente ao início da vacinação de crianças”. Segundo a ata do encontro, que está disponível no site do CFM, para Renó “os pais devem ter o direito de escolher se querem vacinar seus filhos ou não”.

No Twitter, em janeiro, quando mais de 50 países já haviam começado sua vacinação, a médica havia dado “graças a Deus” que o tratamento precoce tinha funcionado para ela e para seus familiares. É uma boa notícia, mas provavelmente ela e a família teriam se curado sem grandes sequelas se tivessem tomado só aspirina – em 85% dos casos, a doença é assintomática. Mas, segundo a médica, ali, em janeiro, havia dúvidas sobre a eficácia de uma vacina  contra a covid-19. 

Renó, dona de uma clínica oftalmológica em Macapá, não é a única figura da elite amapaense a defender um tratamento sem efeito e ignorar evidências científicas – tentamos contato com a médica, que não nos retornou. Suas ideias são reforçadas desde o início da pandemia por gestores públicos, empresários e até representantes do poder Judiciário do estado.

Como mostramos na quinta, o prefeito da capital, Antonio Furlan, do Cidadania, usou profissionais do programa nacional de Estratégia de Saúde da Família para distribuir kits covid pela cidade, de porta em porta, ao menos até agosto, quando até a empresa que produz ivermectina já havia dito que a medicação não serve para combater a covid-19. Os enfermeiros que se recusaram a fazer as entregas foram demitidos. 

Antes disso, em maio de 2020, foi a vez da então desembargadora do Tribunal de Justiça do Amapá Sueli Pini colar cartas pelas ruas de Macapá defendendo o fim do isolamento social, como também mostramos no Intercept. Em uma entrevista recente a uma rádio local, a agora juíza aposentada disse que não se vacinou e nem permitiu que seus familiares o fizessem. Também defendeu que máscaras não têm “nenhuma comprovação da eficiência” para barrar o contágio pelo vírus.

O boicote da elite de Macapá no combate à covid-19 teve efeito – negativo, é claro. O estado está quase na lanterna da corrida da vacinação no Brasil – perde apenas para Roraima. Isso não acontece por falta de vacinas, mas pela baixa adesão da população. Em fevereiro, quando os idosos eram prioridade, nem 50% das doses disponíveis foram aplicadas no tempo esperado. Em março, Macapá era a cidade do Amapá que mais havia recebido doses, mas ocupava a sexta posição no ranking estadual de vacinação. 

Atualmente, apenas 54,2% da população do Amapá recebeu a primeira dose ou uma vacina de dose única, e menos gente ainda (24,3%) completou o esquema vacinal. A média nacional é de 71,7% da população com a primeira dose e 45,2% completamente vacinados.

Para gente como a médica, o prefeito e a desembargadora aposentada, os riscos do negacionismo são bem menores. Sem renda e sem o privilégio do home office, foram os pobres que mais morreram de covid-19, como mostram dados da Pnad Covid-19, elaborada pela FGV Social. Com dinheiro no bolso, é fácil jogar a favor do vírus.

Paula Bianchi
Editora