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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Elon Musk quer fincar satélites nos céus brasileiros

 

Elon Musk, o visionário em quem todos acreditam, cria seu próprio capitalismo
Elon Musk, o visionário em quem todos acreditam, cria seu próprio capitalismo
Extravagâncias do homem mais rico do mundo não impedem a aposta do mercado na capacidade da Tesla de revolucionar a mobilidade
Dono da SpaceX busca fincar satélites nos céus brasileiros, um mercado pouco regulado
Multibilionário quer oferecer serviço de internet via satélites de baixa órbita para comunidades carentes. Ex-chefe da Anatel prega “cautela”
Dono da SpaceX busca fincar satélites nos céus brasileiros, um mercado pouco regulado

EL PAÍS






O multibilionário Elon Musk quer fincar raízes no Brasil —ou melhor, nos céus do país. O empresário, responsável pela marca de carros elétricos Tesla e pela empresa de aviação espacial SpaceX, planeja expandir por aqui seus satélites de baixa órbita (até 2.000 km da Terra), conhecidos como rede Starlink. O ministro das Comunicações, Fábio Faria, se reuniu com o empresário nos Estados Unidos para discutir a proposta de usar os satélites de Musk para levar internet sem fio a locais onde a fibra óptica e a telefonia móvel têm dificuldade de acessar. A expectativa é que a rede comece a operar no Brasil em 2022, informa Gil Alessi. Redes como essa são muitas vezes a única chance de acesso à internet em regiões remotas, mas essas “constelações” preocupam pela falta de regulação e por ameaçar as observações astronômicas.

A polêmica marca as empreitadas desse visionário com pinta de supervilão que inventou um novo tipo de capitalismo, “em que o valor das ações é determinado pelos lucros, mas também pelas fantasias”, nas palavras da historiadora Jill Lepore. O repórter Iker Seisdedos traça um perfil de Musk, o homem mais rico do planeta (com um patrimônio avaliado em 282,1 bilhões de dólares segundo dados da Bloomberg na quinta-feira passada) e mais bem posicionado nessa corrida rumo à terra de oportunidades.

Os olhos do mundo se voltam para o Brasil não só na tecnologia, mas também na política, e a polarização às vésperas do ano eleitoral atrai a ambição de todas as frentes. Do lado da esquerda, a presença do ex-presidente Lula em uma manifestação em Buenos Aires para comemorar a volta à democracia na Argentina e o segundo aniversário da gestão de Alberto Fernández tensionou as relações do país vizinho com o Governo de Jair Bolsonaro, possível rival do petista no pleito de 2022. O mal-estar é apontado como motivo de o Itamaraty ter suspendido o caráter presencial do encontro do Mercosul, na próxima sexta, escrevem Federico Rivas Molina e Afonso Benites. Lula apareceu ao lado de Fernández e sua vice, Cristina Kirchner, na tentativa do mandatário argentino de se cercar da velha esquerda sul-americana, explica Mar Cenenera. Já do lado da direita, quem sorriu para fotos em evento promovido pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, foi o espanhol Santiago Abascal. O líder do partido ultraconservador Vox veio ao Brasil na sexta, em uma agenda que escancara sua disputa com Pablo Casado, do Partido Popular hispânico, para ser referência da direita europeia na América Latina. O terreno da região voltou a se mostrar fértil para populistas, contam Elsa García de Blas e Miguel González.

Deve começar a valer nesta segunda a exigência do comprovante de vacinação contra a covid-19 para todos os viajantes que vierem ao Brasil do exterior. A previsão é que medida, ordenada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luis Roberto Barroso no sábado, entre em vigor mesmo antes de o plenário analisar a determinação em um julgamento virtual previsto para esta semana. A decisão contraria a posição o Governo Bolsonaro, que havia definido apenas uma quarentena de cinco dias para os passageiros. Segundo informa Diogo Magri, Barroso apontou "risco iminente" de o Brasil se tornar um destino antivacina. Também no sábado, o Estado de São Paulo confirmou seu quarto caso da nova variante ômicron, o primeiro de um paciente que não viajou para fora do Brasil. As autoridades sanitárias ainda investigam a origem do contágio, relata Elida Oliveira.

