segunda-feira, 31 de agosto de 2020

O Brasil se aproxima das 121 mil mortes registradas por Covid-19

O Brasil se aproxima das 121 mil mortes registradas por Covid-19. Nas últimas 24 horas, 398 mortes foram confirmadas, chegando ao total de 120.896 óbitos. Com isso, a média móvel de novas mortes no Brasil nos últimos 7 dias foi de 875 óbitos, uma variação de -10% em relação aos dados registrados em 14 dias. Em casos confirmados, já são 3.862.116 brasileiros com o novo coronavírus desde o começo da pandemia, 15.151 desses confirmados no último dia. A média móvel de casos foi de 36.627 por dia, uma variação de -16% em relação aos casos registrados em 14 dias.

Praias do Rio de Janeiro e São Paulo ficaram lotadas neste fim de semana. Fotos.

O mundo ultrapassou neste domingo a marca de 25 milhões de infectados pelo novo coronavírus, segundo dados da Universidade Johns Hopkins. Por volta das 4h, um total de 25.009.250 milhões de pessoas haviam sido diagnosticadas com a doença.

Prestes a completar 100 anos no próximo dia 7, a Universidade Federal do Rio de Janeiro apresentou uma plataforma inédita e totalmente nacional de desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus. Ela combina a forma mais antiga e reconhecidamente eficiente de imunização, a realizada por meio de vírus vivos atenuados, a mecanismos de segurança gerados por engenharia genética, por Crispr/Cas. Esse é o nome do método de edição de genes que tem revolucionado a biologia e já foi usado em terapias experimentais com seres humanos.

E mais um caso de contágio de duas cepas do novo coronavírus por um mesmo indivíduo foi registrado, dessa vez em Reno, no estado de Nevada. Os dados foram publicados na forma de pré-print (ainda sem revisão por pares) e submetidos para publicação na revista científica The Lancet na última quinta-feira. Na primeira vez, o paciente, um homem de 25 anos, apresentou sintomas gripais —dor de garganta, tosse, dor de cabeça. O paciente voltou a apresentar sintomas no dia 31 de maio, quando procurou assistência médica com quadro de febre, diarreia, náusea e tosse. A segunda infecção, confirmada por outro exame RT-PCR no início de junho, foi bem mais violenta, com hospitalização, necessidade de suporte de oxigênio e danos ao pulmão. O paciente se recuperou em 6 de junho.

O que muda agora que sabemos que há a possibilidade de reinfecção? Segundo Luiz Vicente Rizzo, médico imunologista e diretor superintendente do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein, casos de reinfecção são raros.



Uma entrevista com o ginecologista obstetra Cristião Rosas, um dos poucos profissionais que em 1989 aceitou fazer o treinamento para prestar atendimento emergencial às vítimas de violência sexual e realizar a interrupção da gravidez prevista em lei. De formação protestante presbiteriana, o médico iniciou o trabalho com dúvidas éticas sobre vida e fé. “Nós não precisamos mais de leis, portarias, normativas, orientações e protocolos clínicos, eles já existem, o que precisamos é tirar os porteiros que trancam as portas com cadeados, impedindo as mulheres de acessarem os seus direitos”.

Escalada de violência e tensão racial toma EUA


No sábado à noite, um homem ainda não identificado que vestia o boné de um grupo de extrema direita foi morto a tiros, em Portland, no Oregon. Desde o sábado, uma caravana de carros e picapes com militantes pró-Trump foram incentivados a atravessar a cidade. O presidente Donald Trump chegou a retuitar o vídeo de militantes seus atirando contra os do movimento Vidas Negras Importam com armas de paintball e gás pimenta. Trump não parou de tuitar a respeito da crise em Portland por um momento, durante o fim de semana. A escalada de tensão racial nos EUA não parece que vai diminuir. Na semana passada, um adolescente branco de 17 matou dois manifestantes negros com tiros de AR-15. A polícia não revelou a identidade da vítima de Portland, tampouco informou se há suspeitos. (New York Times)

A dupla questão da violência na sociedade e de justiça racial deverá dominar a eleição presidencial. O Partido Republicano tomou um caminho de marketing eleitoral e discurso que impõe uma escolha: segurança de um lado ou direitos civis de não-brancos, do outro. Assim, disfarça a economia ruim e o vasto número de mortes por conta da pandemia. Neste sentido, parece ter tido sucesso de impor a pauta debatida em campanha. (CNN)

Jennifer Rubin, do Washington Post: “Donald Trump incitou medos racistas desde que se anunciou candidato à presidência, em 2015. Ordenou que se jogasse gás contra manifestantes pacíficos e enviou tropas armadas a Portland para enfrentar passeatas sem apresentar razões legais. Ele vem usando imagens de caos e violência para instigar medo em americanos brancos. Promete manter subúrbios (leia-se brancos) protegidos contra moradia integrada (leia-se vizinhos negros). Encoraja a polícia a não ser ‘boazinha’ ao lidar com suspeitos. Ele nega a existência de racismo sistêmico e acusa manifestantes de serem anarquistas, socialistas ou extremistas violentos. Se recusa a condenar policiais que matam homens e mulheres negros desarmados ou grupos armados brancos que se engajam em violência. Sua assessora, Kellyanne Conway, confessou que quanto mais violência nas ruas, melhor para sua candidatura. Este fenômeno — denunciar a violência após provocá-la com tensão racial — é parte do guia do supremacista branco.” (Washington Post)



Celso Rocha de Barros: “Se o governador do Rio tiver caído por influência do presidente da República, a deterioração institucional brasileira deu um salto grande. A decisão de afastar Witzel monocraticamente foi ilegal. Quem quiser saber por que, consulte o texto do professor Ricardo Mafei Rabelo Queiroz, da Faculdade de Direito da USP, no site da revista Piauí. É possível que a decisão do ministro Benedito Gonçalves, do STJ, não tenha sido uma tentativa de conseguir uma vaga no Supremo. Mas é curioso que tanta gente no mundo da Justiça esteja tomando decisões claramente ilegais — a libertação de Queiroz, o dossiê contra os antifascistas, a perseguição a Hélio Schwartsman, o afastamento de Witzel — que coincidem perfeitamente com os interesses de Jair Bolsonaro, justamente o sujeito que vai decidir quem fica com a vaga no STF. O afastamento de Witzel não é conveniente para Bolsonaro apenas porque o governador fluminense havia se tornado rival do presidente da República. No final deste ano, seja lá quem for o governador do Rio vai escolher o novo procurador-geral do Estado. Bolsonaro quer influir nessa escolha para que o novo nome seja sensível aos interesses de seu esquema de corrupção familiar.” (Folha)

Rafael Mafei Rabelo Queiroz, da USP: “De onde vem o fundamento para que um magistrado, sozinho, afaste um governador como aconteceu com Wilson Witzel? Peço perdão pela circularidade: o fundamento vem dos próprios magistrados. A atual Constituição deu aos estados liberdade para que aprovassem suas constituições. O Rio aprovou a sua em 1989. Nela está dito que governadores podem ser suspensos do cargo quando se tornarem réus – isto é, quando forem recebidas denúncias contra eles – em processos por crimes comuns ou de responsabilidade. Não é o caso, até o momento, do governador Witzel: tanto seu impeachment quanto seu processo criminal estão em fases preliminares. Não é, portanto, o disposto na Constituição do Rio que fundamenta o afastamento determinado pelo ministro Benedito Gonçalves, do STJ. A ordem invocou o artigo do Código de Processo Penal que permite a juízes impor medidas cautelares com o objetivo de impedir a continuidade de crimes. A norma, no entanto, é genérica: permite a suspensão do exercício de funções públicas em geral e seguramente não foi pensada para casos com os de presidentes e governadores.” (Piauí)

Meio em vídeo: Algumas cidades estão amarradas à ideia de Brasil. O Rio foi a capital do Brasil, o centro brasileiro, por centenas de anos. Durante quase todo este período, foi vendida como a imagem do país. Continua sendo a imagem do país. Porque só elegia governadores de oposição, os ditadores escolheram destruir a política da cidade fundindo com o estado vizinho. Sabiam que a política paroquial do lado contaminaria a da cidade. Mais um governador foi afastado. E, agora, o pior do Rio está no Planalto. Assista.



A PF cumpre esta manhã uma operação em bloqueios de contas bancárias ligadas ao PCC. São mais de 600 mandados em 19 estados e no Distrito Federal. (G1)

Confrontos entre seguidores de Trump e do ‘Black Lives Matter’ deixam um morto

Confrontos entre seguidores de Trump e do ‘Black Lives Matter’ deixam um morto
Confrontos entre seguidores de Trump e do ‘Black Lives Matter’ deixam um morto
Caravana de simpatizantes do presidente atravessa Portland, que foi palco de numerosos protestos ante o abuso policial

"O aborto legal é um direito. Influência religiosa faz mal à saúde"

— Você sabe como mulher engravida?, perguntou à criança a médica Helena Paro, chefe do serviço de violência sexual do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia.
— Não, porque eu só vou aprender isso na escola no ano que vem. — Respondeu a menina de 11 anos que, após sofrer um estupro, foi admitida no hospital com 17 semanas de gestação para fazer um aborto legal.
Casos como o relatado pela médica não são exceção e, segundo profissionais da saúde têm aumentado durante a quarentena. No Brasil, o isolamento social imposto pela pandemia provocou um aumento de 40% nos casos de violência contra a mulher, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o que se reflete também num número maior de registros de serviços de saúde que atendem vítimas desse crime e realizam a interrupção da gravidez prevista em lei. Reportagem de Joana Oliveira mostra que, somente o Hospital Pérola Byington, em São Paulo, realizou 275 procedimentos de aborto legal no primeiro semestre deste ano, 50% a mais que o registrado no mesmo período do ano passado. Neste hospital, que é referência no atendimento às vítimas de violência sexual no Brasil, 45% dos atendimentos de violência sexual referem-se a vítimas com até 11 anos.
"Nos centros de atendimento à interrupção legal da gravidez, as meninas menores de 18 anos são 60% do casos”, afirma o ginecologista obstetra Cristião Rosas, 65 anos, coordenador no Brasil da Rede Médica pelo Direito de Decidir (Global Doctors For Choice) e ex-diretor do Serviço de Atenção a Vítimas de Violência Sexual do Hospital Maternidade-Escola Vila Nova Cachoeirinha, na capital paulista. Em longa entrevista ao EL PAÍS, o médico —que realiza o procedimento legal desde 1989— defendeu a obrigatoriedade de treinamentos específicos para profissionais da saúde lidarem com casos assim e criticou a pressão dos grupos fundamentalistas religiosos sobre vítimas de violência sexual que optam por interromper a gravidez. “É preciso dar um basta nessa intromissão na individualidade das pessoas. Está se demonstrando à sociedade que a influência religiosa faz mal à saúde e põe a vida em risco”, afirmou.