Na pandemia, o vazio aberto pelo confinamento aumentou a procura pelos pets. No país de 212 milhões de brasileiros, havia 144,3 milhões de animais de estimação em 2020, segundo o Instituto Pet Brasil (IPB), 4 milhões a mais do que em 2019. O aumento anual na pandemia é seis vezes maior do que o ocorrido entre 2018 e 2019. São bichanos que se tornam integrantes da família e alimentam uma indústria de produtos e serviços que deve faturar 49,9 bilhões de reais neste ano. A Petz, uma das maiores lojas do setor, aumentou sua rede em 40% neste ano (são 153 lojas, ao todo) e virou sensação na Bolsa de Valores. “Mudaram minha vida, porque estão do meu lado mesmo se o mundo está caindo”, comenta Fabiana Pazotto, de 30 anos, profissional de recursos humanos e tutora de Nala, uma cadela vira-lata, e Moana, um pastor alemão.



domingo, 12 de dezembro de 2021

Brasil esquece promessas da COP26 e abre a porteira ao garimpo na Amazônia

 

Brasil esquece promessas da COP26 e abre a porteira ao garimpo na Amazônia
General Heleno autoriza exploração na região mais protegida da floresta. “O Governo levou um Brasil que não existe à COP26”, critica Greenpeace
Brasil esquece promessas da COP26 e abre a porteira ao garimpo na Amazônia

EL PAÍS






“Inaceitáveis”, definiu o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, ao comentar os dados sobre o aumento do desmatamento na Amazônia, o maior em 15 anos. Na esteira da COP26, a entrevista coletiva concedida por Leite ao lado do chanceler Carlos França na última semana de novembro, para responder sobre o aumento de 22% na área desmatada, marcou uma mudança no discurso ambiental do Governo Bolsonaro —de onde nunca tinha saído um único lamento sobre o assunto. Semanas depois de se dizerem “surpreendidos” pelos dados, no entanto, os condutores do Governo seguem agindo da mesma forma como nos últimos três anos. Neste momento, uma ação coordenada entre o Palácio do Planalto, a bancada ruralista no Congresso Nacional e mineradores faz quatro projetos de lei correrem a toda velocidade para alterar normas de proteção ambiental no país, conta Afonso Benites. Além disso, o braço militar da Gestão, refletido na figura do ministro do Gabinete de Segurança Institucional, o general Augusto Heleno, autorizou o início de projetos de exploração de ouro em sete áreas na região florestal mais protegida da Amazônia.

Mais ao sul do país, os quatro réus no caso do incêndio da boate Kiss foram condenados pelo tribunal do júri, por homicídio com dolo eventual, a penas que somam 78 anos de prisão. Seriam conduzidos à prisão logo após a leitura da sentença, mas um habeas corpus preventivo concedido a um dos acusados evitou que fossem imediatamente encarcerados. Ao final dos 10 dias de julgamento, o juiz Orlando Faccini Neto enfatizou a necessidade de penas para sinalizar que a sequência de erros que levou à tragédia não deve se repetir. “Esta vitória não é nossa, é da população. Que sirva de lição a alguns empresários, para que tomem tento e saibam que, se falharem, poderão ser punidos. Que sirva de exemplo para que esta tragédia da Kiss nunca mais se repita”, disse Flávio da Silva, um dos líderes da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, após o anúncio do veredito, relata Marcelo Soares.

Do mundo arqueológico, vem a notícia de uma crucificação. Ninguém sabe qual era o seu nome, por isso os arqueólogos o tratam pela fria denominação de Esqueleto 4926, um dos 48 corpos (sendo 5 de crianças) achados em novembro de 2017 durante a escavação de um terreno na localidade de Fenstanton, no condado de Cambridgeshire (Inglaterra), para a construção de um condomínio residencial. Agora, a revista British Archaeology revelou que essa pessoa foi crucificada há 1.900 anos e que inclusive conserva o prego que atravessou seu calcanhar direito, o que faz dessa, segundo os arqueólogos, “a melhor evidência física de uma crucificação no mundo romano”, escreve Vicente G. Olaya. Trata-se, além disso, de um dos escassos torturados que conservam a presilha metálica pontiaguda que atravessou seu pé, porque estas peças de ferro eram retiradas após a cruel morte do condenado, por se considerar que possuíam propriedades mágicas ou curativas.

Na pauta cultural, o avanço dos animes. Há um mês, a Netflix apresentou ao mundo sua adaptação do anime cult Cowboy Bebop, um western espacial com nuances jazzísticos exibido pela primeira vez em 1998. Está longe de ser um lançamento pontual: dias antes, a plataforma já havia apresentado o elenco para a adaptação de One Piece, um dos animes mais bem-sucedidos e antigos —no ar desde 1999. Embora as séries de animação japonesas sempre tenham estado por aí, inclusive mesmo antes de Os cavaleiros do zodíaco (1986), a aposta em levar às grandes audiências conteúdos relacionados aos animes se intensificou desde o confinamento pela pandemia, explica Raúl González. Em 2020, segundo dados da Netflix, mais de 120 milhões de lares viram algum conteúdo de anime nesta plataforma. No mesmo ano, a empresa se associou a quatro das mais importantes produtoras de animação —MAPPA, ANIMA & COMPANY, Science SARU e Studio Mir— para explorar novas histórias e formatos de entretenimento.



sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Morar em 27 metros quadrados, tendência na maior cidade da América Latina

 

Morar em 27 metros quadrados, a tendência que cabe na realidade de São Paulo
Número de unidades pequenas vendidas na cidade triplicou entre 2017 e 2021. Urbanista diz que esse tipo de empreendimento não atende as principais necessidades habitacionais da capital paulista
Morar em 27 metros quadrados, a tendência que cabe na realidade de São Paulo

EL PAÍS






Pedro Lemes, de 27 anos, enxerga de uma vez só sua cozinha, sala e quarto ao abrir a porta de seu apartamento. À esquerda há uma pia com uma despensa embaixo, ao lado de um frigobar com um forno elétrico em cima. À direita, uma cadeira, um sofá de dois lugares, uma cômoda de cinco gavetas e uma arara de roupas. À frente da porta fica a cama e, em seguida, uma modesta varanda. Um banheiro, o único cômodo separado do restante, completa os 27 metros quadrados do imóvel onde ele vive, uma das unidades do prédio Bk30, inaugurado no final de 2018 no Largo do Arouche, região central de São Paulo, descreve Diogo Magri. Das 153 unidades do edifício recém-construído, 141 medem até 51 metros quadrados —outras 12 são duplex, que chegam a 140 metros quadrados. As metragens tornam o Bk30 parte de uma tendência que explodiu na maior cidade da América Latina nos últimos anos: a dos apartamentos pequenos

Apesar dos receios sobre a variante ômicron do coronavírus, o Rio de Janeiro terá seus fogos no Réveillon de Copacabana. Não haverá shows de música, e tudo pode mudar daqui a uma semana, alerta o prefeito Eduardo Paes. “O que vamos fazer é uma versão mais simples do Réveillon, com fogos de artifícios vistos de diferentes partes da cidade, para evitar deslocamentos e aglomerações em Copacabana”, afirmou Paes em uma entrevista coletiva. A confirmação chega após nove dias de vaivém do conflito de decisões sobre a realização do Ano Novo, travado entre a Prefeitura e o Governo do Estado. Os fogos de artifício iluminarão o céu de Copacabana por 16 minutos, e a praia contará com 25 torres de som com música. O acesso ao bairro será bloqueado a partir das 19h do dia 31 dezembro e não haverá esquema especial de transporte público, evidenciando que o Rio voltará a celebrar, mas não sem receio, conta Joana Oliveira.

Na Europa, a precarização do emprego nas plataformas digitais levou Bruxelas a tentar regulamentar esse setor. A Comissão Europeia aprovou nesta quinta-feira uma medida que estabelece condições trabalhistas mínimas em todo o bloco, começando pelo mais polêmico e o que mais disputas tem provocado nos tribunais: trabalhadores a serviço de empresas aplicativos são assalariados ou autônomos? São assalariados, diz a nova norma, se houver algum tipo de controle por parte da empresa. Isto pode levar à regularização de 4,1 milhões de falsos autônomos, segundo o Poder Executivo da UE, relata Manuel V. Gómez. A nova norma segue o rastro de uma nova lei na Espanha para os entregadores aprovada neste ano. Ambas partem da chamada presunção de vínculo trabalhista e não se restringem apenas ao setor das plataformas digitais de entregas, pois seu objetivo é alcançar todos os setores.