Análise de Mídia 31/08



CAPA – Manchete principal: *”Home office ocupa 13% no Sudeste e só 4% no Norte”*
EDITORIAL DA FOLHA - *”O Fed inova”*: Em meio à crise ocasionada pela pandemia, os bancos centrais do mundo têm sido obrigados a sair da rotina. Fora os programas de injeção de dinheiro nos mercados, ativados em dimensão inédita, a maior novidade até aqui é a decisão do americano Fed de alterar sua conduta na política monetária. À diferença do que ocorre hoje, a instituição buscará compensar períodos de inflação abaixo da meta, de 2% ao ano, com uma tolerância para altas maiores de preços depois. O objetivo consiste em obter uma inflação média em torno da meta no longo prazo. A mudança importa porque, até então, acreditava-se que o Fed elevaria os juros assim que a inflação voltasse a superar a meta, sem levar em conta os resultados anteriores. Com a economia deprimida pelas consequências da Covid-19, o risco predominante hoje é o de deflação. Justamente para compensá-lo, a autoridade monetária indica que pode ser mais leniente —não muito— com os preços. O novo regime fica reforçado por outra alteração importante, relativa ao mercado de trabalho. Normalmente os BCs atuam com foco em controlar a inflação, o que também implica evitar excessos na utilização de recursos na economia. O principal indicador do grau de aquecimento da economia utilizado pelo Fed é a taxa de desemprego: quando ela está baixa demais, há pressão inflacionária. Ocorre que os EUA viveram os últimos anos com o maior nível de ocupação em décadas —e sem aceleração dos preços, num fenômeno ainda a ser mais bem explicado.
O presidente do Fed, Jerome Powell, salientou os benefícios de uma farta oferta de emprego, em particular aumentos de salários no piso da distribuição de renda e maior inclusão, palavra que utilizou repetidamente em seu discurso. Na prática, prometeu que a instituição reagirá com vigor a taxas de desemprego altas, mas não o fará quando elas forem baixas e desacompanhadas de alta da inflação. Se tal diretriz estivesse em vigor há mais tempo, não teriam acontecido as elevações de juros entre 2016 e 2018, por exemplo. Como coordenador do sistema financeiro global baseado no dólar, o Fed manda sinal claro de que a política monetária permanecerá expansionista por muito tempo. As consequências previsíveis são certa tendência de desvalorização da moeda americana e maior fluxo de capitais para países emergentes, em busca de rentabilidades maiores —algo positivo para o Brasil, que ganha mais um respiro. Aqui, a taxa Selic de 2% ao ano é a mais baixa de que se tem notícia na história documentada do país. Ao menos em tese, a nova política do Fed facilita ao BC brasileiro manter por mais tempo juros favoráveis sem provocar desequilíbrios ante as cifras internacionais. Entretanto será um erro considerar que o novo cenário representa uma oportunidade para políticas domésticas irresponsáveis. Nas horas de crise e incerteza, afinal, o mundo procura dólares, não reais.
SÉRGIO DÁVILA - *”Uma escolha infeliz”*: No dia 21 de agosto, a Folha publicou editorial no qual defendia que, se seguir adiante na proposta econômica dos desenvolvimentistas de seu governo, de elevar déficit e desrespeitar teto de gastos, Jair Bolsonaro corre o risco de ter resultado parecido ao obtido por sua antecessora Dilma Rousseff: popularidade momentânea e país quebrado no médio prazo. O texto era intitulado “Jair Rousseff”, uma escolha infeliz que tentava resumir a pertinente comparação econômica sem levar em conta que colocava na mesma expressão o sobrenome de uma democrata que foi torturada pela ditadura militar e o prenome de um político apologista da tortura, que defende não só aquele regime como suas práticas vis e sanguinolentas. Desde então, centenas de leitores e vários colunistas tiveram seus comentários com críticas ao texto publicados no próprio jornal, em prática que é pilar do Projeto Folha tal como imaginado por Octavio Frias de Oliveira (1912-2007) e seus filhos Otavio Frias Filho (1957-2018) e Luiz Frias: liberdade de expressão, pluralidade de opiniões e abrigo do contraditório. A ex-presidente teve a íntegra de seu protesto publicada no jornal. Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda de Dilma, escreveu fora de sua coluna o texto “A Folha da Faria Lima”. Cristina Serra chamou a fusão dos dois nomes de “ultraje”. Outros colunistas se manifestaram veementemente, o que valeu definição de Juca Kfouri, intitulada “A Folha é Assim”: “Capaz do pecado de um título insultuoso à ex-presidente Dilma Rousseff [...], esta Folha é capaz, também, de publicar muito mais críticas que elogios de seus leitores ao deslize. Melhor: mantém espaço para seus colunistas manifestarem a discordância. E isso tem nome num país pouco habituado ao contraponto civilizado: liberdade de expressão”. Janio de Freitas, por sua vez, em sua coluna mais recente, não apenas discorda do publicado com argumentos, mas aproveita para fazer acusações infundadas que merecem resposta, algumas delas a pessoas que infelizmente já não estão mais aqui para se defenderem.
Num texto por vezes labiríntico, o colunista reclama tanto da preocupação (que chama de “ilusória”) com audiência por parte do jornal, hoje com leitura recorde em seus quase cem anos, como do pouco espaço que segundo ele sua coluna tem merecido na Primeira Página. Mas é ao “romper um tabu”, como escreve, que comete injustiça: ao dizer que a Folha teria emprestado veículos à repressão na ditadura, no que chama de “tinta pegajosa e indelével”. A seguir afirma que nunca houve explicação satisfatória para o suposto episódio. Não é verdade. Em 2018, meses antes de morrer, Otavio Frias Filho, então diretor de Redação da Folha, enviou o seguinte texto para o blog de Fernando Morais: “Em nota recente que envolvia meu nome, seu blog fez menção às acusações de que veículos da então Folha da Tarde, pertencente ao Grupo Folha, teriam sido usados pela repressão à guerrilha no começo dos anos 70. Em 2011, solicitei que uma pesquisa exaustiva fosse realizada para esclarecer o episódio. Seus resultados constam do livro ‘Folha Explica a Folha’ (2012; págs. 49 a 61), da jornalista Ana Estela de Sousa Pinto. Não foram encontrados registros que comprovem essa utilização nem nos arquivos da ditadura, nem nos jornais clandestinos mantidos pela luta armada na época. A acusação se baseia no depoimento de dois militantes presos que afirmaram ter visto veículos do jornal no prédio do DOI-Codi (Vila Mariana, SP). Os atentados terroristas contra veículos da Folha, praticados pelo grupo ALN, ocorreram quatro dias depois da morte pela repressão do guerrilheiro Carlos Lamarca no interior da Bahia, sugerindo que o motivo do ataque foi a cobertura, bastante hostil, que a Folha da Tarde fez daquele fato. A Folha sempre afirmou que, se a cessão de veículos ocorreu, foi de forma episódica e sem conhecimento nem autorização de sua direção”.
Mais adiante, Janio ressuscita o episódio “ditabranda”, outro termo infeliz utilizado pelo jornal em editorial de 2009 para dizer que o regime de exceção brasileiro foi menos mortal que o dos vizinhos argentino e chileno. Aqui, de novo o colunista defende patrões e culpa colegas, sugerindo que Otavio Frias Filho guardou silêncio e assumiu responsabilidade alheia. No entanto, o próprio Otavio escreveu naquele mesmo ano nas páginas do jornal: “O uso da expressão [...] foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis”. Otavio então reforçava o contexto histórico da comparação e reprovava a reação de alguns intelectuais, que pediam que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, “de joelhos”, a uma autocrítica em praça pública. “Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos de ditaduras de esquerda com as quais simpatizam.” As palavras seguem atuais. Janio de Freitas é um ícone do jornalismo brasileiro. Suas reportagens do passado e suas colunas sempre foram referência na cobertura política, mas nem ele está a salvo de cometer injustiças e incorrer em erros facilmente evitáveis com um mínimo de apuração prévia.
PAINEL - *”Em meio a embate no Supremo, investigação contra Witzel une equipe de Aras e Lava Jato do Rio”*: A ação da Procuradoria-Geral da República contra Wilson Witzel (PSC-RJ) uniu dois polos que estão em briga. Enquanto travam batalha no Supremo por causa do compartilhamento de dados de inquéritos, a equipe de Augusto Aras e a força-tarefa da Lava Jato do Rio trabalharam juntas na apuração que levou ao afastamento do governador na sexta (28). Segundo quem acompanhou de perto a investigação, houve uma mudança na relação no último mês, com sinais de alinhamento entra Brasília e Rio. Coube ao coordenador da força-tarefa do estado fazer a defesa das acusações de Witzel contra a subprocuradora Lindôra Araújo. "A ação não tem qualquer motivação política", afirmou o procurador Eduardo El Hage em entrevista. Um assessor da PGR participou da coletiva de imprensa. Entre procuradores, a impressão é a de que o embate com a Lava Jato do Rio se restringe a troca de informações e que o alvo principal de Aras é Deltan Dallagnol, próximo de Sergio Moro, desafeto de Jair Bolsonaro. Sobre o futuro das investigações, envolvidos afirmam ter duas certezas: novos acordos de delação serão firmados e novas denúncias serão apresentadas.
PAINEL - *”Para obrigar tribunais a comprarem férias de magistrados, Toffoli diz que impacto no orçamento é baixíssimo”*
PAINEL - *”Em plenário virtual, Gilmar dá indireta sobre morte por Covid de ex-deputado preso e Fachin rebate”*: No julgamento virtual sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras em presídios, o voto do ministro Gilmar Mendes incomodou Edson Fachin. Ao defender a medida, Mendes citou reportagem sobre condições da penitenciária Francisco Beltrão, onde estava o ex-deputado Nelson Meurer, "vitimado pela Covid-19 após reiteradas decisões judiciais denegatórias de sua prisão domiciliar". Fachin entendeu que ele era o destinatário da mensagem e respondeu que o acompanhava no voto, apesar da "desconexão" do exemplo citado, o que, segundo ele, "não espelha o contexto específico do ocorrido nos autos que dizem respeito a custodiado vitimado por Covid". Aos 77 anos, Meurer morreu em julho. Ele teve três pedidos de prisão domiciliar negados pelo STF --dois por Fachin e o terceiro pelo plenário virtual, com apoio de Fachin e Celso de Mello.
PAINEL - *”Deputado articula apoio a nova versão de Plano Mansueto, que deve mudar de nome após saída de secretário”*
PAINEL - *”MDB aciona deputados para fortalecer partido nas eleições nas capitais”*
*”Com gastos em xeque, TJ-SP blinda informações e tem transparência questionada”*
*”Toffoli manda tribunais comprarem um terço de férias de juízes em meio à crise do coronavírus”*
CELSO ROCHA DE BARROS - *”O presidente derrubou um governador?”*
*”De olho em 2022, Bolsonaro reavalia neutralidade nas eleições municipais”* - Na tentativa de aumentar a chance de uma reeleição em 2022, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) reavaliou estratégia de se manter afastado das disputas municipais deste ano. Em conversas reservadas com deputados bolsonaristas, o presidente, que inicialmente havia decidido não apoiar candidaturas a prefeito, reconheceu na semana passada que está disposto a subir em palanques nos municípios no segundo turno. E, de acordo com relatos feitos à Folha por dois aliados políticos, apesar de demonstrar ainda resistência, o presidente não descarta respaldar nomes já no primeiro turno, caso seu apoio se mostre crucial para garantir a vitória de um aliado. O objetivo de Bolsonaro, de acordo com assessores presidenciais, é garantir que sua campanha à reeleição conte com apoios regionais de peso, sobretudo em capitais como São Paulo, Rio e Porto Alegre. A ofensiva também busca não permitir a eleição de candidaturas municipais alinhadas a eventuais postulantes presidenciais do campo da direita que possam ameaçar a sua reeleição, como João Doria (PSDB), Sergio Moro (sem partido) e Luiz Henrique Mandetta (DEM). “Eu acho que o presidente, no momento necessário, vai colocar a presença dele, principalmente no segundo turno”, disse à Folha o vice-presidente Hamilton Mourão, que já relatou a disposição de apoiar candidatos nas eleições municipais, marcadas para novembro. Na sexta-feira (28), em mensagem nas redes sociais, Bolsonaro escreveu que decidiu não apoiar nenhum candidato a prefeito no primeiro turno das eleições municipais e afirmou que não se filiará a nenhuma legenda neste ano. A mensagem, segundo aliados do presidente, foi publicada para tentar diminuir sobre ele a pressão de candidatos que têm feito romaria diária ao Palácio da Alvorada em busca de uma foto ou de um vídeo para divulgação. Nos bastidores, no entanto, o presidente tem adotado retórica diferente. Os aliados do presidente apontam, porém, que ele já deixou claro que não tomará partido caso os dois favoritos sejam filiados a siglas que apoiam a gestão federal e caso o candidato alinhado à sua gestão tenha problemas judiciais.
O presidente quer evitar tanto uma cobrança futura por eventuais escândalos municipais de corrupção como um mal-estar em sua base aliada que possa comprometer votações de interesse do governo. Assessores lembraram que Bolsonaro deve evitar cometer o mesmo erro do apoio na última disputa ao ex-juiz Wilson Witzel (PSC), eleito graças ao apoio do presidente para o cargo de governador do Rio. Na sexta-feira (28), Witzel foi afastado da função por 180 dias por decisão do STJ (Superior Tribunal de Justiça) sob suspeita de irregularidades em contratações em meio à pandemia do coronavírus. O apoio considerado mais garantido de Bolsonaro nas eleições municipais é à reeleição de Marcelo Crivella, do Republicanos, no Rio de Janeiro. O principal adversário do bispo licenciado da Igreja Universal é o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM). Além de ser crítico do presidente, Paes é do mesmo partido de Mandetta, desafeto político de Bolsonaro, e conta com o apoio do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), com quem Bolsonaro protagonizou quedas de braço ao longo de seu mandato. Aliados de Maia, porém, dizem que o apoio a um adversário do candidato do presidente da Câmara pode ser uma medida arriscada, já que a pauta da Casa e dezenas de pedidos de impeachment estão nas mãos dele até o início de fevereiro, quando deixará o posto.
Em São Paulo, o favorito do presidente é o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos-SP), que deve disputar contra o prefeito Bruno Covas, aliado do governador João Doria, ambos do PSDB. Segundo assessores presidenciais, Bolsonaro considera a capital paulista um posto-chave para a sua reeleição. No ano passado, o presidente se animou com uma eventual candidatura do apresentador José Luiz Datena, pelo MDB, e cogitou apoiá-lo. O jornalista, no entanto, passou a criticar Bolsonaro e já desistiu de disputar um mandato neste ano. O antigo partido do presidente, o PSL, deve lançar a deputada federal Joice Hasselmann. Bolsonaro disse a assessores palacianos que não apoiará, em hipótese alguma, a parlamentar, que rompeu com ele no ano passado. Em Belo Horizonte e em Porto Alegre, deputados bolsonaristas apontam a possibilidade de apoios do presidente a Bruno Engler, do PRTB, e a Sebastião Melo, do MDB. Em Fortaleza, Bolsonaro tem simpatia pelo deputado federal Capitão Wagner (PROS), mas o próprio parlamentar já refutou a alcunha de candidato do presidente.
Em Curitiba, por sua vez, disputará a prefeitura o deputado estadual Fernando Francischini (PSL), aliado de Bolsonaro e um dos coordenadores de sua campanha presidencial em 2018. “O presidente vem falando que não vai entrar no primeiro turno. Eu acho que ele está correto em manter a base aliada”, disse Franschini à Folha. Na última quarta-feira (26), o presidente se reuniu com deputados aliados do PSL para discutir a sua eventual volta à legenda. No encontro, porém, ele disse que só tomará uma decisão em 2021 caso não seja possível viabilizar a criação da Aliança pelo Brasil. Na reunião com integrantes da sigla, o presidente disse, segundo deputados presentes, que só irá retornar à legenda se forem afastados desafetos políticos, como os deputados federais Junior Bozzella (SP), Joice Hasselmann (SP) e Delegado Waldir (GO).​​ A proposta não foi bem aceita pelo dirigente nacional do PSL, Luciano Bivar (PE). “Este PSL que ele conversou não é o PSL. São aqueles renegados. Isso [o regresso de Bolsonaro] não vai acontecer, ainda mais se ele impuser condições”, disse senador Major Olímpio (PSL-SP), outro ex-aliado de Bolsonaro. Além do PSL, o presidente avalia ingressar no PTB, do ex-deputado federal condenado no escândalo do mensalão Roberto Jefferson, ou no Republicanos, partido em que estão filiados seus filhos mais velhos, o senador Flávio Bolsonaro (RJ) e o vereador Carlos Bolsonaro (RJ). Jefferson repaginou o PTB para dar-lhe um verniz mais conservador e já foi ao Planalto conversar com Bolsonaro e distribuir a última versão do programa da legenda.
*”PM de Goiás intimida manifestantes por faixas contra Bolsonaro”* - Duas pessoas envolvidas em um protesto contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foram intimidadas pela Polícia Militar na noite desta sexta-feira (28) em Caldas Novas (170 km de Goiânia). A abordagem ocorreu em uma oficina onde estavam sendo confeccionadas faixas que seriam estendidas na cidade neste sábado (29), quando Bolsonaro visitou o município para a inauguração de uma usina fotovoltaica. O protesto foi organizado por um grupo de moradores da cidade em redes sociais. Foram escolhidas duas frases, uma criticando a alta do dólar e dos combustíveis e outra questionando o presidente sobre o porquê de Fabrício Queiroz e a mulher dele terem depositado R$ 89 mil na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Diante da mobilização em torno do protesto, dois policiais, um deles identificado apenas como tenente Alexandre, foram ao ateliê onde eram confeccionadas as faixas, no bairro Olegário. Em seguida, os policiais obrigaram o proprietário do estabelecimento a entrar na viatura e ir até a casa do pintor Salmeron de Oliveira, de 51, que havia confeccionado as faixas. Com o proprietário do estabelecimento dentro do carro, a polícia ficou parada na porta da casa de Oliveira por mais de uma hora. "Os policiais ficaram na porta da minha casa com giroflex ligado, tentando intimidar", afirmou Oliveira.