Por fim, como superar a síndrome do burnout? Essa sensação de esgotamento profundo relacionada ao trabalho afeta um número enorme de pessoas. Seus principais sintomas são isolamento, baixa autoestima e dúvidas sobre capacidades profissionais, explica Pilar Gericó. E o burnout não é um problema só de quem o sofre, mas sim da organização e da sociedade em seu conjunto. Segundo Jennifer Moss, autora do livro The burnout epidemic (”A epidemia do burnout”, livro ainda sem tradução para o Brasil), esta síndrome resulta na perda de quase 100 bilhões de dólares em produtividade mundial por ano, num gasto de 190 bilhões em atendimento médico e na morte de 120.000 pessoas por ano só nos Estados Unidos por causa do esgotamento.



quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Ômicron não deve levar o Brasil de volta ao “pesadelo” pandêmico

 

Variante ômicron não deve levar o Brasil de volta ao “pesadelo” pandêmico
Cobertura vacinal e cenário epidemiológico “favorável” indicam boas perspectivas, dizem especialistas, que sugerem cautela e alertam: o país deve acelerar a aplicação da terceira dose de vacinas para evitar problemas
Variante ômicron não deve levar o Brasil de volta ao “pesadelo” pandêmico

EL PAÍS






À medida que se tornam públicos os resultados dos primeiros estudos sobre a variante ômicron do coronavírus, o medo do pior vai passando. As notícias sobre a eficiência dos imunizantes disponíveis contra a nova ameaça elevam o otimismo, especialmente no Brasil, onde 80% da população adulta está vacinada com duas doses contra a covid-19, explica a repórter Joana Oliveira. Primeiramente identificada na África do Sul, onde menos de 40% dos adultos foram vacinados contra a doença, a ômicron fez os casos de infecção saltarem de 1% para 16% em novembro, mas os cientistas locais relataram casos leves, com poucos sintomas e de curta duração. “É improvável que o pesadelo que vivemos no início de 2021 se repita. Tudo indica que a ômicron causa menos casos graves do que a delta”, afirma Fabio Leal, infectologista e pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (INCA), referindo-se à variante que é predominante no Brasil.

Um estudo preliminar das empresas Pfizer e BioNTech divulgado nesta quarta-feira reforçam esse otimismo. De acordo com a pesquisa, uma terceira dose de reforço de sua vacina contra a covid-19 aumenta em até 25 vezes os anticorpos neutralizantes e é eficaz contra a ômicron —embora as duas empresas tenham anunciado que estão desenvolvendo uma vacina específica contra a nova variante. O problema, entretanto, é enfrentar o negacionismo de uma parte da população mundial. A repórter Isabel Valdés conversou na Espanha com algumas dessas pessoas, que rejeitaram o imunizante e, depois, se arrependeram —muitas vezes após alguma consequência grave. Os não vacinados representam hoje, no país, os principais casos de internação em UTIs por covid-19.

Os deputados alemães elegeram nesta quarta-feira o social-democrata Olaf Scholz para o cargo de chanceler (primeiro-ministro), à frente de uma coalizão que reúne também os verdes e os liberais. Scholz obteve 395 votos favoráveis, superando amplamente os 369 necessários para se tornar o sucessor de Angela Merkel à frente da maior economia europeia. Ele comandará uma inédita coalizão tripartite, que estreia em meio ao maior desafio que o país enfrenta desde o final da II Guerra Mundial, nas palavras de Merkel. Scholz conseguiu em poucos meses reverter uma campanha eleitoral que ameaçava arrastar ele e seu partido à irrelevância. Poucos apostavam no político discreto, com pouco carisma e tom de voz próximo ao sussurro. Os alemães foram convencidos por sua promessa de continuidade do legado de Merkel e sua fama de gestor eficaz e profissional, escreve Elena G. Sevillano.

Quando o mundo despertou do horror do nazismo e compreendeu a dimensão do Holocausto, o assassinato organizado de seis milhões de seres humanos, uma pergunta se tornou inevitável: como é possível que centenas de milhares de pessoas, cidadãos exemplares em muitos casos, participassem de um crime tão descomunal? Mas, junto a essa pergunta, surgiu uma questão talvez mais importante para conseguir compreender a responsabilidade individual perante crimes de massa: a possibilidade de dizer não, negar-se a participar, arriscar a vida ou a carreira, o prestígio social, para ajudar as vítimas contra a atuação da maioria. De todas as histórias de pessoas que ajudaram judeus durante o Holocausto, está a do policial de fronteiras suíço Paul Grüninger (1891-1972). No momento em que os países fecharam suas portas aos refugiados judeus quando estes ainda podiam sair, Grüninger, que atuava no nordeste da Suíça, negou-se a acatar a ordem de fechar a fronteira aos refugiados judeus que chegavam da Áustria, anexada em março de 1938 pelo regime nazista, e deixou passar todos os que pôde. Depois de ser descoberto, em 1939, foi expulso da polícia e proibido de voltar a trabalhar para a administração pública, relata Guillermo Altares.




quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

O Brasil vai virar uma grande fazenda”: o país vive uma acelerada desindustrialização

 

“Vamos virar uma grande fazenda”: Brasil vive acelerada desindustrialização
A pandemia acelerou ainda mais esse processo, enquanto o Governo federal privilegia o setor agrícola para exportar alimento, minério e energia. De 2013 a 2019, país perdeu 28.700 indústrias e 1,4 milhão de empregos no setor
“Vamos virar uma grande fazenda”: Brasil vive acelerada desindustrialização

EL PAÍS






A pandemia acelerou a desindustrialização no Brasil, no mesmo momento em que o Governo Jair Bolsonaro privilegia o setor agrícola para exportação de alimento, minério e energia, conta repórter Regiane Oliveira. De 2013 a 2019, o país perdeu 28.700 indústrias e 1,4 milhão de postos de trabalho no setor. Diego Machado Ferreira, de 34 anos, é um dos afetados por esse processo. “Sou o terceirizado, do terceirizado, do terceirizado do Mercado Livre”, explica ele sobre sua situação trabalhista. Demitido da Ford em 2019, o ex-metalúrgico tem uma rotina semelhante à do personagem principal do filme Você não estava aqui, de Ken Loach. Sai às 6h da manhã para encarar a fila de entrega do galpão localizado no Parque São Lourenço, extremo Leste da capital paulista. Quanto mais pacote consegue despachar, mais recebe, o que significa comprometer o almoço e, com frequência, contar com uma ajudante para acelerar as entregas. A diferença entre ficção e realidade é que, ao contrário do personagem do filme, Ferreira não comprou a ideia de que ele é seu próprio patrão por ter aberto uma microempresa. “Não me sinto empreendedor”, afirma.

A chamada de vídeo mais tensa dos quase 11 meses de Joe Biden na Casa Branca terminou com um aviso ao presidente russo, Vladimir Putin: os Estados Unidos preparam com seus aliados europeus “fortes sanções econômicas” para o caso de a Rússia aumentar a pressão sobre a Ucrânia. O encontro começou nesta terça-feira depois das 10h, no horário de Washington (12 horas em Brasília), em um ambiente cordial, com Putin do outro lado da linha, na ponta de uma longa mesa de madeira em sua residência em Sochi, a cidade de veraneio na costa do Mar Negro. No fundo, tensões, em tom cada vez mais acirrado, entre Moscou e Washington por causa da crise na fronteira com a Ucrânia. Washington tem informações de que Putin prepara uma operação militar com 175.000 soldados para o início de 2022, o que o líder russo nega. A Rússia, por sua vez, exige garantias de que a Ucrânia não entrará na OTAN e não lançará uma ofensiva para recuperar o território perdido em 2014 em seu confronto na região de Donbass com os separatistas pró-russos. A reunião durou pouco mais de duas horas, escrevem os correspondes Iker Seisdedos, Javier G. Cuesta e Bernardo de Miguel.

Também nesta edição, os detalhes sobre a aprovação no Parlamento chileno do casamento igualitário, uma das demandas históricas dos grupos de luta pela diversidade sexual, que travaram uma longa batalha legislativa para chegar a esta data marcante, conta a correspondente Rocío Montes. O projeto, que está prestes a se tornar lei, concede aos casais do mesmo sexo os mesmos deveres e direitos que os casamentos heterossexuais têm sob a lei chilena. Em sua última tramitação legislativa, a iniciativa foi aprovada no Senado e, em sua última revisão na Câmara dos Deputados, apoiada por 82 parlamentares, com 20 votos contra e duas abstenções. “Estou muito emocionada. É uma luta árdua de muitos anos”, desabafa ao EL PAÍS a juíza Karen Atala, diretora da Fundación Iguales, que trabalha pelos direitos das pessoas LGBTQIA+.