Os PMs só foram embora depois de pressionar Oliveira a ligar para o organizador do protesto, Andreazza Joseph Gomes, 37. “O tenente Alexandre me ligou e disse que eu estava cometendo crime contra a honra e afirmou que estava cumprindo ordens da Abin [Agência Brasileira de Inteligência] e da Polícia Federal”, disse Gomes. Segundo ele, a polícia pediu o seu endereço, mas desistiu de ir até o local. Neste sábado, as faixas foram estendidas pelos manifestantes nas proximidades do aeroporto de Caldas Novas, mas não houve incidentes. No último domingo (23), durante uma visita de cinco minutos a ambulantes da Catedral de Brasília, um repórter do jornal O Globo questionou o presidente sobre os motivos para Queiroz e sua mulher terem repassado esse valor para a conta de Michelle. Após a insistência do repórter, sem olhar diretamente para ele, afirmou: "A vontade é encher tua boca com uma porrada, tá?”. Amigo do presidente há 30 anos, Queiroz atuou como assessor de Flávio na Assembleia, quando o filho do presidente era deputado estadual. Queiroz está em prisão domiciliar e, assim como Flávio, é investigado sob suspeita dos crimes de peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
A Folha entrou em contato com a assessoria da Polícia Militar de Goiás às 13h20 deste sábado pedindo um posicionamento sobre o episódio. Contudo, até às 18h, não houve resposta nem por e-mail nem por mensagem. A assessoria da secretaria de Segurança Pública de Goiás também foi acionada pela reportagem, mas informou que apenas a Polícia Militar poderia responder aos questionamentos. A reportagem ligou ainda para o telefone celular do tenente Alexandre, mas ele não atendeu às ligações. O estado de Goiás é governado por Ronaldo Caiado (DEM), um dos principais aliados do presidente. Os dois haviam rompido após o governador criticar a postura de Bolsonaro e a condução da pandemia do coronavírus pelo governo federal, mas reataram as relações. Em discurso neste sábado durante a inauguração de uma usina fotovoltaica, em Caldas Novas, Caiado destacou o trabalho das forças de segurança do estado e elogiou o presidente. ​ Sem máscara de proteção facial, Bolsonaro cumprimentou pessoas apertando as mãos e dando abraços. Em julho, a prefeitura de Caldas Novas publicou decreto que obriga moradores e turistas a usarem máscaras na cidade. Não há previsão de pagamento de multa ou de outro tipo de punição para quem descumprir a regra. Durante o evento, junto às demais autoridades, o presidente usou máscara.
*”Constrangido, Lula reluta em apoio a Tatto para não melindrar Boulos”* - A eleição municipal em São Paulo colocou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva frente a um dilema. Aliados o descrevem como constrangido e, segundo alguns relatos, irritado com o cenário colocado para o PT e outras candidaturas de esquerda na maior cidade do país. De um lado, há a preocupação do maior líder do partido com a baixa viabilidade eleitoral do pré-candidato petista, o ex-deputado federal Jilmar Tatto. De outro, um sentimento de lealdade pessoal com uma sombra ao PT que cresce no campo da esquerda, a do líder sem-teto Guilherme Boulos (PSOL). Segundo relatos de pessoas próximas do ex-presidente, ele enxerga três cenários para a eleição: um aceitável (mas improvável), outro negativo e um terceiro catastrófico. O primeiro seria Tatto chegar ao segundo turno, uma vez que vencer a eleição é uma hipótese tida como irreal. Nesse caso, o PT ao menos resgataria seu lugar como protagonista na cidade, que ficou abalado com a derrota em primeiro turno de Fernando Haddad, em 2016. A chance maior neste momento, no entanto, é Tatto ficar fora da rodada final. Seria a segunda eleição consecutiva em que isso aconteceria, o que escancararia o desgaste da imagem do PT numa cidade que já governou três vezes.
Mas há uma possibilidade ainda pior, que seria ficar atrás de Boulos. Isso transformaria o PT num ator secundário no campo de esquerda, a exemplo do que já acontece no Rio de Janeiro, por exemplo. Segundo petistas próximos ao ex-presidente, a avaliação é que esse cenário é difícil de acontecer, pela presença organizada do partido em todos os rincões da cidade. Mas ninguém o descarta por completo. Uma participação mais efetiva de Lula na campanha de Tatto se choca com sua ligação pessoal com o pré-candidato do PSOL, que se estreitou muito durante a prisão do petista em Curitiba, de abril de 2018 a novembro de 2019. Na liderança da Frente Povo Sem Medo, coalizão de movimentos de esquerda, Boulos organizou atos condenando a prisão que valeram a gratidão de Lula. Além disso, hoje a aliança do PT com o PSOL é muito mais forte do que com outras legendas de esquerda. Ironicamente, o partido foi criado em 2005 a partir de uma dissidência aberta por petistas insatisfeitos com a política econômica e os casos de corrupção do governo Lula. Por essas razões, o ex-presidente tem se esquivado de tomar alguma atitude que possa ser vista como prejudicial a Boulos ou aos psolistas, mesmo quando isso envolve danos imediatos à candidatura de Tatto. O maior exemplo é seu silêncio quanto à sucessão de apoios de intelectuais e líderes petistas a Boulos. Alguns deles são bastante próximos ao ex-presidente, como o ex-ministro Celso Amorim (Relações Exteriores), o ex-porta-voz André Singer e o ex-assessor especial Frei Betto. “O Lula respeita muito as opiniões. Não confunde amizade pessoal com diferenças políticas”, afirma Betto. “Apoio o Boulos porque ele e a [Luiza] Erundina [candidata a vice] têm a melhor proposta para redução da desigualdade na cidade. Não vejo isso em nenhum dos outros candidatos, nem na esquerda.”
Uma preocupação de petistas é com o poder multiplicador de apoios de intelectuais e artistas a Boulos, especialmente junto à classe média, jovens e eleitores atuantes em redes sociais. São setores considerados fundamentais para resgatar a imagem do partido para além de suas bases cativas na periferia. O próximo passo do PSOL é tentar aumentar sua presença na área jurídica, com um manifesto com advogados pró-Boulos. Ao mesmo tempo, as demonstrações explícitas de falta de confiança no nome de Tatto continuam. Na última reunião do diretório nacional do PT, de 17 a 21 de agosto, uma proposta para o partido “convocar” Haddad para ser o candidato a prefeito de São Paulo chegou a ser discutida. Acabou não prosperando, com o argumento de que a escolha de Tatto já estava sacramentada. O ex-prefeito era o candidato favorito de Lula na cidade, mas recusou os insistentes apelos, dizendo que preferia ajudar nacionalmente o partido. Na última quinta-feira (27), numa reunião, o ex-presidente brincou com Haddad ao vê-lo mais magro. “É que estou percorrendo o território nacional virtualmente”, justificou o ex-prefeito, dizendo que já havia feito dezenas de lives para candidatos. Lula, em algum momento, deve começar a fazer o mesmo. O diretório nacional petista ainda organiza sua participação nas campanhas, que será majoritariamente virtual, em razão da pandemia.
Mesmo desanimado com o cenário em São Paulo, o ex-presidente entrará na campanha de Tatto. Participará da convenção do partido na cidade, que ocorrerá também em ambiente virtual, em 12 de setembro. Também gravará vídeos para os programas de TV, rádio e internet. “Lula vai participar muito da campanha, seja nas ruas ou pela internet. A agenda dele ainda está sendo montada, porque são muitas cidades importantes que querem a presença dele”, diz o presidente municipal do PT, Laércio Ribeiro, que também coordena a campanha de Tatto. Segundo ele, o foco do partido não está nos apoios recebidos pelo rival do PSOL. “O Boulos tem uma relação muito boa com o PT, mas nosso inimigo são os candidatos do eixo Bolsodoria”, diz. Para injetar ânimo na campanha, os petistas planejam aumentar a presença de Haddad na campanha, divulgar manifestos setoriais e anunciar em breve a candidata a vice, que será uma mulher, provavelmente negra. Na segunda-feira (31), o partido lançará uma carta compromisso com a cultura, além de apoio de cerca de 300 artistas, muitos deles da periferia. Para o coordenador de comunicação da pré-campanha, José Américo Dias, quem acha que Lula terá comportamento morno não conhece sua personalidade. “O Lula é muito partidário. A relação pessoal dele com o Boulos não é um impeditivo de sua atuação na campanha”, disse José Américo.
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*”Home office é novo indicador de desigualdade econômica no Brasil”* - O trabalho remoto, também conhecido pelo termo em inglês home office, ganhou escala no Brasil, de forma forçada, como alternativa para deter o contágio na pandemia da Covid-19. Passados quase seis meses desde a sua disseminação entre as empresas, os dados consolidados desse sistema de trabalho constituem uma espécie de novo indicador das desigualdades econômicas do país. Em julho, dos 8,4 milhões de trabalhadores remotos do Brasil, praticamente a metade, 4,9 milhões, estava no Sudeste, região que concentra profissionais mais qualificados e a geração de PIB (Produto Interno Bruto). Apenas 252 mil estavam no Norte, fatia mais pobre do país. Os números estão na Pnad Covid-19 do IBGE (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, dedicada a medir os efeitos econômicos da Covid-19). Quando se compara a proporção de trabalhadores em home office com a população ocupada em cada região, a disparidade fica mais evidente. Cerca de 10% de toda a população ocupada no Brasil estava nesse sistema em julho. A fração, porém, é maior no Sudeste, onde 13% da população ocupada estava no trabalho remoto, e bem menor no Norte, onde a apenas 4% trabalhavam em casa diante de um computador.
A parcela também é mais alta na região Sul, onde quase 9% estavam no teletrabalho, e menor no Nordeste, que tinha 7,8% da população ocupada em home office. Detalhe: a região Sul tem uma população ocupada menor (13,5 milhões) do que o Nordeste (17,9 milhões) Chama a atenção o dado do Centro-Oeste. A força da economia local é a agricultura, que pressupõe uma maior demanda por atividades presenciais, mas, ainda assim, 9% da população ocupada estava em teletrabalho. A capacidade de geração de riqueza e renda média, porém, colocam o Centro Oeste mais próximo do Sudeste e do Sul do que do Norte e Nordeste. Na avaliação do professor João Luiz Maurity Saboia, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), os dados do IBGE retratam o que se intui: o trabalho remoto é um benefício adicional para os mais qualificados, especialmente para a parcela que tem curso superior completo. A análise dos dados do IBGE sob a ótica do nível de instrução confirma essa percepção. Entre os que estão no trabalho remoto, 6,1 milhões, quase 73% do total, concluíram o ensino superior completo ou uma pós-graduação, detalha o levantamento do IBGE. Em contrapartida, apenas 70 mil dos trabalhadores que estão no sistema não completaram nem o fundamental. “O home office não é para qualquer um, é para determinadas ocupações e setores”, afirma Saboia. O pesquisador Daniel Duque, do FGV-Ibre (Insituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), reforça que pesa também a qualidade do acesso à internet. O fato de o Sudeste ter uma infraestrutura de rede mais ampla e conexões mais ágeis favorecem o teletrabalho na região. “No Sudeste, a internet chega a um número maior de pessoas e há mais predisposição para se trabalhar em casa, pois isso reduz o tempo perdido no deslocamento, por exemplo”, diz. Ele destaca ainda que essa região também concentra empresas mais sofisticadas e tem um número maior de trabalhadores qualificados do que o Norte e Nordeste. Os especialistas ainda argumentam que o home office é uma boa régua para medir as distinções entre trabalho formal e informal no Brasil.
De acordo com o IBGE, os informais representavam 15% —ou 1,3 milhão de trabalhadores— do universo de funcionários em casa. No mercado, porém, constituíam quase 40% da população ocupada no segundo trimestre. A leitura do economista Rodolpho Tobler, também do FGV-Ibre, é que a questão da informalidade talvez explique porque há tão poucos em teletrabalho na região Norte. Segundo ele, o emprego no Norte é mais informal, com ocupações mais difíceis de serem exercidas no trabalho remoto. “As pessoas não conseguem trabalhar em casa —é uma realidade nessa região”, afirma. A Pnad Contínua divulgados nesta sexta (28) trazia que 57,9% da população ocupada no Norte está na informalidade, com destaque para os estados do Pará (56,4%) e Amazonas (55,0%). No Sudeste, esse número é bem inferior (31,5%). São Paulo tem uma parcela de informais ainda menor (28,6%). Na avaliação de João Luiz Maurity Saboia há outra questão: a natureza do trabalho informal no Brasil, onde ainda prevalecem atividades com baixo uso de tecnologia, não adequadas ao home office. “Normalmente, são prestadores de serviços na agricultura, nas atividades doméstica e familiar ou ambulantes no comércio de rua. Você precisa estar no local para desenvolver essas atividades”, afirma. O home office também foi uma espécie de escudo de proteção contra o desemprego para os mais qualificados.
Durante a pandemia, houve a destruição das ocupações de baixa renda, mais precárias e informais. “Na perda de ocupação, os mais afetados foram os trabalhadores informais, que são aqueles com menores rendimentos”, diz a analista do IBGE Adriana Beringuy. Do outro lado, os mais qualificados foram trabalhar em casa —com destaque, novamente, no Sudeste. Diretores e gerentes de empresas, que constituem apenas 3,5% de toda a população ocupada do Brasil, representam 8% em trabalho de home office. No Norte e Nordeste, a distribuição da população ocupada em cargos de diretores e gerentes (1,8% e 2,5%, respectivamente) é bem menor que a vista no Sudeste (3,9%) e Sul (4,3%). Como o emprego durante a pandemia foi preservado nos patamares mais altos da pirâmide de trabalho, ocorreu uma distorção peculiar: a média salarial nacional chegou a R$ 2,5 mil, a maior da história já registrada pelo IBGE. Outra vez o Sudeste ficou numa posição melhor. A média salarial em São Paulo é R$ 3.167, parecida com a do Rio de Janeiro, que fica na casa de R$ 3.162. Trata-se de uma realidade bem diferente da vivida no Norte. No Tocantins, por exemplo, o rendimento fica em R$ 1.972. Étore Sánchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, argumenta que as diferenças entre as regiões podem ser explicadas pela distinção das profissões mais disponíveis em cada localidade. “A principal diferença é em função do tipo de trabalho prestado. Em alguns locais prevalecem trabalhos mais manuais, como colheita, ou atividades industriais não mecanizadas, de difícil execução de maneira remota”, diz Étore, se referindo à região Norte. “Já São Paulo concentra a prestação de serviços, principalmente administrativos, por isso tem essa distinção em relação à formalidade, ao trabalho remoto e ao rendimento médio”, afirma.
Os profissionais dedicados a áreas ligadas a ciências ou afazeres intelectuais são 13,5% dos brasileiros ocupados, mas chegaram a representar 50% dos trabalhadores em home office na pandemia. Essa parcela dos trabalhadores se sentiu confortável no teletrabalho. Em julho, a FIA (Fundação Instituto de Administração) e a FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade), ambas ligadas à USP (Universidade de São Paulo), fizeram uma pesquisa para medir a satisfação e o desempenho na migração para o home office entre trabalhadores da alta gestão de empresas e instituições, como executivos, técnicos de nível superior, professores e pesquisadores. O professor André Fischer, coordenador do Programa de Gestão de Pessoas da FIA, disse que a pesquisa foi feita principalmente no Sudeste. “Serviços financeiros, educacionais e de consultoria estão muito centrados em São Paulo, ou Rio”, afirma o professor. O resultado: 76% demonstraram uma percepção positiva sobre a suas condições de teletrabalho na pandemia. Fischer afirma que ainda não é possível ter certeza que a satisfação vai permanecer após a pandemia e o fim do isolamento social, mas acredita que o trabalho remoto se provou como viável para o público mais qualificado. “Muitas das barreiras cognitivas que existiam, como a resistência para atuar fora da empresa por acreditar que iria causar algum tipo de dificuldade, foram superadas. Ficou demonstrado que é possível exercer algum tipo de gestão sem estar necessariamente do lado do funcionário”, disse.
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*”Alunos da rede pública ficam meses sem atividades remotas na pandemia”* - Alunos do ensino fundamental matriculados em escolas públicas nas capitais dos estados ficaram meses sem atividades remotas ou orientação dos professores no período em que as aulas presenciais foram suspensas por causa da pandemia do novo coronavírus. Em 14 das 27 capitais, os estudantes tiveram 35 dias ou mais sem nenhum tipo de atividade remota durante o período de suspensão das aulas, de acordo com informações fornecidas pelas secretarias municipais de Educação. Brasília levou 123 dias para oferecer algum tipo de ensino remoto. Em Belo Horizonte (MG), foram 90 dias. O caso mais crítico é o de São Luís (MA), onde o ensino à distância ainda não havia começado no início de agosto. Conforme os relatos das secretarias municipais, aulas por videoconferência, em que alunos e professores podem interagir em tempo real, foram exceção na rede pública. Das 27 capitais, apenas Salvador usou o recurso no primeiro semestre, com alunos do 6º ao 9º ano. No restante do país, a orientação dos professores aos alunos por meio de aplicativos e redes sociais foi a estratégia mais usada, adotada por 25 capitais. Em 23 dessas cidades, materiais de estudo foram disponibilizados em sites, blogs e plataformas criadas pelas secretarias. A entrega de material impresso para alunos sem acesso à internet foi a solução encontrada por 14 cidades para tentar manter o vínculo com esses estudantes. Nas outras 13 capitais, quem não tinha internet só conseguiu material impresso indo pessoalmente à escola. Apanhadas de surpresa pela pandemia, as secretarias municipais de educação não estavam preparadas para atender aos alunos remotamente e por isso demoraram para responder. O tempo que os estudantes ficaram sem nenhum tipo de aula preocupa os especialistas. Pesquisas mostram que no período de um mês de férias de verão há uma perda de 30% do aprendizado do ano anterior, diz Priscila Cruz, presidente do Todos Pela Educação. “No caso da pandemia, estamos falando de 120 dias, quatro meses, uma perda brutal”, afirma. “Quem não vê problema porque acha possível recuperar o atraso depois está cometendo uma desonestidade intelectual muito grande, porque as evidências todas são no sentido contrário.”