Por fim, histórias de amor no manicômio. Eles posaram para a fotógrafa sorridentes. Alguns juntavam suas cabeças, outros davam as mãos ou se enlaçavam pela cintura, passavam um braço sobre o ombro do outro... Entretanto, em seus rostos, em seus olhos, notam-se os rastros da doença, dos tratamentos medicamentosos, dos eletrochoques… No começo da década de 1990, as chilenas Paz Errázuriz, fotógrafa, e Diamela Eltit, escritora, trabalharam juntas em um projeto: narrar, com imagens em preto e branco e em textos poéticos, como eram os casais de homens e mulheres que viviam e se amavam na instituição psiquiátrica Philippe Pinel, na cidade de Putaendo, no centro do Chile, a 200 quilômetros de Santiago. O resultado foi o livro El infarto del alma (O infarto da alma), publicado no Chile em 1994 e no Brasil pelo Instituto Moreira Salles, escreve Manuel Morales.



terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Na plateia de Sergio Moro em Recife, bolsonaristas arrependidos

 

Câmeras no uniforme para travar o gatilho fácil da polícia brasileira
Ação policial recente deixou nove mortos em São Gonçalo (RJ). Mais de 6.400 brasileiros morreram em 2020 nas mãos de agentes, o triplo de 2013
Câmeras no uniforme para travar o gatilho fácil da polícia brasileira

EL PAÍS






A fila em frente à bilheteria do teatro instalado dentro de um shopping em Recife aumentava no fim de tarde de sábado à medida em que o sol se escondia do outro lado de uma área de manguezal, próxima ao centro antigo da cidade. O ex-juiz Sérgio Moro foi recepcionado por uma plateia fervorosamente devota à figura do magistrado que fez fama e carreira política ao desvendar um esquema de corrupção que deu origem à operação Lava Jato, conta Flavio Freire. Antes de ser anunciado, Moro observou o clima por entre as cortinas pretas. Iria apresentar sua biografia, e também sondar o terreno de um de seus principais rivais na corrida presidencial: o Nordeste. Moro foi aplaudido de pé por cerca de cinco minutos assim que apareceu de blazer e sem gravata. Enquanto citava trechos do livro, Moro parecia cada vez mais à vontade diante de cerca de 700 pessoas declaradamente seus eleitores. O EL PAÍS conversou com dezenas deles, todos, sem exceção, revelaram a condição de ‘bolsonarista arrependidos’. Moro ensaia agora o contato com o povo na rua “o quanto antes”, como contou o senador Eduardo Girão (Podemos-CE), no papel de anfitrião de Moro em Recife.

Nesta edição, a correspondente Naiara Galarraga Gortázar conta como o Brasil, seguindo na esteira dos Estados Unidos e de outros países, começa a colocar câmeras nos uniformes de seus agentes policiais na tentativa de reduzir a letalidade. É fresca na memória a operação policial em uma favela da região metropolitana do Rio de Janeiro em novembro, os corpos de nove moradores  encontrados em uma área de mangue de São Gonçalo após um tiroteio com traficantes de drogas. Mas o gotejar de mortes por disparos de agentes, em serviço ou de folga, é tão cotidiano que costuma passar despercebido. No calor do discurso de linha dura, o número de vítimas aumentou até o recorde atual (6.400 mortos em 2020, são 17 por dia, na maioria jovens negros).  Os primeiros resultados da Polícia Militar do Estado de São Paulo indicam redução significativa de vítimas.

E o mundo continua acompanhando os passos da variante ômicron do coronavírus. É “uma espécie de Frankenstein”, nas palavras da virologista Inmaculada Casas. Apresenta mais de meia centena de mutações, 36 delas concentradas na espícula, a proteína que usa como chave-mestra para invadir as células humanas. Os anticorpos —as defesas humanas geradas por uma vacina ou por uma infecção prévia— sabem reconhecer a espícula do coronavírus original de Wuhan e anulá-la. O grande temor é que as inúmeras mutações na espícula da ômicron despiste esses anticorpos, diminuindo a eficácia das vacinas. Um estudo preliminar da Universidade de Stellenbosch (África do Sul) sugere que, em comparação a variantes anteriores, como a delta (hoje dominante no planeta), a ômicron tem o triplo de capacidade de reinfectar pessoas que já tiveram covid-19, explicam os repórteres Manuel Ansede, Mariano Zafra e José A. Álvarez.

Na Colômbia, uma onda de indignação não para de crescer no futebol desde sábado, quando, no último suspiro de uma partida decisiva da segunda divisão, os zagueiros do Llaneros ficaram plantados em campo enquanto o Unión Magdalena marcava aos 45 minutos do segundo tempo o gol com o qual selou uma suspeita reviravolta que valia a subida para a primeira divisão. A Associação Colombiana de Futebolistas Profissionais pediu uma investigação, jogadores da seleção nacional demonstraram indignação e até o presidente Iván Duque considerou o fato “uma vergonha nacional”, relata Santiago Torrado.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Três vidas em perigo por lutar por justiça

 

Especial | Três vidas em perigo
No Brasil da impunidade, uma juíza, um ativista e um jornalista são jurados de morte. Esta é a história deles, que vivem como reféns
Especial | Três vidas em perigo

EL PAÍS






A morte da juíza Joana Sarmento de Matos, da Vara de Execuções Penais de Boa Vista, em Roraima, foi decretada pelo Primeiro Comando da Capital de dentro da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo. A ordem foi encontrada rabiscada na tampa de um marmitex apreendido durante uma revista nas celas. O agricultor Cosme Capistano da Silva é o próximo de uma lista de alvos que circula nas mãos de pistoleiros da região de Boca do Acre, no Amazonas, onde se mata ou morre por alguns hectares —os dois nomes anteriores da lista já foram assassinados. Já para o jornalista Vinicius Rosa Lourenço, de Magé, na Baixada Fluminense, o ataque veio sem aviso ou ameaça prévia, na forma de um atentado a tiros.

Apesar de estarem sob risco constante, eles insistem em continuar lutando em um país no qual a diferença entre a vida e a morte pode estar em uma sentença, manchete de jornal ou na luta pela terra. Nesta reportagem especial, assinada por Gil Alessi, o EL PAÍS conta a história destas três pessoas que pagam um alto preço por cobrarem justiça. A reportagem é acompanhada ainda de um podcast, o novo capítulo do canal O Brasil por EL PAÍS, que te convidamos para escutar

O jornalista Marcelo Soares estava em Porto Alegre quando em 27 de janeiro de 2013 a boate Kiss pegou fogo, em Santa Maria, a 290 quilômetros da capital gaúcha. Ele trabalhava para a Folha de S.Paulo, e foi um dos primeiros repórteres de um veículo nacional a chegar ao local, onde passou uma semana contando sobre o drama vivido por vítimas e familiares. Agora, quase nove anos depois do crime que deixou 242 mortos, a maioria jovens, e 636 feridos, ele volta à tragédia para contar sobre o julgamento que, finalmente, pode responsabilizar os culpados pelo incêndio. Com um ensaio do fotógrafo Marcio Pimenta, ele conta como os familiares revivem o trauma e enfrentaram o luto nos últimos anos.

Na única entrevista dada a um veículo estrangeiro desde que foi eleita para ocupar uma das cadeiras da ABL, a atriz Fernanda Montenegro fala ao EL PAÍS sobre sonhos, a distância dos palcos sobre a pandemia, planos para o retorno e a finitude da vida. “Sentirei saudade. Gostaria de levar comigo a minha memória, emociona-se a atriz de 92 anos ao repórter Vagner Fernandes. "Tudo já é meio uma despedida para mim. Uma hora acaba. Não tem jeito.”



sábado, 4 de dezembro de 2021

"Os algoritmos começam a falhar quanto mais complexa é a pessoa”

 

América Latina, entre certificados de vacina e a recusa das restrições pela ômicron
Alguns países da região apostam em ações que incentivem a população a se imunizar enquanto os presidentes do México e do Brasil querem evitar medidas que, segundo argumentam, restringem a liberdade