A falta de acesso à internet e de telefones celulares com capacidade para explorar os recursos das plataformas de educação foram entraves para o ensino remoto em toda parte. No Recife, para viabilizar as aulas na sua plataforma, a secretaria de educação recorreu a uma campanha de arrecadação de aparelhos de telefone para doação a alunos do 6º ao 9º ano, última fase do ensino fundamental. Wilames Thiago, 14, que cursa o 9º ano na Escola Municipal Reitor João Alfredo, no Recife, contou no início de agosto que recebeu da escola um chip novo para o celular, mas ainda não tinha acesso a aulas pela plataforma criada pela prefeitura. “Temos um grupo da escola no WhatsApp e todos os dias três professoras mandam atividades para nós fazermos, mas não são todas as pessoas”, afirma. “Algumas ainda não têm celular”. A Secretaria Municipal de Educação do Recife entregou chips para 12.500 alunos dos anos finais do ensino fundamental. No fim de agosto, foram arrecadados telefones celulares para atender estudantes de 30% das escolas. Segundo Wilames, no fim de agosto o grupo de sua turma tinha 18 alunos, de um total de 30 que frequentavam as aulas presenciais antes da pandemia. Além de trocarem mensagens diariamente com os alunos, professores propõem temas para debate uma vez por semana por meio do aplicativo de mensagens e de um site. “Não são aulas por vídeo”, diz o estudante. “É uma hora de atividade só, e o objetivo é nós interagirmos. A gente fala mais de cultura, racismo, bullying, coisas assim.” Os alunos dos anos iniciais do ensino fundamental (do 1º ao 5º ano) não recebem chips nem celulares no Recife. De acordo com a secretaria, eles estudam com materiais que podem ser baixados na plataforma do município na internet e impressos em casa ou com arquivos disponibilizados por mídias sociais. Para Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência em Inovação e Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e colunista da Folha, as desigualdades que o Brasil já enfrentava nessa área foram agravadas na pandemia. “Se você imaginar que crianças e jovens ficam quatro meses em casas onde há livros, acesso à internet, equipamentos para todo mundo trabalhar confortavelmente em teletrabalho, e outras em que crianças se amontoam em único cômodo, disputando o único celular da família ou alguma coisa desse tipo, fica muito claro que durante a pandemia a desigualdade educacional vai aumentar mais ainda”, diz.
Segundo o levantamento da Folha, em oito capitais os alunos tiveram acesso a ensino remoto imediatamente após a suspensão das aulas ou a antecipação do recesso: Manaus, Belém, Macapá, Salvador, São Paulo, Cuiabá, Vitória e Curitiba. Na capital paulista, que tem mais de 1,3 milhão de estudantes matriculados, a secretaria municipal diz ter entregue material educativo impresso para 1,1 milhão de alunos durante a antecipação do recesso, período em que realizou treinamento para 50 mil docentes. Em 20 capitais, as prefeituras ofereceram aos alunos aulas gravadas e programas educativos na TV aberta, no rádio e no YouTube, sem possibilidade de interação com os alunos.
Em Maceió (AL), além de atividades interativas por meio do WhatsApp e do Facebook, foi adotada a educação remota através do projeto Rádio Escola Maceió, cujos áudios também ficam disponíveis no YouTube. Em Campo Grande (MS), foram oferecidos conteúdos de ciências e educação física, por meio de aplicativos e redes sociais. Em Goiânia (GO), as atividades incluíram educação financeira, educação ambiental e empreendedorismo. Para reduzir os danos causados pela suspensão de aulas presenciais ao calendário letivo, 13 prefeituras anteciparam o recesso escolar de julho e feriados. Teresina (PI) adiantou as férias de julho e até as de janeiro de 2021. No Rio de Janeiro, conteúdos são enviados aos alunos por meio de materiais impressos, aplicativos, redes sociais de professores e canais de TV. Segundo a secretaria, “não há aulas remotas com a grade e os horários equivalentes aos que os alunos têm durante o ano letivo normal”. Em Boa Vista (RR), que antecipou férias de 15 dias logo após a suspensão das aulas, em março, não há aulas remotas, e as atividades propostas não são obrigatórias. A orientação da secretaria municipal é oferecer aos alunos atividades extracurriculares pela internet, sem avaliação ou acompanhamento pedagógico de ensino e aprendizagem. Priscila Cruz, do Todos Pela Educação, ressalta que os componentes curriculares são cumulativos e pré-requisitos para a aprendizagem dos anos seguintes. “Se você deixa de aprender o conceito de equação, você não consegue aprender a equação do primeiro grau e depois a do segundo grau. Quando você tem esse tipo de perda vai ter um atropelo lá na frente”, diz. “Aqui não tem julgamento negativo, porque todos os gestores públicos do país, todas as escolas, foram pegos de surpresa.”
*”Perda de aprendizado na pandemia acentua desigualdades, dizem pesquisadores”*
*”Mães e pais de estudantes protestam contra o fechamento das escolas em São Paulo”* - Um grupo de mães, pais e profissionais da área da saúde e educação se reuniu no vão do Masp, na avenida Paulista, na região central de São Paulo, no início da tarde deste domingo (30) para pedir a reabertura das escolas na capital paulista. A manifestação foi organizada pelo grupo Escolas Já, formado por mães e pais médicos nas redes sociais após o prefeito Bruno Covas (PSDB) anunciar na semana passada que definirá na segunda quinzena de setembro se as aulas presenciais vão ou não voltar nas escolas da capital paulista ainda neste ano. O protesto começou por volta das 14h e, segundo estimativa da Polícia Militar que estava no local, reuniu cerca de 90 pessoas. O grupo caminhou pela faixa de ônibus da avenida e se dispersou por volta das 15h30. Segundo Camila Moreira, médica da rede pública e privada e uma das fundadoras do movimento, a reivindicação é pela abertura gradual e opcional das instituições de ensino. "Temos percebido que as crianças estão tendo um prejuízo muito grande. Além de tudo isso, estamos sem uma rede de apoio para deixar nossos filhos e podermos trabalhar", afirma ela.
Profissionais de instituições particulares também mostraram preocupação com a possibilidade de um retorno às aulas apenas no ano que vem. Edilene Cesca, mantenedora da Escola da Praça, no bairro do Butantã (zona oeste), afirmou que, no início do ano, tinha 115 alunos e agora tem Ecerca de 60. "Vieram as últimas notícias de que a gente não teria uma data certa para voltar, os pais estão tirando das escolas e as mães estão ficando sem assistência enquanto estão voltando ao trabalho", disse ela. De acordo com Cesca, as escolas estão com os protocolos de segurança prontos para receber de volta seus alunos em setembro. Professores da rede privada que compareceram ao protesto disseram que temiam demissões no setor. "Como que uma entidade privada vai se manter até o final do ano e manter todos os seus professores? Arrumamos a escola com os protocolos", diz Daniela Petrolini, professora de educação infantil. Segundo o inquérito sorológico mais recente da capital paulista, 18,3% dos estudantes da rede municipal possuem anticorpos contra coronavírus, mas a prefeitura vai realizar uma terceira etapa de testes para definir sobre o retorno às aulas presenciais na cidade. Nessa fase, estudantes de escolas privadas e estaduais na cidade também serão incluídos.
No início de agosto, o governador João Doria (PSDB) anunciou que a retomada das aulas presenciais nas escolas públicas e privadas do estado só ocorreria a partir do dia 7 de outubro, quase um mês após a data inicialmente prevista pelo Plano SP, porque as condições impostas para a retomada do ensino presencial não foram cumpridas. O embate entre as escolas privadas e a Prefeitura da capital também foi parar na Justiça. No dia 20 de agosto, o Sieesp (Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo) entrou com um mandado de segurança contra Covas, após o anúncio que as aulas presenciais não deveriam retornar em setembro. O Tribunal de Justiça de São Paulo negou o pedido de liminar para a reabertura das instituições particulares a partir de 8 de setembro.
*”Professores de escolas privadas ficam sem emprego durante a pandemia”* - Pela primeira vez em 30 anos, Maria Célia Crepaldi, 58, não encontrou seus alunos para o segundo semestre de aulas. Professora em uma escola particular, ela foi demitida no início de agosto depois que só dois alunos permaneceram matriculados na turma. Etapa mais atingida pela saída de alunos durante a pandemia do novo coronavírus, a educação infantil (que atende crianças dos 0 aos 5 anos) tem concentrado mais de 70% das demissões de professores da rede particular, que planejam buscar novas áreas para atuar por verem que a crise no setor deve se estender. Segundo estimativa da Fenep (Federação Nacional de Escolas Particulares), cerca de 300 mil docentes da educação básica já foram demitidos durante a pandemia. Os donos de escola afirmam que há risco de o número crescer, já que os pais podem não voltar os filhos para a rede particular neste ano. Crepaldi era professora de uma escola em Moema, na zona sul de São Paulo, com mensalidades para a educação infantil em pelo menos R$ 2,2 mil. “Dou aula para crianças pequenas desde os 17 anos e nunca fiquei desempregada. Nunca imaginei ver tantos professores sem trabalho”, contou. O colégio decidiu pela demissão das professoras de turmas de educação infantil que tiveram redução de alunos. A de Crepaldi, por exemplo, tinha 6 alunos de 1 ano antes da pandemia, mas em agosto só estava com 3 —um deles bolsistas. “Acho que entenderam que não compensava me manter para dar aula só a dois alunos pagantes. Então, transferiram esses crianças para uma professora de uma turminha mais velha."
Aposentada há dois anos, Crepaldi não pretende parar de trabalhar, mas disse considerar difícil voltar a trabalhar ainda neste ano. “Sei que faço um bom trabalho e ele é reconhecido, mas essa situação mudou a educação. Eu não me sinto segura de voltar a uma escola e não acho que vão contratar professores para dar aula a distância.” Escolas particulares de elite de São Paulo iniciaram as demissões pelos professores de atividades extracurriculares, auxiliares de sala e estagiários. Um dos mais tradicionais colégios de São Paulo, o Dante Alighieri, na região central, também dispensou os funcionários que atuavam em cursos extracurriculares. A direção disse que “não se trata de demissão porque eram todos terceirizados” e informou ter adiantado dois meses de pagamento a esses profissionais quando as aulas foram suspensas. “O colégio também facilitou o contato de pais que tivessem interesse em seguir com essas aulas, de forma que puderam entrar em contato diretamente com estes profissionais”, disse em nota. Ainda que o número de desmatrículas pareça ter se estabilizado, professores que tiveram os salários reduzidos, nas condições da Medida Provisória 936/2020, temem ser demitidos no final deste ano letivo. O temor é ainda maior entre aqueles que trabalham com crianças menores de 3 anos, idade em que a matrícula ainda não é obrigatória pela legislação.
“Já nos disseram que os pais dessas crianças podem adiar a volta dos filhos no próximo ano, caso ainda não haja uma vacina ou a pandemia não esteja bem controlada. Eles vão preferir deixá-los em casa com uma babá”, disse uma professora do colégio Elvira Brandão, em Santo Amaro, na zona sul. Ela teve o salário reduzido em 50%, mas já pensa em alternativas para o caso de ser demitida. “Nunca faltou emprego para professor e agora me vejo sem opção na área que amo trabalhar. Porque as escolas não vão contratar, dificilmente vão abrir concurso público." Em nota, o colégio Elvira Brandão informou que, diante das “muitas famílias” impactadas que suspenderam ou cancelaram a matrículas dos alunos, é preciso manter a saúde financeira. Segundo a direção, com as medidas previstas na MP foi feita a redução de jornada, com ajuda de custo para que ninguém tivesse prejuízo no salário líquido. Também informou que apenas estagiários tiveram os contratos rescindidos.
PAOLA MINOPRIO - *”Mulheres querem ter voz ativa no mercado de trabalho”*
*”Especialistas ensinam a lidar com a vida pós-quarentena”*
*”Pela primeira vez desde 1956, Barretos deixa de realizar a Festa do Peão de Boiadeiro”*
*”Pesquisadores reportam novo caso de reinfecção da Covid-19 nos EUA”*
MÔNICA BERGAMO - *”Defensoria pede que STJ desarquive investigação sobre torturas em presídio paulista”*: A Defensoria Pública do Estado de SP pediu ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) que desarquive uma ação que investiga a tortura de presos por agentes de um grupo de intervenção na penitenciária masculina 1 de Serra Azul, no interior do estado. Relatos colhidos em 2018 dão conta de agressões físicas como socos e chutes, uso de spray de pimenta e de arma calibre 12 munida com bala de borracha contra os detentos. Segundo os depoimentos, os agentes vestiam balaclavas para não serem identificados e eram acompanhados por cães. Os casos vieram ao conhecimento das autoridades após denúncias feitas à Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos e em inspeção realizada pelo núcleo de situação carcerária da defensoria em setembro de 2018. Um relatório produzido pelo órgão traz fotos de marcas como cortes na cabeça, lesões nos braços e nas pernas e escoriações por todo o corpo deixadas nos detentos após as supostas agressões. A Defensoria Pública solicitou que o caso fosse apurado, mas teve seus recursos rejeitados pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que arquivou o processo sob a afirmação de que “não houve violação a direito líquido e certo”. No recurso encaminhado ao STJ, os defensores afirmam que não foi requerida nem mesmo a elaboração de exame de corpo de delito. “O Estado brasileiro pode estar se esquivando do seu dever de investigar os responsáveis por violações de direitos humanos das pessoas recolhidas sob a sua custódia.”
MÔNICA BERGAMO - *”SUS economiza R$ 290 milhões com redução de infecções hospitalares em UTIs”*: A redução dos índices de infecções hospitalares em 116 unidades de terapia intensiva (UTIs) de hospitais públicos e filantrópicos do Brasil, entre janeiro de 2018 e julho de 2020, provocou uma economia de R$ 290 milhões ao SUS. Com a diminuição, foram preservadas 2.200 vidas. No período, foi percebida uma queda em 46% de ocorrências de infecção primária da corrente sanguínea associada a cateter venoso central e de 51% de pneumonia associada à ventilação mecânica. As informações são do projeto Saúde em Nossas Mãos - Melhorando a Segurança do Paciente em Larga Escala no Brasil, idealizado pelo Ministério da Saúde em colaboração com hospitais do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional (Proadi) do SUS. A iniciativa orienta profissionais de saúde a usar metodologias e ferramentas que visam aumentar a segurança do paciente na UTI.
MÔNICA BERGAMO – *”Márcio França quer adaptar o 'SPCiro' para a cidade de São Paulo”*: A pedido de Márcio França, pré-candidato à Prefeitura de SP, o PDT escalou a equipe de Ciro Gomes (PDT-CE) para adaptar o programa “Nome Limpo”, do ex-presidenciável, ao seu plano de governo. Apelidada de “SPCiro”, a proposta de renegociação da dívida para inadimplentes foi uma das principais promessas de campanha de Ciro em 2018.
MÔNICA BERGAMO - *”UFSC desenvolve sistema de telemedicina com videochamada, chat e mensagens de áudio”*
MÔNICA BERGAMO – *”Chico Bento será embaixador da ONG de proteção ao meio ambiente WWF-Brasil”*
MÔNICA BERGAMO - *”Podcast sobre assassinato de Ângela Diniz será adaptado para série”*
MÔNICA BERGAMO - *”Ale Santos prepara livro sobre afrofuturismo”*
MÔNICA BERGAMO - *”'Acho que ainda estou são', diz o ator Anthony Hopkins após 170 dias de quarentena”*
CAPA – Manchete principal: *”Castro vai a Bolsonaro por recuperação fiscal”*
*”Nova fase para as delações – PGR fecha dez novos acordos, que miram parlamentares e estados”*
+++ A reportagem diz que os acordos de delação marcam uma guinada com relação à gestão anterior da PGR em que foram firmados apenas 2 acordos de delação. Nenhum dos novos acordos é desdobramento das investigações da Lava Jato de Curitiba.
ENTREVISTA: GIULIANO DA EMPOLI, cientista político - *”É uma ilusão, esse tipo de líder não se modera”*
+++ O escritor italiano, autor de ‘Os Engenheiros do Caos’ analisa o que explica a manutenção da popularidade de líderes como Jair Bolsonaro e Donald Trump
*”Em ano eleitoral, o aceno de ex-aliados a Jair Bolsonaro”*
*”Participação do eleitor jovem é a menor em 30 anos”*
+++ A reportagem diz que a participação de eleitores com 16 e 17 anos de idade será a menor em 30 anos. Os dados foram levantados pelo Globo a partir de estatísticas do TSE. O texto relata que a baixa adesão já era notada nos últimos anos, mas se intensificou em 2020 devido à pandemia porque o prazo de emissão de novos títulos de eleitor se encerrou em maio.
*”Covid: depressão e suicídio podem vir como consequência”*
*”Retomada comprometida – Renda dos trabalhadores tem queda recorde e limita reação do consumo”*
 
CAPA – Manchete principal: *”Lucro das companhias de capital aberto cai 81,9% no 1º semestre”*
EDITORIAL DO ESTADÃO - *”Enfim, estímulos para a cabotagem”*: Mudar uma situação historicamente consolidada, ainda que injustificável pelas condições naturais e pelas necessidades do País, pode parecer um objetivo enganoso ou, no mínimo, ambicioso demais para ser alcançado no curto prazo. No caso da navegação de cabotagem, porém, a mudança é possível. Por meio da ampliação da oferta de transporte marítimo entre portos brasileiros, da redução dos custos logísticos, do aumento da competitividade entre as empresas que operam ou virão a operar no setor, da atração de novos investidores e do incentivo ao desenvolvimento da indústria naval nacional, o governo pretende elevar substancialmente a participação da cabotagem na matriz de transporte de mercadorias no País, hoje avassaladoramente dominada pelo transporte rodoviário. Estes são, entre muitos, os objetivos do projeto de lei enviado há pouco pelo Executivo ao Congresso para criar o Programa de Estímulo ao Transporte de Cabotagem. O programa tem o sugestivo nome de BR do Mar, clara referência a “estradas” (BR é a designação das rodovias federais) a serem operadas por navios, em substituição aos caminhões.
O Brasil tem mais de 8,5 mil quilômetros de costa e mais de 70% de sua população vivendo a até 200 quilômetros do mar, condições que deveriam ter feito da navegação de cabotagem uma das modalidades de transporte mais utilizadas no País. No entanto, o transporte por navio entre portos brasileiros responde por apenas 11% da matriz de transporte. O rodoviário responde por 65%. Além das condições geográficas e demográficas, também o custo operacional deveria ser forte estímulo para o uso mais intenso da cabotagem. Quanto ao custo da infraestrutura, o transporte rodoviário – pela necessidade de grandes investimentos na construção e manutenção da malha – é muito mais caro ao País do que o marítimo. É por isso que, em países com extensa costa ou dimensões continentais, como a China e os Estados Unidos, a navegação de cabotagem responde por 30% a 35% de tudo que é transportado internamente. A greve dos caminhoneiros no primeiro semestre de 2018 evidenciou os riscos da excessiva dependência do País do transporte rodoviário. Também deixou, como advertência, a necessidade de busca de alternativas. Desde então, a navegação de cabotagem vem crescendo. No ano da greve, mais de 1 milhão de contêineres de 20 TEU (unidade equivalente a 20 pés) foram movimentados entre portos brasileiros. Esse número corresponde a mais de 1 milhão de viagens rodoviárias. O governo estima que, com a aprovação do projeto – enviado ao Legislativo com o pedido de tramitação em regime de urgência –, se pode chegar a 2 milhões de TEU em 2022.
O BR do Mar reduz de maneira significativa as restrições para o afretamento de embarcações estrangeiras por empresas brasileiras de navegação para operação entre portos do País. Pela legislação atual (Lei 9.432/97), uma empresa de navegação só pode afretar embarcações sem tripulação até o limite de 50% de embarcações de sua propriedade. E só poderá fazer isso se não houver uma embarcação brasileira disponível, o que é fiscalizado pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Essa restrição será eliminada. O projeto permite que uma empresa brasileira afrete embarcações estrangeiras por meio de sua subsidiária integral com sede em outro país. Essa subsidiária, além de alugar o navio, contratará a tripulação (com dois terços de brasileiros) e cederá o conjunto para a controladora. Com medidas como essas, o governo espera que a frota em operação na navegação de cabotagem cresça até 40%. A maior oferta de serviços deve vir acompanhada de maior competição entre as operadoras. A utilização também por empresas estrangeiras de recursos do Fundo da Marinha Mercante para manutenção e reparo de embarcações em docas brasileiras deverá estimular a indústria naval. A redução de trâmites burocráticos e de exigências regulatórias deve cortar custos operacionais.
*”Teto salarial de militares opõe Defesa e Economia”* - Uma nova benesse para militares da reserva tem colocado em lados opostos o Ministério da Defesa e o da Economia. A pasta comandada pelo general Fernando Azevedo conseguiu aval para que integrantes das Forças Armadas com cargo no governo acumulem remunerações acima do teto do funcionalismo – R$ 39,3 mil –, mas a equipe de Paulo Guedes tenta barrar. Em documento obtido pelo Estadão, a área econômica alerta para o possível impacto nas contas que a mudança na regra pode causar e aponta que, desde 2018, o desconto feito no salário de servidores poupou R$ 518 milhões aos cofres públicos. Previsto na Constituição, o chamado “abate-teto” é um mecanismo que inibe o recebimento de “supersalários” na administração pública. Na prática, ele funciona como uma linha de corte que reduz a remuneração de servidores para limitá-la ao valor máximo permitido, que equivale aos vencimentos de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Só algumas verbas escapam, os chamados penduricalhos, como os jetons por participação em conselhos de estatais, auxílio-moradia, entre outros. Com o argumento de que corrigiria distorções de militares da reserva que exercem cargos no governo sem receber o salário ou em troca de apenas uma parte, o Ministério da Defesa fez uma consulta à Advocacia-geral da União (AGU) se poderia aplicar um entendimento diferente para a regra. A pasta argumenta, com apoio dos comandos de Aeronáutica, Exército e Marinha, que o abate-teto deveria limitar cada salário isoladamente. Assim, caso nenhuma das remunerações atinja o teto, o militar poderia recebê-las integralmente. O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, por exemplo, vem tendo o salário bruto do cargo, de R$ 30,9 mil, cortado mensalmente em R$ 14,7 mil por causa do abate-teto. Isso porque ele já recebe como tenente-coronel da reserva da Força Aérea Brasileira cerca de R$ 21 mil. Se o novo entendimento estivesse em vigor, Pontes poderia acumular as duas remunerações integralmente e, ao fim do mês, passaria a receber cerca de R$ 52 mil. E ele nem é o que mais ganha. Bento Albuquerque, ministro de Minas e Energia, poderá acumular quase R$ 65 mil brutos apenas com as remunerações básicas. O militar ainda faz parte dos conselhos de administração da Itaipu Binacional e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) – os jetons geram, respectivamente, mais R$ 14,9 mil e R$ 3,2 mil mensais.
Aval. Oficiais das Forças Armadas comandam nove ministérios e são maioria no Palácio do Planalto, de onde atuam nos bastidores na articulação com o Legislativo e o Judiciário, além dos órgãos de controle. A AGU concordou com os argumentos da Defesa em abril. Em parecer, o órgão jurídico do governo citou entendimentos do STF e do Tribunal de Contas da União sobre o abate-teto. O caso base foi o de dois servidores do Mato Grosso que acumulavam cargos e tiveram aval da Justiça para que o redutor fosse aplicado separadamente e não nos vencimentos acumulados. Porém, a pasta da Economia diz que essas decisões não são aplicadas automaticamente a todo o funcionalismo federal. E também não serviria de base, pois os ministros julgaram casos específicos.
Por causa dos gastos com a pandemia da covid-19, que levou o presidente Jair Bolsonaro a decretar estado de calamidade pública, o aval da AGU dado em abril deste ano pelo então ministro André Mendonça, atual titular da Justiça e Segurança Pública, foi suspenso em maio pelo seu sucessor, o atual advogado-geral da União, José Levi. Mas, na prática, outros ministérios, como o da Cidadania, já formularam consultas ao órgão sobre como proceder os pagamentos. Isso porque o parecer da AGU beneficia não só os militares, mas todos os servidores do governo que recebem salários de duas fontes diferentes. Agora, técnicos da Economia pressionam Levi para que reveja a autorização dada por Mendonça. Eles argumentam que “não se pode flexibilizar o ‘teto’ para atender uma pequena classe da sociedade brasileira”. E alertam: “O já combalido Orçamento Público Federal terá de arcar com o aumento ilegal do pagamento de remunerações provenientes de acumulação de cargos, até mesmo em casos não permitidos pela Constituição”. Os técnicos ressaltam que não há dotação orçamentária específica bancar esse aumento na despesa Orçamento de 2020 e que ela tampouco foi prevista na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2021, dois impeditivos legais. A Secretaria de Gestão e Desempenho de Pessoal pediu o “reexame” do parecer pela AGU. “O entendimento proposto pela Advocacia-geral da União acarretará elevado impacto financeiro”, diz o órgão. O governo tem até hoje para enviar ao Congresso Nacional a proposta orçamentária do ano que vem. Como revelou o Estadão, a previsão é de o Ministério da Defesa ter mais recursos que o da Educação, o que não acontece desde 2010. Por enquanto, o abate-teto continua a descontar o somatório das remunerações de servidores quando há acúmulo de cargos, empregos, pensões e funções.
*”Impeachment de Witzel tem trâmite acelerado na Alerj”*
*”Senadores agem contra reeleição no Congresso”* - Um grupo de dez senadores vai acionar hoje o Supremo Tribunal Federal (STF) contra a possibilidade de reeleição dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Rodrigo Maia, ambos do DEM. Eles vão ingressar na ação do PTB que pede ao Supremo para declarar a inconstitucionalidade da reeleição. A petição tem apoio de senadores do Muda, Senado, grupo de oposição a Alcolumbre, entre eles Alessandro Vieira (CidadaniaES), Jorge Kajuru (CidadaniaGO), Randolfe Rodrigues (Rede-ap), Oriovisto Guimarães (Podemos-pr) e Major Olímpio (PSL-SP). Os senadores contestam um parecer da Advocacia do Senado, que defendeu ao STF a possibilidade de reeleição, em situação análoga à dos chefes do Poder Executivo. Para eles, a comparação é “absolutamente descabida”.
*”Convenções lançam Joice e Andrea em SP”*
*”Israel negocia em segredo laços com vários países árabes, revela Netanyahu”* - Israel mantém negociações secretas com líderes árabes e muçulmanos a respeito da normalização de suas relações, revelou ontem o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, na véspera da inauguração do primeiro voo comercial direto entre o Estado judaico e os Emirados Árabes Unidos. Desde o anúncio do dia 13, feito por Washington, da normalização das relações entre Israel e os Emirados, que mantêm laços informais há anos, os telefonemas entre os ministros aumentaram, e foram fechados os primeiros contratos comerciais. No sábado, Abu Dhabi revogou uma lei de 1972 que instituía um boicote a Israel. Em viagem pelo Oriente Médio na semana passada, com passagem por Sudão, Bahrein e Omã, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, tentou convencer outros países da região a seguirem o exemplo dos Emirados Árabes. Nos últimos meses, Netanyahu já havia falado com líderes do Sudão, do Chade e de Omã. “Estas são as reuniões conhecidas. Mas há muito mais reuniões não informadas pela mídia com líderes árabes e muçulmanos para normalizar as relações com o Estado de Israel”, disse o premiê, sem revelar os países envolvidos nas conversações. Analistas acreditam que Sudão e Bahrein poderão em breve seguir os passos dos Emirados. “Os avanços de hoje serão o padrão de amanhã. Eles abrirão o caminho para outros países normalizarem suas relações com Israel”, declarou Netanyahu, juntamente com o conselheiro sênior da Casa Branca Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, e com o conselheiro de Segurança Nacional dos E UA, Robert O’brien. Até agora, a paz com os palestinos era considerada uma precondição para qualquer normalização das relações entre Israel e o mundo árabe e muçulmano.
Mas, nos últimos anos, Israel tentou inverter essa equação para convencer os países árabes a normalizar suas relações, sem esperar a assinatura de paz com os palestinos. A Autoridade Palestina criticou o acordo entre Israel e os Emirados Árabes, que descreveu como uma “traição” de Abu Dhabi, apesar de o governo árabe destacar que seguirá sendo um forte apoiador dos palestinos e o acordo mantém aberta a possibilidade de uma solução para o conflito com Israel que defenda a criação de dois Estados. No acordo de normalização de relações diplomáticas com os Emirados, Israel apenas se comprometeu a suspender, por tempo indeterminado, os planos de Netanyahu de anexar uma parte ocupada da Cisjordânia. “Se fôssemos esperar pelos palestinos, esperaríamos para sempre”, disse Netanyahu. Ao seu lado, Kushner descreveu o acordo com os Emirados como “um passo gigante” e disse que “nunca foi tão otimista em relação à paz” no Oriente Médio quanto agora, apesar da recusa dos líderes palestinos a retomarem as negociações com Israel com base no plano de Trump. Anunciado em janeiro, este projeto, descrito ontem como “uma oferta amigável e realista” por Kushner, prevê a criação de um Estado palestino, mas em um território reduzido e descontínuo na Cisjordânia ocupada, parte da qual (cerca de 30%) seria anexada por Israel. Como prova da vontade de avançar rapidamente para a normalização com Abu Dhabi, uma delegação americano-israelense embarca hoje de manhã no primeiro voo comercial direto entre Israel e os Emirados. O voo LY971, da empresa israelense El-al, cujo avião está inscrito com as palavras “Peace, salam, shalom”, decolará do aeroporto Ben-gurion de TelAviv com destino a Abu Dhabi, levando funcionários de alto escalão do governo de Israel e dos EUA, entre eles Kushner. O acordo mediado pelos EUA representou uma vitória diplomática de Trump que pode ajudar o candidato republicano nas eleições de 3 de novembro.
*”Milhares retomam protestos na Bielo-Rússia”*
*”Com velhas táticas, Maduro amplia cerco na pandemia”*
*”Eles não têm condições de fazer aulas online. E se preocupam com o futuro”* - Alana tem 16 anos e mora em Terra Boa, no Paraná. Ela parou de estudar porque teve dificuldade de aprender com as videoaulas e por ter apenas um celular de baixa qualidade. Em São Paulo, Gabriel, de 20, interrompeu o cursinho. Precisou se dedicar mais ao trabalho e ajudar nos cuidados do pai, diagnosticado com câncer. Para eles, dar essa pausa nos estudos não foi questão de falta de vontade. O que faltou mesmo foi condição para seguir em frente. Em todo o Brasil, cerca de 44 milhões de crianças e adolescentes deixaram as salas de aula em decorrência do novo coronavírus, segundo dados do Unicef. Dos que estavam matriculados antes da pandemia, 4 milhões não conseguiram continuar as atividades em casa. Estima-se, ainda, que pelo menos 4,8 milhões de crianças e adolescentes em todo o Brasil não têm acesso à internet em suas residências, enquanto outros milhões têm acesso precário ou sofrem com falta de equipamento. É o caso de Maysla, de 19 anos, que vinha se esforçando para acompanhar pelo celular as aulas do cursinho. Agora, no entanto, o telefone quebrou. Não deu mais para continuar. Uma pesquisa do Datafolha encomendada pela Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures investigou o cotidiano de estudos em casa de alunos das redes pública municipal e estadual no Brasil. A parcela de estudantes desmotivados, na percepção de pais ou responsáveis, subiu de 46% em maio para 51% em julho. Também aumentaram as dificuldades para manter a rotina. E agora um número maior de pais teme que os filhos desistam da escola – porcentual foi de 31% para 38%. Por trás desses números, estão as histórias de Alana, Gabriel, Maysla, João e Marina, que o Estadão conta a seguir.