EL PAÍS






A ameaça da ômicron já é uma realidade na América. Na semana em que foi confirmada a presença da nova e preocupante variante do coronavírus na região (já há casos comprovados em Brasil, Canadá e Estados Unidos), ao mesmo tempo que países europeus consideram impor a obrigatoriedade da vacina e o Governo de Joe Biden aposta em multiplicar os esforços de imunização, a América Latina analisa a melhor forma de continuar combatendo o vírus. Alguns países latino-americanos apostam em medidas que estimulem a população a se imunizar, como passaportes vacinais e passes de mobilidade necessários para o acesso a determinados locais fechados ou eventos em massa. Outros, como o México, continuam descartando a possibilidade de medidas drásticas, como restrições a viagens ou toques de recolher, e há o Brasil, em que Estados e órgãos oficiais tentam pôr ordem nas medidas, diante da abordagem negligente de Jair Bolsonaro. Os jornalistas Elías Camhaji, Inés Santaeulalia, Felipe Betim e Federico Rivas Molina explicam como a região está reagindo à nova variante. A boa notícia, vinda de cientistas da África do Sul, é que as vacinas atuais conseguem evitar os casos mais graves da variante ômicron do coronavírus, relata Carla Fibla.

No cenário mais improvável, um tesouro. Entre sacolas plásticas, caixas de papelão e lixo revirado, o menino abre a boca em um sorriso que também é um grito de surpresa e segura entre as mãos um objeto que, aos seus olhos, é quase precioso, apesar de não passar de uma árvore de Natal de 30 centímetros, retorcida, com luzes quebradas e enfeites faltantes. Gabriel, maranhense de 12 anos, não sabia, mas aquele instante de alegria fugaz no lixão em Pinheiro (MA), capturado pelo fotógrafo João Paulo Guimarães, passaria a ser o retrato triste do Brasil em que 20 milhões de pessoas passam fome, de acordo com a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), e, como ele, recorrem ao lixo para sobreviver. Sua foto é também a mais recente de uma sequência de imagens que compõem o álbum do Brasil degradado, famélico, cada vez mais desigual, onde além dos 20 milhões que já passam fome hoje, 24,5 milhões não sabem se vão comer amanhã, escreve Joana Oliveira.

A vulcanologia ainda está engatinhando no campo das previsões e está em pleno processo de dar um salto adiante no mundo inteiro. Um avanço necessário, já que mais de 800 milhões de pessoas vivem perto de vulcões ativos, escreve Javier Salas. Um artigo de opinião publicado na última edição da revista Science se pergunta se é possível se antecipar a esses desastres, tendo o vulcão de Cumbre Vieja como protagonista. Mas a erupção do vulcão das Canárias é um ponto de inflexão: em certo sentido, a ciência se antecipou. Aconselhadas pelos especialistas, as autoridades já haviam começado a evacuar as pessoas com mobilidade reduzida na manhã do domingo, 19 de setembro, horas antes de um dique de magma romper a crosta do vulcão Cumbre Vieja. Nos municípios de La Palma (Espanha), que agora são conhecidos porque a lava os destruiu, havia dias em que as autoridades recebiam palestras informativas sobre vulcões e planos de emergência. Aconteceu mais ou menos o que se esperava e mais ou menos onde se esperava, embora a maioria dos especialistas reconheça que, quando os terremotos começaram, eles pensaram que a lava demoraria muito mais tempo para surgir. No início de 2021, ninguém podia prever essa erupção para outubro. E agora, em dezembro, ainda não se sabe quanto ela durará.

A espanhola Inma Martínez, de 57 anos, é uma das visionárias mais reconhecidas em inteligência artificial e transformação digital do mundo. “Eu não tenho Alexa. E eu desligo o microfone dos meus celulares e de tudo mais ao redor, às vezes por um dia e meio, para dificultar as coisas para eles [os algoritmos]”, explica em entrevista a Manuel Jabois. Quando jovem, descobriu que a Bolsa de Valores de São Paulo era influenciada pelos jogos de futebol. "Descobri, investigando, que os corretores, se seu time de futebol tivesse vencido na véspera, chegavam eufóricos e vendiam tudo, e à tarde compravam novamente. Tudo estava relacionado ao futebol”, conta ela, que é tida por várias publicações, como a revista Time, como um talento europeu para o engajamento social por meio da tecnologia. Mas ela pondera que nem tudo é rastreável, como o amor: “Cada pessoa entende o amor à sua maneira. É impossível homogeneizar”. E completa: “O amor é química. Esses algoritmos começam a falhar quanto mais abstrata, mais complicada e complexa a pessoa é”.