Alana, 16 anos. Antes da pandemia, tudo ia bem. O entendimento das matérias era bom e as notas, perfeitas. A dedicação de Alana Vitória Conceição Ferreira era total. Afinal, já tinha perdido dois anos de estudo, durante o período em que foi praticamente casada com um rapaz que não a deixava ir à escola. Ela faz parte do grupo de 6,4 milhões de meninas e meninos que antes da pandemia já estavam atrasados dois ou mais anos, segundo o Unicef. Para resgatar o tempo perdido, ela se matriculou em um supletivo. Queria terminar os últimos anos do ensino fundamental e seguir para o médio. Foi quando veio a pandemia. E com ela a dificuldade de aprender pelo celular. “Não tem como conseguir estudar direito numa videochamada”, relata a jovem, que mora em Terra Boa (PR), município com 17 mil habitantes. “Quando é em sala, a gente tem ajuda do professor. Na minha escola, é só aula no Youtube.” Quando ocorreu a transição do presencial para o virtual, a escola ofereceu algumas possibilidades: criou um grupo para as atividades, usou um app para as aulas online e deixou o espaço físico aberto para que os alunos pudessem ir buscar o material didático impresso. Apesar dos esforços, as barreiras foram aumentando. O celular é o único equipamento que poderia ajudá-la com o estudo, mas a baixa qualidade impediu o prosseguimento das aulas. Faz cerca de um mês que ela não acompanha mais as classes. A mãe da jovem, Cristiane Conceição de Azevedo Ferreira, de 45 anos, está desempregada e se entristece com a situação. “Eu ficava do lado dela, escutava as aulas, mas o duro é entender tudo aquilo”, diz. Alana diz que está decepcionada e sem saber como será seu futuro. “Para arrumar um serviço, você precisa do estudo. Mas não dá só para ter força de vontade”, conta a jovem, que pretende voltar às aulas.
Gabriel, 20 anos. Depois de terminar o ensino médio, em 2017, Gabriel Nunes não sabia muito bem o que fazer para dar seguimento aos estudos. Há tempos, vinha trabalhando no negócio da família, um pet shop na zona leste da capital paulista. No ano passado, se inscreveu para o processo seletivo do Cursinho Popular da EACH/USP, que prepara jovens para o vestibular. “Comecei a fazer à noite. Gostei do material, do pessoal. Eu trabalhava, minha vida era corrida, mas saía mais cedo e conseguia estudar.” Com a pandemia, no entanto, ficou difícil acompanhar as aulas online. O trabalho passou a exigir mais e o pai, já de idade, foi diagnosticado com câncer de próstata. Gabriel teve de desistir. “Nem saí dos grupos. Sempre que dá, tento ver alguma coisa. Mas é quase impossível acompanhar.” Apesar da tristeza e de saber o quanto é complicado para o futuro ficar sem estudar, ele acabou se conformando. Resolveu descartar a prova do Enem nesse ano. Quando as aulas voltarem a ser presenciais, Gabriel afirma que estará lá para seguir em frente. É uma promessa. Maysla, 19 anos. O objetivo para 2020 era fazer o cursinho preparatório da USP, a prova do Enem, o vestibular e, no ano seguinte, entrar para a faculdade de Psicologia ou de Design de Interiores. Havia um roteiro e o sonho parecia logo ali, mas teve uma pandemia no meio do caminho. “Sempre tive dificuldade para estudar sozinha e não tenho muito acesso, não tenho computador. As aulas online começaram em março, conseguia fazer pelo celular, mas agora ele está quebrado e só algumas vezes consegui entregar atividades”, conta Maysla dos Anjos Araújo, que mora em Artur Alvim, zona leste de São Paulo.
A equipe do cursinho se esforçou para que ela permanecesse estudando, mas não deu para ir adiante. Com os sonhos em mente, a jovem pretende fazer o Enem para testar seus conhecimentos. O objetivo mais urgente, no entanto, é conseguir um emprego. E, depois, com renda própria, quer voltar a fazer cursinho e “quem sabe entrar na faculdade”. João, 14, e Marina, 15. Quem fala pelos adolescentes é a mãe deles, a técnica de enfermagem Raquel Bueno dos Anjos, de 35, que deixou o emprego em junho para dar conta de cuidar dos três filhos – o caçula, Vitor, tem 2 anos. O menino mais velho está no 7º ano do fundamental em uma escola municipal de São Paulo enquanto a menina cursa o primeiro ano do ensino médio em uma instituição estadual. Com a renda familiar diminuída, Raquel precisou reduzir o pacote de internet, o que tornou as aulas online mais difíceis. A qualidade da rede também não é boa no bairro Vila Industrial, zona leste da capital paulista. “O Zoom dificilmente carrega, cai toda hora. Tenho um notebook antigo e um celular que teria de servir para os dois mais velhos”, diz a mãe. Além das dificuldades de equipamento e de acesso, a saúde de Marina, que sofre com crises de ansiedade, piorou. “Ela chorava o dia inteiro, eu ficava nervosa e virava uma bola de neve tudo aquilo.” O resultado é que os dois adolescentes interromperam os estudos. “Nenhum deles está fazendo aula online desde a quarta fase de atividades.” Raquel acredita que este será um ano perdido para a educação dos filhos. Com medo do coronavírus, ela não pretende enviar os filhos para o colégio, caso as aulas voltem a ser presenciais.
*”Lucro das empresas de capital aberto tem queda de 81.9% no 1º semestre”* - Passados pouco mais de cinco meses desde que o Ministério da Saúde declarou o “estado de transmissão comunitária” do coronavírus, a avaliação do impacto da pandemia no mundo dos negócios começa a ganhar, enfim, uma base mais sólida para lhe dar sustentação. Com a publicação da maior parte dos balanços do segundo trimestre pelas empresas de capital aberto, surgiu um retrato mais fiel sobre a extensão do estrago. Se, de um lado, os balanços mostram que as previsões mais pessimistas de muitos analistas não se confirmaram, de outro revelam que a pandemia não deixou de castigar duramente a maior parte das grandes empresas do País. Segundo estudo feito com exclusividade para o Estadão pela Economatica, uma empresa de dados de mercado, as companhias não financeiras de capital aberto tiveram redução de 81,9% no lucro líquido no primeiro semestre de 2020, em relação ao mesmo período do ano passado. Os ganhos caíram de R$ 49,2 bilhões para R$ 8,9 bilhões. “Foi uma queda dramática”, diz Evandro Buccini, diretor de gestão de recursos da Rio Bravo, empresa de investimentos fundada pelo economista Gustavo Franco, expresidente do Banco Central.
Distorção. O levantamento incluiu 218 empresas não financeiras, de diferentes ramos de atividade, que divulgaram balanços até 21 de agosto. Como os resultados de Petrobrás, Vale, Braskem, Suzano, Oi e Azul provocariam grande distorção nos dados, elas foram excluídas da amostra. Se fossem incluídas na pesquisa, o resultado consolidado do primeiro semestre seria ainda pior. O lucro de R$ 8,9 bilhões viraria um prejuízo de R$ 76,7 bilhões. Mas, mesmo sem elas na conta, o resultado mostra um quadro sombrio. Uma queda desta magnitude nos lucros das grandes companhias se propaga por toda a economia e tem efeito perverso no mercado de trabalho. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), menos da metade dos brasileiros em idade de trabalho estava ocupada no segundo trimestre, no período crítico da crise. Foi a primeira vez que isso aconteceu desde o início da série, em 2012. Um contingente de 77,8 milhões de pessoas em idade de trabalhar – 10,5 milhões a mais do que no primeiro trimestre – estava fora do mercado. A taxa de desemprego, que era de 10,5% na primeira semana de maio, passou para 13,7% na última semana de julho e teve ligeira redução no início de agosto, para 13,3%, dado mais recente do IBGE. Em três meses, um batalhão de 2,8 milhões de pessoas juntou-se ao exército de desempregados do País, elevando o total a 12,6 milhões. O efeito da pandemia nas empresas, porém, não foi homogêneo. Dos 20 ramos de atividade considerados no levantamento, 11 conseguiram fechar no azul e 9 ficaram no vermelho. Dois setores tiveram até aumento de lucro em relação ao primeiro semestre de 2019, o do agronegócio e pesca, com alta de 12,9%, e o de máquinas industriais, com crescimento de 11,9%. Mas empresas têxteis, de papel e celulose, siderúrgicas e de veículos e autopeças acusaram pesadas perdas. O setor de transporte e logística, que inclui a Gol, cujo prejuízo chegou a R$ 2 bilhões no segundo trimestre, também foi atingido severamente pela crise. Os bancos e outras instituições financeiras, avaliados à parte, ainda conseguiram fechar o semestre com ganho líquido de R$ 16,67 bilhões, segundo a pesquisa, apesar da queda de 25,3% nos lucros ante 2019, em razão das elevadas provisões feitas para cobrir eventuais calotes no crédito.
Mundo real. Mesmo com o impacto dramático nos lucros, alguns analistas dizem que o resultado foi melhor do que o esperado meses atrás. “No começo de março, havia uma visão de fim do mundo e isso não parecia excesso de pessimismo”, afirma o economista Adriano Pitoli, ex-diretor de análise setorial da Tendências Consultoria e ex-chefe do núcleo da Secretaria de Indústria e Comércio do Ministério da Economia em São Paulo. “Está doendo? É claro que está. Mas, ainda que os balanços estejam mostrando um resultado ruim, minha percepção é de que a grande maioria das empresas está conseguindo sair da pandemia surpreendentemente bem.” Para Buccini, a situação das companhias abertas não representa a de milhões de empresas espalhadas pelo Brasil. “Normalmente, as empresas abertas vão melhor do que a economia que as pessoas sentem. A Bolsa brasileira não reflete o mundo real. Só tem empresas muito grandes e muitas são líderes de mercado”, diz. “O Magazine Luíza e a Via Varejo podem montar um esquema de emergência, uma operação online mais robusta, com logística organizada, mas poucas empresas têm condições de fazer isso.” Os donos e trabalhadores de bares e restaurantes e de negócios de eventos, entretenimento e turismo, entre muitos outros, que ainda estão cambaleando, sem nada ou quase nada no caixa, provavelmente vão concordar com ele.
*”Receitas sobem na crise, mas dólar mancha balanços”* - No auge da pandemia, no começo de abril, o presidente Jair Bolsonaro fez uma previsão sinistra: “Vai quebrar tudo”, afirmou, ao criticar as medidas de isolamento social decretadas por governadores e prefeitos, que paralisavam de forma despropositada, em sua visão, a economia do País. Mas, decorridos quase cinco meses de sua “profecia” apocalíptica, encampada por analistas de diferentes orientações políticas, a realidade revelou um quadro bem mais palatável, apesar dos danos inevitáveis provocados pela pandemia nos negócios. Com a publicação dos balanços do segundo trimestre pelas empresas de capital aberto, uma informação surpreendente veio à tona. Embora os lucros tenham caído 81,9% no primeiro semestre do ano ( ler mais na pág. B1), as vendas das companhias abertas não financeiras mostraram um vigor que pouca gente esperava, mesmo nos cenários mais otimistas. De acordo com uma pesquisa feita com exclusividade para o Estadão pela Economatica, uma empresa de dados financeiros, a receita líquida operacional – termo contábil que designa o valor obtido nas vendas depois dos impostos – teve expansão de 7% no período. Passou de R$ 734,4 bilhões, nos primeiros seis meses de 2019, para R$ 785,8 bilhões, em igual período deste ano.
Prova de fogo. O estudo incluiu 218 empresas abertas não financeiras que divulgaram seus balanços trimestrais até o dia 21 ( ver quadro ao lado). Segundo Einar Rivero, gerente de relacionamento institucional da Economatica e responsável pelo levantamento, como os resultados de Petrobrás, Vale, Braskem, Suzano, Oi e Azul provocariam uma grande distorção nos dados, elas foram excluídas da amostra. Os bancos, as companhias de seguro e outras instituições financeiras, que têm indicadores com características diferentes daqueles do chamado “setor produtivo”, também ficaram de fora. “O pessoal está preocupado, com razão, com a dívida pública, que está chegando perto de 100% do PIB (Produto Interno Bruto) por conta do enfrentamento da pandemia. Mas, se a gente pensar que teve uma prova de fogo terrível, pela qual todo mundo passou, o resultado das empresas é muito bom”, diz o consultor Adriano Pitoli, ex-diretor de análise setorial e regional da Tendências Consultoria e exchefe do núcleo da Secretaria de Indústria e Comércio do Ministério da Economia em São Paulo.
Desempenho forte. “O impacto da pandemia, de maneira geral, não foi tão grave. Os resultados foram melhores do que a gente imaginava”, afirma o economista Carlos Sequeira, responsável pela área de pesquisa de ações do BTG Pactual para a América Latina, no escritório do banco em Nova York. De acordo com Sequeira, apesar da surpresa positiva, o crescimento apontado pela pesquisa pode estar superestimado. Ele diz que, além da exclusão das seis empresas mencionadas acima, seria preciso eliminar também a JBS e a Marfrig, que tiveram desempenho muito forte neste quesito. Só a JBS teve crescimento de receita líquida operacional de R$ 28,8 bilhões no primeiro semestre de 2020, em relação ao mesmo período de 2019, conforme os dados da Economatica. A Marfrig teve um incremento de receita de mais R$ 10,6 bilhões. Com a exclusão das duas, o crescimento das 216 empresas não financeiras restantes seria de 1,6% e não de 7%, como ficou com a inclusão delas na amostra. Ainda assim, levando em conta o impacto da pandemia, não seria um resultado ruim. “A performance da JBS e da Marfrig foi fora do normal. Isso provoca uma distorção nos números gerais”, afirma.
Fenômeno contábil. A grande questão, diante desses números, é o que levou à queda dos lucros das empresas, se a receita líquida operacional foi positiva no semestre, mesmo sem a JBS e a Marfrig? A resposta, de acordo com os analistas, está na alta do dólar. Sequeira diz que, embora muitas das empresas abertas sejam exportadoras, beneficiando-se da alta da moeda americana, grande parte também tem dívidas dolarizadas. Em tese, uma coisa estaria “casada” com a outra e não traria grandes impactos contábeis. Mas, pela legislação, elas são obrigadas a atualizar a dívida nos balanços pelo dólar de 30 de junho, que tinha acumulado uma alta de 36% no semestre. Enquanto as receitas em dólar das exportações virão com o tempo, à medida que as vendas forem efetuadas, os valores da dívida em reais têm de ser atualizados na data de fechamento de cada balanço. “A empresa não tira efetivamente aquele dinheiro do caixa e, muitas vezes, a dívida em dólar nem muda, mas em reais ela cresce muito e isso acaba ‘comendo’ o resultado operacional e transita para o lucro”, afirma Sequeira. A queda no lucro líquido das empresa abertas no primeiro semestre, portanto, foi mais um fenômeno contábil, que mostrou um quadro mais grave do que ele era. Para José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, o lançamento das dívidas em dólar pela cotação atualizada é uma operação semelhante às provisões feitas pelos bancos para cobrir eventual inadimplência dos clientes. “Essa provisão só vai se transformar em algo real se o devedor não pagar. Se ele pagar, parte dela vira lucro”, diz. “Quando chegar a hora de pagar, o impacto no caixa poderá ser muito menor.”
Juro baixo. Em relação à diminuição dos juros, Sequeira diz que, no geral, o impacto nos balanços das empresas abertas é positivo, porque eles estão endividadas numa relação de 1,5 vez as receitas antes das despesas financeiras, dos impostos e da depreciação e amortização (Ebitda). “Uma parte da melhora do lucro nos últimos anos tem vindo da redução da despesa financeira, porque as empresas estão gastando menos com juros.” Na visão de Adriano Pitoli, o impacto da redução dos juros, hoje em 2% ao ano, nível mais baixo da história, ainda é uma incógnita. Segundo ele, isso explica em boa medida a alta nas vendas de máquinas industriais, já refletida na receita operacional líquida do setor. “Se a taxa de juros é 7% ao ano e eu sei que uma máquina nova tem maior produtividade que uma usada em, digamos, 10%, não troco a máquina porque a conta não fecha”, afirma. “Agora, se o juro é 2% ou 3% ao ano, faço um cálculo financeiro simples e vejo que vale a pena comprar. Pago o financiamento só com o aumento de produtividade da máquina.” Se tal movimento se consolidar, será uma mudança considerável para o País.
 
CAPA – Manchete principal: *”Varejistas on-line mudam os rumos da logística”*
*”Auxílio emergencial sustenta o consumo nas regiões mais pobres”* - O auxílio emergencial ajudou a sustentar o consumo, sobretudo de bens e serviços essenciais, em regiões mais pobres do país, segundo indicadores coletados pelo Banco Central e fontes privadas, como a Cielo e o Santander. Os dados atestam a recuperação da atividade no Norte e Nordeste, mas também apontam para a fragilidade do processo. Isso porque o peso dessas regiões no Produto Interno Bruto (PIB) ainda é pequeno e, como há dependência do dinheiro fornecido pelo governo, a retomada está sujeita a mudanças no benefício. Em seu mais recente Boletim Regional, o BC observou que, na média das três primeiras semanas de julho, o nível de consumo da região Norte era 37% superior ao momento pré-pandemia (média semanal de 4 de fevereiro a 16 de março). No Nordeste e Centro-Oeste, o crescimento atingiu 16%, enquanto Sul e Sudeste estavam apenas 1% e 2% acima, nesta ordem. O levantamento usou dados de venda com cartão de débito da Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP) para medir a “temperatura” do consumo das famílias por municípios, regiões e faixas de renda. O relatório mostra gráficos em que municípios brasileiros mais pobres (no primeiro e segundo quartil de renda) apresentavam, em 20 de julho, um patamar de recuperação de vendas a débito mais forte do que o observado entre as cidades mais ricas (terceiro e quarto quartil). O BC nota que cidades na base da pirâmide estão proporcionalmente mais presentes no Norte e Nordeste e que, nessas regiões, a diferença entre a força de recuperação do consumo em cidades mais pobres e mais ricas era ainda maior.
Para o BC, é possível que municípios mais pobres “tenham tido menores reduções de consumo no início do agravamento da pandemia da covid-19 no país, por terem em suas cestas parcela maior de bens e serviços essenciais ou por terem sido atingidos mais tardiamente pela epidemia”. Além disso, o BC afirma que municípios dos quartis inferiores de renda foram mais favorecidos pelo auxílio emergencial, “contribuindo para retomada mais expressiva do consumo”. Economistas ponderam que parte dos beneficiários do auxílio não é bancarizada e pode não ter sido captada pelo BC. “Mas como foi uma massa de recursos grande, mexeu com o consumo. Acho que [o diagnóstico] está na direção está correta”, afirma a economista Tania Bacelar, professora emérita da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e sócia da consultoria Ceplan. Mapeamento feito por Cassiano Trovão, doutor em desenvolvimento econômico pela Unicamp e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mostra que a participação do auxílio, considerando a massa de renda de todas as fontes, supera 25% na maior parte dos Estados do Norte e Nordeste. No Centro-Oeste, Sudeste e Sul, a fatia não chega a 15%. Apenas no Maranhão, o benefício representa quase 39% da massa de renda total; em Alagoas, 32%; no Piauí, 30%; e no Pará, 29,5%. No Nordeste, cidades pequenas chegam a ter boa parte da população beneficiada pelo auxílio, diz Tania. “Isso dinamiza a feira, a farmácia, a padaria, a manicure.” Além do volume de pessoas atingidas, a renda dessas famílias também cresceu substancialmente. “Quem estava no Bolsa Família ganhando R$ 200 viu a renda triplicar”, diz Tania.
O IGet, índice de vendas no varejo do Santander, captou um crescimento maior do comércio no Norte e Nordeste já em junho. No mês, as regiões registraram avanço médio de 5,5% ante maio, enquanto o crescimento médio de Centro-Oeste, Sudeste e Sul foi de 2,2,%, segundo Lucas Maynard, economista do banco. O IGet geral subiu cerca de 4%. Maynard diz que as diferenças regionais têm, em algum grau, relação com os quartis de renda e o peso do auxílio, mas ele observa também que o tombo no Norte e Nordeste foi maior. “No vale da crise, em abril, a perda média foi de 18%, contra 10% para as outras regiões”, diz. Em julho, Norte e Nordeste viram o IGet avançar, na média, 3,3,%, enquanto Centro-Oeste, Sudeste e Sul cresceram 10% - e aqui também há algum efeito da base comparativa, observa Maynard. No Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), que mede o faturamento nominal do setor, as diferenças regionais parecem ter mais relação com a questão sanitária, aponta Gabriel Mariotto, superintendente-executivo de Inteligência da Cielo. O índice mostra que, até 22 de agosto, o faturamento das vendas físicas na região Norte já estava 5% acima do período pré-pandemia (fevereiro ajustado). No pior momento, em abril passado, a queda foi de 25%, sempre em relação ao pré-crise. No Sul, a queda naquele mês foi de 27%, melhorando para -16% em maio, mas, desde então, o índice ronda quedas entre 13% e 14%. “São extremos de comportamento. O Norte foi muito afetado de início, teve fechamento forte da economia e hoje vemos uma redução na crise da saúde. Já o Sul teve retomada mais rápida em maio, parecia que a região não seria tão afetada, mas depois os casos começaram a aumentar e vemos estabilidade da taxa de recuperação”, diz Mariottto.
Sudeste e Nordeste, por sua vez, foram regiões atingidas desde o começo da pandemia e seguem com a atividade penalizada. O consumo pela ótica da Cielo ainda está 16% e 14%, respectivamente, abaixo do pré-crise. Os economistas relatam incertezas a respeito da sustentação do consumo nas cidades mais pobres se o auxílio for encerrado. “Aquele respiro que vemos pode desaparecer”, diz Trovão, acrescentando que o mercado de trabalho ainda está muito fraco. Para o BC, “uma recuperação mais vigorosa da economia nacional pode depender do retorno mais amplo da oferta de bens e serviços e do consumo da população dos municípios de renda mais alta”. Maynard, do Santander, observa que o varejo de Estados de peso, como de São Paulo e Rio de Janeiro, ainda não recuperou toda a perda da pandemia, o que abre espaço para avanços. O ICVA do Brasil, que contabiliza também vendas do varejo on-line, estava, até 22 de agosto, 12% abaixo do verificado em fevereiro. Sem considerar os segmentos ligados a turismo e transporte, o faturamento do e-commerce avança 43,4% ante o pré-crise. Incluindo os dois segmentos, afetados pela parada de atividades presenciais, o indicador total registrou em agosto seu primeiro resultado positivo, com alta de +2,6%. Em abril, caía 30,4%.
*”Equipe econômica defende o teto de gastos”* - Às vésperas da apresentação do Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) para 2021, a equipe econômica amplificou os discursos em defesa da retomada da trilha fiscal anterior à pandemia no ano que vem. Na última sexta-feira, marcada pela divulgação do resultado do Tesouro, dos dados da dívida em títulos e da revisão da estratégia de financiamento do Tesouro, os técnicos e o próprio ministro Paulo Guedes enfatizaram a importância do compromisso com o teto de gastos. “A simples perda de credibilidade do processo de consolidação fiscal faria com que as taxas de juros aumentassem e que os investimentos privados diminuíssem, o que prejudicaria o crescimento econômico do país e reduziria a renda e a geração de empregos. Em termos numéricos, um aumento de 1 ponto percentual na taxa de juros reduziria o PIB entre R$ 52 e R$ 92 bilhões em um ano”, disse o Tesouro em documento divulgado na sexta-feira. Variações da mesma mensagem, sempre vinculando a responsabilidade ao teto, foram ditas pelo secretário especial de Fazenda, Waldery Rodrigues, pelo secretário do Tesouro, Bruno Funchal, e pelos demais técnicos. O subsecretário da Dívida Pública do Tesouro, José Franco, explicou que os investidores estrangeiros que abandonaram os títulos nacionais devem voltar em algum momento. “Mas [isso está] ligado à consolidação fiscal”, salientou. Ele destacou que as taxas de juros ofertadas nesse papéis “estão atrativas”. “O que falta é reduzir a incerteza”, disse, lembrando que o BC “tem feito alerta sobre a necessidade de ter responsabilidade fiscal”.
O limite constitucional de despesas, que neste ano não está funcionando devido ao enfrentamento à pandemia de covid-19, foi tratado como intocável. O Orçamento de 2021 deve trazer uma despesa total de R$ 1,485 trilhão, reflexo da incidência da inflação de 2,13% nos 12 meses encerrados em junho. Assim, a despesa do governo federal só poderá aumentar R$ 31 bilhões, na comparação com o limite definido para este ano, que foi de R$ 1,454 trilhão e que não está sendo seguido por causa da covid-19. A leitura da equipe econômica é que as dúvidas que surgiram sobre o real compromisso do governo com o dispositivo fizeram os juros dos títulos com prazo mais longo subirem bastante neste mês. Isto dificultou o processo de renovação (rolagem) da dívida, forçando o Tesouro a trabalhar com emissões de prazo mais curtos, resgates de parte do que vencia e ainda insistir junto a um resistente Banco Central que parte do ganho cambial das reservas internacionais fosse transferida para compor o caixa federal, que vinha sendo reduzido e encostava no limite mínimo. Esse quadro todo levou o Tesouro a anunciar uma revisão de seu Plano Anual de Financiamento (PAF), instrumento que norteia a gestão da dívida. As principais mudanças foram na maior participação de dívida a vencer em 12 meses, que poderá representar até 28% da dívida - hoje é 22,1% - e de títulos pré-fixados de prazo mais curto, que representam 28,4% e poderão chegar a 34%.
Os ajustes no PAF foram feitos considerando que o país aumentou fortemente sua necessidade de financiamento, que chegou a R$ 1,13 trilhão, já considerando os R$ 325 bilhões injetados pelo BC. Mesmo assim, esse valor é subestimado, pois considera uma previsão de déficit que ainda não incorporou a prorrogação do auxílio emergencial até o fim do ano. Segundo o resultado do Tesouro de julho, também divulgado na sexta, o saldo negativo primário acumulado no ano ficou em R$ 505,2 bilhões. Para o ano, a estimativa é de R$ 787,4 bilhões, mas, com a prorrogação do auxílio, o déficit poderá chegar perto de R$ 1 trilhão.
*”Proposta não prevê alta do salário mínimo”* - Pelo segundo ano consecutivo, a proposta orçamentária foi elaborada sem aumento real para o salário mínimo. A razão para isso é que o piso salarial ficou sem uma política específica desde 2019, sendo garantida pelo texto constitucional apenas a correção pela inflação passada. O ano de 2019 foi o último em que o salário mínimo foi corrigido pela inflação do ano anterior, acrescido do crescimento real do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes. Essa política de valorização do mínimo foi fixada pela lei 13.152, de julho de 2015, a partir de iniciativa da ex-presidente Dilma Rousseff. O piso salarial é corrigido pelo INPC, calculado pelo IBGE, e, como ele será muito baixo neste ano, as despesas da União também crescerão menos. O salário mínimo é o piso dos benefícios previdenciários e assistenciais. O INPC corrige também os benefícios com valor acima do mínimo. A última estimativa feita pela Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia, em julho, foi que o INPC deste ano ficará em 2,1%. Com esta correção, o salário mínimo passaria, no dia primeiro de janeiro de 2021, dos atuais R$ 1.045 para R$ 1.066,94. O governo estima que o aumento de 1 ponto percentual da inflação medida pelo INPC gera um acréscimo de R$ 7,6 bilhões nas despesas da União, especialmente pelo impacto nos gastos com benefícios previdenciários, conforme o anexo de riscos fiscais do projeto de lei de diretrizes orçamentárias (PLDO) para 2021. Assim, apenas por causa do INPC de 2,1%, as despesas da União no próximo aumentariam R$ 15,1 bilhões, em termos líquidos. Isto porque o aumento do INPC também eleva as receitas da União. No caso do INPC de 2,1%, as receitas aumentariam R$ 997,5 milhões.
Além do impacto do INPC, as despesas da União também aumentam por causa do que os economistas chamam de crescimento vegetativo, que é a quantidade do número de benefícios concedidos que aumenta por conta de questões demográficas, de regras legais e outras. A proposta orçamentária para 2021 será encaminhada hoje ao Congresso pelo governo. O limite das despesas primárias (não inclui o pagamento de juros e amortizações da dívida pública) vai aumentar em R$ 31 bilhões, em relação a 2020, de acordo com a regra do teto de gastos, instituída pela emenda constitucional 95. É o menor aumento do limite para a despesa desde que ele foi instituído, em dezembro de 2016. Pela regra do teto, a despesa para o ano seguinte é igual à despesa do ano em curso, corrigida pela inflação.
*”Pandemia motiva queda recorde no PIB do 2º trimestre”* - A recuperação parcial de grandes setores econômicos em maio e junho, após o colapso registrado em abril, não será capaz evitar uma queda sem precedentes da atividade brasileira no segundo trimestre. Medidas de isolamento para conter a pandemia de covid-19 fecharam fábricas e milhares de estabelecimentos pelo país, derrubaram investimentos e, em menor magnitude, o consumo das famílias. Desde abril, considerado o fundo do poço, até houve melhora nas projeções, conforme Estados foram relaxando a quarentena, mas o Produto Interno Bruto (PIB) ainda deverá recuar inéditos 9,2% no segundo trimestre, ante o primeiro, feitos os ajustes sazonais. É o que aponta a mediana de 49 economistas consultados pelo Valor Data. As projeções para as Contas Nacionais Trimestrais que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) vai divulgar amanhã vão de queda de 11,3% a recuo de 7%. Na comparação com o mesmo período do ano passado, a baixa prevista é de 10,5%. Se a economia do país nunca viu número tão negativo, também é verdade que há alguns meses a situação parecia um pouco pior. Em maio, na divulgação do PIB do primeiro trimestre, que caiu 1,5% já afetado pela pandemia, a expectativa era de uma queda de 11,1% no resultado de abril a junho. Para o ano, a retração estimada também veio diminuindo e passou de 6,5% para 5,3%, ainda um tombo pior que os anos da recessão 2015-2016.
Depois de abril, a expectativa era que a atividade ficasse “parada” no mês seguinte. Mas maio e junho vieram mais positivos, diz Guilherme Loureiro, economista-chefe da gestora Trafalgar Investimentos, que prevê queda de 8% no PIB do segundo trimestre sobre o primeiro. “A recuperação não é homogênea, mas é razoável dizer que há surpresa positiva”, afirma, ponderando que a crise, ainda assim, é muito aguda. Responsável pela retomada gradual da economia entre 2017 e 2019, a demanda das famílias, deve cair 9,8% no segundo trimestre, ante o primeiro, segundo a mediana dos economistas. O auxílio emergencial ajudou a arrefecer o resultado negativo, mas a queda no consumo, especialmente de serviços, superou o impulso dado pela ajuda do governo. “A pandemia derrubou a demanda por bens e serviços, seja por uma atitude de precaução das pessoas, seja pelo isolamento social”, diz Vitor Vidal, economista da XP Investimentos. A casa também estima queda de 8% no PIB, com recuo de 7,5% no consumo das famílias. Luka Barbosa, economista do Itaú Unibanco, observa que, ao consumirem menos, as pessoas também pouparam mais no período. “A poupança deve ter subido bastante no segundo trimestre”, afirma. O banco prevê queda de 9,1% no PIB. Ainda no lado da demanda, a formação bruta de capital fixo (FBCF, medida do que se investe em máquinas e equipamentos, construção e inovação) deve registrar retração de 20,2%, segundo a mediana, abalada pelo ambiente de extrema incerteza causado pela pandemia. Nos cálculos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que desagrega as estimativas, a FBCF deve cair 24,5% no segundo trimestre, com recuo de 33,3% em máquinas e equipamentos, baixa de 13,9% na construção e de 18,9% em “outros ativos”, que inclui inovação, por exemplo.
Já o setor externo deve dar contribuição positiva ao PIB. “É o grande destaque do lado da demanda. A China caiu muito rápido, mas também voltou rápido, então temos a exportação relativamente bem, e a importação ajustada pela queda na demanda doméstica”, diz Loureiro, da Trafalgar, que estima exportações com alta de 1,1%, e queda de 15,6% nas importações no segundo trimestre. Sob a ótica da oferta, o destaque negativo deve ser o setor de serviços, responsável por cerca e 70% do PIB. Mas o desempenho entre seus segmentos não será homogêneo. Luka Barbosa, do Itaú, observa intermediação financeira, administração pública e atividades imobiliárias, que são metade do setor, não foram muito afetadas pela crise. Mas comércio, transporte e armazenagem devem registrar queda forte. O segmento “outros serviços”, responsável por cerca de 15% do PIB total do país, deve ser o de pior desempenho, com recuo de expressivos 29,3% na comparação com o mesmo período do ano passado. “Ali está tudo que envolve aglomeração: serviços prestados às famílias, cultura, lazer, entre outros”, diz. Essa parte do PIB deve continuar sofrendo no terceiro trimestre. A expectativa é de queda forte, de 18,8% na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo Barbosa. “Esse segmento não volta rápido, até que as pessoas estejam mais confortáveis em sair de casa. E ainda há medidas de isolamento a serem relaxadas.”
A indústria deve ter um recuo forte puxado pela transformação. Pode haver alguma surpresa “menos negativa”, na construção, segundo Vidal, da XP. “É um setor que durante a pandemia foi considerado essencial, não parou”, afirma. Indicadores positivos como o aumento na venda de cimento podem contrabalançar em parte a queda forte da massa de renda do segmento. “Estou curioso com esse número. Pode surpreender”, diz Vidal. Na MCM Consultores, a projeção para queda do PIB no segundo trimestre, na comparação com o primeiro, chegou a ser de 11,5%, mas agora está em 9,4%. O auxílio emergencial ajudou a sustentar parte do consumo e da produção industrial, diz o economista Alexandre Teixeira. E o Banco Central atuou com medidas fortes para ampliar a liquidez e manter as condições de crédito. “Até em razão da intervenção governamental, as condições financeiras, que colapsaram no fim de março e em abril, retornaram rapidamente ao patamar de neutralidade em maio e junho.” Fugindo - de novo - à regra, a agropecuária deve ter seu segundo trimestre de crescimento. Após a alta de 0,6% nos três primeiros meses do ano, a mediana das estimativas aponta ganho de 1,2% no segundo trimestre, na série dessazonalizada.
*”País deve crescer 5% no 3º trimestre”* - Atividade econômica tende a se recuperar no terceiro trimestre, mas quadro fiscal preocupa
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*”Média semanal de mortes por covid-19 cai 9% no país”* - Conforme o consórcio de veículos de imprensa, número total de vítimas fatais da pandemia chegou a 120.896
*”Em meio à pandemia, convenções partidárias terão até drive-thru”* - Tradicionais festas que dão início ao calendário eleitoral abrem lugar neste ano a lives
*”Fux deve priorizar julgamento de ações com impacto fiscal”* - Futuro presidente do Supremo Tribunal Federal é um entusiasta da “análise econômica do direito”
*”Moisés deve ser cassado e Bolsonaro tenta salvar vice”* - O presidente Jair Bolsonaro e seu clã estão empenhados em salvar a vice-governadora de Santa Catarina, Daniela Reinehr (sem partido), no processo de impeachment que deve cassar o mandato do governador do Estado, Carlos Moisés (PSL). Bolsonaro autorizou Karina Kufa, sua advogada e tesoureira do Aliança Pelo Brasil, a trabalhar na defesa de Reinehr. Já seu filho e deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) atua há semanas em articulações no Estado em favor dela. Caso se confirme o afastamento de Moisés, sem que isso afete a vice, o presidente terá uma aliada fiel no comando do Estado, onde o desempenho do bolsonarismo em 2018 foi avassalador: ele recebeu 3 de cada 4 votos válidos no Estado no segundo turno (75,92%). “A vice-governadora nem deveria estar respondendo esse processo de impeachment, nitidamente são interesses políticos que afrontam a democracia”, diz Kufa. Ela impetrou um mandado de segurança na sexta para desvincular a vice do caso que ensejou a abertura do processo de impeachment - uma equiparação salarial entre Procuradores do Estado e da Assembleia Legislativa (Alesc).
A tarefa da advogada, contudo, não será fácil. Ainda que a legitimidade jurídica da peça seja questionável (o Ministério Público e o Tribunal de Contas local não apontaram responsabilidade do governador, e menos ainda da vice), parlamentares, advogados e articuladores políticos atestam que a inexperiência de Moisés e Daniela levaram o desgaste a um ponto praticamente incontornável. A ideia é afastar rápido e julgar devagar: o governador e a vice podem deixar os cargos já em 16 de setembro, por até 180 dias, e uma nova comissão, com cinco deputados e cinco desembargadores do Tribunal de Justiça, analisará o processo. O presidente da Assembleia Legislativa catarinense, deputado Júlio Garcia (PSD), assumirá o governo temporariamente. Mas a conclusão dos trabalhos, deve ocorrer apenas em 2021 para que, confirmada a cassação, seja realizada eleição indireta, com os 40 deputados estaduais como votantes. Garcia, político da velha guarda e hábil articulador, é desde já o franco favorito. Ele foi indiciado em 2019 pelos crimes de fraude em licitação, integrar organização criminosa, corrupção ativa e ocultação de bens na Operação Alcatraz. A reportagem não conseguiu contatar o parlamentar. A trajetória de Carlos Moisés é das mais estranhas já registradas na política nacional. Ex-bombeiro aposentado, sem jamais ter feito política, decidiu no último dia do prazo legal registrar-se candidato a governador, apenas para que o PSL não ficasse sem nome na disputa. Mesmo sem ter qualquer proximidade com Bolsonaro, saiu do absoluto anonimato para ser eleito surfando na onda do 17.
De lá para cá, contudo, o governador rompeu com o bolsonarismo e, na verdade, com quase todo mundo. “O homem é ruim de ouvir. Ele gosta de quem concorda com ele. Eu era o líder e não tinha nem o telefone dele”, diz o deputado estadual Maurício Eskudlark (PL), que foi líder do governo por dez meses e hoje é ferrenho opositor. “Ele quis aumentar imposto do agronegócio, comprou briga com cooperativas, quis tirar recurso do Tribunal de Justiça, mandava projetos para a Assembleia sem consultar ninguém. Ele se isolou, não visitou 30 municípios [dos 295 do Estado]”, avalia o parlamentar. A reportagem tentou contato com Moisés, mas foi avisada de que ele não está atendendo a imprensa. O advogado que representa o governador no processo, Marcos Fey Probst, ressalta o caráter político do processo. “Este pedido de impeachment foi protocolado em janeiro e arquivado pelo presidente da Alesc em fevereiro. Em 30 de julho, ele reabre o caso alegando fatos novos. Nada aconteceu nesse período. É um impeachment de situação fática e jurídica sem pé nem cabeça, feito diante da ausência de uma base parlamentar”, diz. Outros seis pedidos de impeachment foram protocolados. O último é um combo do caso dos Procuradores, uma malfadada tentativa de montar hospitais de campanha para o combate à pandemia e, por fim, a compra de 200 respiradores por R$ 33 milhões feita pelo governo e que jamais foram entregues. O caso gerou a abertura de uma Comissão parlamentar de Inquérito (CPI) que responsabilizou Moisés pelo ocorrido.
Probst diz que o pedido que tramita foi o aceito justamente porque incluía a vice-governadora, prova de que se trata de estratégia para cassar a chapa e entregar o comando do Estado à Alesc. “Colocar a vice junto é a grande prova da virada de mesa. Ela foi governadora por 10 dias”. Ele também questiona o rito do processo. “É algo que urge a uma manifestação de instâncias superiores, pois todo o caso pode criar um precedente perigoso, já que há outros governadores que podem vir a ser alvos de impeachment, como o do Rio”. Daniela Reinehr diz confiar que a aproximação com o clã presidencial possa salvá-la. “Sempre me mantive fiel ao Bolsonaro. Somos todos crias dele, é o mentor que fez a gente. Eduardo tem sido grande parceiro, muito gentil e cuidadoso para que esse impedimento não aconteça no meu caso”, relata. Ela tem buscado convencer os deputados de que não tem vínculo com o caso. “O vice é uma figura com mera expectativa de poder. Nos dias em que estive como governadora, não tem nenhum ato meu, nenhuma assinatura sobre o ocorrido. É o primeiro processo que coloca o nome do vice em um processo de impeachment”. A votação dos nomes da comissão especial para analisar o impeachment foi uma prévia da disposição da Alesc em destituir Moisés em Daniela. Dos 40 deputados, 32 votaram a favor de uma composição amplamente desfavorável a eles, que receberam 5 apoios (houve dois ausentes e uma abstenção). Eskudlark afirma não ver até o momento chance de Daniela reverter o resultado. “A conduta dela é bem fora dos padrões da política: costuma andar com esquema de segurança maior que o governador, manda fazer varredura nos ambientes que vai. Quem é da política precisa conversar”. Já o possível substituto, Júlio Garcia, é visto como a antítese da dupla, colocando-o em posição privilegiada para uma eventual eleição interna. “Júlio vai assumir interinamente. Mas fazer mais uma mudança, se as coisas começarem a andar, é complicado. Então há uma forte tendência a manter Júlio, que tem bom diálogo com todos”, comentou.
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